Capítulo 1 - Conselho da Cidade
Foram 1326 anos desde que aquele pequeno planeta fora colonizado, se fosse possível usar apropriadamente o verbo 'colonizar' para definir o que ocorrera desde que a Terra foi devastada pela ação humana. As pestes e catástrofes climáticas geradas a partir da negligência e irresponsabilidade dos seres humanos acabaram por deixar o planeta seco, vazio e inabitável, como descrito no livro de Gênesis da Bíblia.
A necessidade urgente de migrar para outros planetas habitáveis alcançou êxito primeiramente naquele planetinha ao qual batizaram de Genarth, uma metonímia entre Gênesis e Terra (Earth).
Paul acordou sobressaltado naquela manhã, sentindo um peso excessivo em seu 'basecarb', outra metonímia que designava os corpos biológicos gerados em fábricas rigorosamente controladas e que, como o próprio nome já denotava era, simplesmente e embora não tão simples de se conceber, uma 'base de carbono' funcional.
Pois bem, o basecarb de Paul doía pesadamente quando acordou.
- Deve ser ansiedade pela reunião do conselho da cidade - pensou
Desde que recebera aquele basecarb, 22 anos antes, segundo a contagem da Terra, ele se esforçava para mantê-lo saudável, cultivando bons hábitos de alimentação, higiene e exercícios físicos. Nos anais da cidade, como em todos os outros dm todas as colônias humanas espalhadas pelo universo, todos preservavam a memória do que ocorrera há milhares de anos na antiga Terra, quando a guerra biológica se tornou insuportável, as nações desenvolvendo vírus para minar a economia do mundo e gerar oportunidades.
Vestiu-se lentamente, pensando na importância dos eventos daquele dia. Olhou para a cama e Marah, sua mulher, hospedada em um maravilhoso basecarb, ressonava tranquilamente. Era por ela e por todos os outros que ele acordara com aquele sentimento de que havia muito mais do que parecia, ao vestir seu anorak e tomar o desjejum.
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A cidade de Novamérica dispunha de um prédio austero e funcional, que abrigava os departamentos administrativos, como se fosse uma prefeitura. Mas ninguém usava esse termo, para evitar os erros e vícios políticos que culminaram na conhecida guerra de poder que havia levado a raça humana à derrocada. O prédio era, então, chamado simplesmente de Conselho que, diferentemente do sentido natural de pessoas deliberando sobre algo, era agora uma troca de conhecimento e experiências pelo bem maior. Paul era um membro desse Conselho, assim como toda a população de Novamérica. Não havia mandatários nem subordinados, mas fiscais, uma vez que todos os serviços eram controlados por um sistema único e computadorizado, baseado em nuvem, a que todos tinham acesso. Qualquer alteração naquela rotina deveria ser anuida pela comunidade no geral, ou por aqueles que desfrutavam de capacidade cognitiva para deliberar.
No salão principal, construído de forma a permitir a interação de todos os conselheiros, era possível divisar, através de grandes painéis em volta, os depósitos com a maquinaria, as ferramentas e as matérias primas que robôs especialistas manipulavam incansavelmente, sem pausas. Tudo aquilo era essencial ao bem estar da população daquela cidade e todas as cidades dispunham de um sistema igual.