There is a special place where we stop being who we are to simply move beyond our borders. That's where our dream becomes real and tangible, based on our experiences and feelings. Here is one such place. Soak your conscience and live by every word as if you had said the same.
2005-12-27
O Resgate de Giselda
Giselda, uma moça bonita, morena, inteligente e espirituosa. Mudou-se par Londres. Saiu de Belo Horizonte, ajuntando na mala todas as suas esperanças, seus medos, suas dificuldades e aptidões, deixando em stand-by as profissão de professora, pouco prestigiada neste país, e ganhou o mundo. No seu coração estava a sede de conquista, a possibilidade do ilimitado, a necessidade de se superar. Deixou uma família linda e maravilhosa que, apesar da saudade, a apoiou no seu projeto. -Ela sempre sonhou em ir pro exterior - confessa Dona Zilda, a mãe, entre saudosa e orgulhosa, uma baiana forte e simpática, como normalmente são as baianas. Com um franco sorriso e fartos cabelos encaracolados, Giselda foi distribuir simpatia em Londres, presenteando os carismáticos britânicos com o melhor da beleza trigueira deste nosso país continental. A pele morena era como uma placa em néon :”sou brasileira", mas o seu olhar firme e determinado era a própria obstinação. Como era de se esperar, o grande sorriso conquistou os sisudis ingleses e Giselda ficou lá. A saudade dos que a amam teve que ser revista. Ficou um tempo silenciosa, até se situar. Hoje, estabilizada e feliz, trabalhando, divertindo-se e magnanimamente se enchendo da cultura mundial concentrada nos nichos londrinos, ela se realiza. Com pouco tempo chegaram as fotos da Giselda posando na Trafalgar Square, diante do Parlamento, Big Ben, Távola Redonda, os lugares de sempre.... Londres ficou ofuscada pela sua presença marcante na cidade. Morando na região do cruzamento das Ruas Royal com Carlisle, bem perto da Westminister Bridge e às margens do Tamisa, todos os dias acorda bem cedo e vai ao trabalho, como realmente se espera de alguem com a sua disposição. Mas num dia qualquer de trabalho, às vésperas do fim do ano, em que nada poderia acontecer para quebrar a rotina de Giselda, ela acorda despreocupada. Como sempre, planeja seu dia, coisa que não é próprio das mulheres, elas que perdoem este humilde narrador. Vai trabalhar daqui a pouco. Vestida com um pijama com um cachorrinho amarelo estampado (o preferido dela), apesar do frio da cidade, faz sua oração matinal, pedindo a proteção de Deus, que a olha embevecido, o grande coração pingando de amor por ela. Caminha Giselda para o banho, como sempre faz. O ritual, como se sabe, é igual para todas as mulheres, conforme descrito minuciosamente num site, por um brilhante e desconhecido autor, que aqui transcrevemos:
Tira a roupa no quarto e as separa delicadamente, sendo que algumas serão colocadas no cesto de roupa suja, segundo a tonalidade das cores.
Coloca o robe e caminha calmamente até o banheiro.
Se no caminho encontrasse o namorado ou marido, cobrriria o corpo e sairia correndo para o banheiro.
No banheiro, fecha a porta, tira o robe e pára diante do espelho.
Analisa o corpo. Força a barriga para fora para poder se queixar que está mais gorda do que realmente está.
Tira todos os brincos, jóias, bijuterias e deixa organizadamente na pia.
Antes de entrar no box, organiza a toalha para o rosto, a toalha para os braços e pernas, a do cabelo, etc...
Abre o chuveiro e aguarda calmamente a água esquentar, espera o ponto ideal.
Lava o cabelo com shampoo de abacate/mel com 83 vitaminas.
Repete o processo de lavar o cabelo com o shampoo de Camomila com 105 vitaminas.
Enche o cabelo com condicionador Próativo de babosa com mais de 100 proteínas e deixa por 15 minutos.
Lava o rosto com uma mistura de pêssego por 10 minutos ate que o rosto fique vermelho.
Lava o resto do corpo com sabão de nozes e morango para o corpo.
Tira o condicionador do cabelo. Este processo leva 10 minutos.
Ela deve estar segura de que todo o condicionador foi retirado.
Depilação de axilas, pernas e a área do biquíni.
Fecha o chuveiro.
Escorre toda a água dentro do box.
Sai do box e se seca com todas as toalhas já mencionadas. (uma delas é do tamanho da África)
Coloca uma toalha super absorvente na cabeça.
Revisa mais uma vez o corpo em busca dos detalhes.
Passa creme para o rosto, para a barriga, loção para o corpo, perfume, loção, creme para os pés, cotovelos, bumbum, mãos, desodorante, etc, etc, etc.
Coloca algumas das jóias/bijouterias e pega as outras. •
Já morrendo de frio, coloca o robe e retorna ao quarto.
Se encontrasse o namorado/marido pelo caminho, se cobriria mais ainda e sairia correndo para o quarto.
1:30 horas depois está vestida.
Desta vez acontece o inusitado. Enquanto ela tomava se banho rápido de uma hora e meia, todos os outros moradores da casa saíram, como era de se esperar em uma casa em que, os que não trabalham de fato, tem a escola como se compromisso diário. E a nossa Giselda não se dá conta de que está sozinha e trancada dentro de casa antes que isto seja terrivelmente evidente. Primeiro precisou tomar o seu breakfast de pão de queijo com goiabada, só pra não quebrar a tradição mineira. Feita a terrível constatação, começa então a busca de uma solução. Primeiro volta ao quarto onde dorme e revira as gavetas. Revirar é uma forma de dizer: Separa metodicamente todo o que encontra lá, conferindo peça por peça, tentando em vão encontrar a chave. Confere as 65 bolsas, e em qualquer delas encontra o que procura. Olha embaixo da cama, no peitoril da janela, nas ranhuras do aquecedor, um modelo vitoriano e eficiente. Senta-se na cama e tenta reviver os seus últimos instantes com a chave, na noite anterior. Foi a mesma noite em que placidamente dormiu no ônibus, confiante que no ponto final acordaria, o que não aconteceu, obrigando o condutor a fazer macaquices para acordá-la. Não se lembra de nada desde então. Vamos ver. Chegou, tomou um banho daqueles, fez um chá inglês e.... eureka! Está na cozinha, pensa, animada. E, na cozinha, depois de revirar os armários, conferir a chaleira (nem tão vitoriana assim), chega à conclusão que não está ali a bendita chave. O tempo passando. Atrasada no emprego, o que é uma temeridade em Londres, como é em qualquer lugar do mundo. Volta à sala, retira as almofadas do sofá e se acomoda nele, tentando recapitular o momento em que ali se assentou para ver televisão. Nesse instante sente algo tilintando ao alcance de sua mão, e abre um sorriso largo de satisfação. É uma chave. Apalpa-a, confere. Decepção, não é A CHAVE. Pensa em chamar os bombeiros, mas ainda há tempo antes de se desesperar. Confere cada cômodo e cada canto, nada. Neste momento já se encontra suada e exausta. Pensa em tomar outro banho, mas desiste, pois no momento é prioridade encontrar o que procura. Resolve ligar para o homem da casa. Ele não se encontra. Não, não vai voltar agora. Sim, foi a um lugar distante, no outro lado da cidade. Telefona então para a dona da casa, que atende preocupada: - O que aconteceu, Gi ? - Vc nem vai acreditar, Lo. - Tente me contar então... - Estou em casa. - Uau, folga hoje? - Antes fosse, Lo. - Não me diga que foi demitida. - Também não é para tanto - Fala logo, ta me deixando preocupada - Estou presa em casa, não sei onde guardei a minha chave. - Não acredito. Você é tão certinha e organizada. O que houve? - Não sei mesmo. Como eu faço agora ? - Eu não posso ir até você – escusou-se a outra – tenho muito trabalho agora de manhã aqui na loja e não poderei me ausentar. Chame meu marido. - Ele está fora da cidade. - Menina, que enrascada! Ligue pra empresa e avise que vai chegar tarde, ou que nem vai. - Eu fiz isso, mas não me sinto à vontade. - Ora, Gi, ninguém se sente. Sugiro que fique em casa. - Não posso. Hoje tenho que liberar tudo o que acumulou de sexta-feira pra cá. - Vamos combinar então. Se eu conseguir um jeito aqui, te ligo e vou até aí com o hábeas corpus. - Obrigada, Lo. Você é ótima Giselda então refaz todo o seu caminho procurando o precioso objeto. Apela para o vizinho. Ele também não está em casa. Mesmo porque não é hora de ninguém estar em casa, somente Giselda. Lembra-se, no seu mudo desespero, da música de Raul Seixas: o dia em que a terra parou. Ninguém está onde deveria, naquela manhã. Começa a gritar pela janela. Passa um ancião, espairecendo, e sequer olha na direção dela. Na certa, sua mente está perigosamente mergulhada no passado, pensa ela. O garoto, provavelmente matando aulas àquela hora, caminha displicentemente diante de sua janela, sem lhe dar a mínima atenção. Começa a fazer mentalmente uma lista de quem poderia ser convocado para lhe dar a liberdade. Colegas de trabalho, polícia, bombeiros, Príncipe Charles. Ninguém teria a chave para lhe emprestar, portanto não adianta chamar qualquer um deles. A polícia? Prefere esperar mais. Pode ser que a polícia metropolitana chegue atirando pra depois lhe perguntar o que realmente aconteceu. Chama os bombeiros, por fim. Não são eles os heróis do calendário, os que socorrem necessitados, salvam gatinhos de árvores? Ela não é uma gatinha em apuros :? Pois então. Mas um fato estranho estava para acontecer. A sua ligação para os bombeiros, por uma anomalia instantânea de um satélite de comunicação, coisa que não tem explicação, foi . --------------- to be continued ----------------------------------------
2005-12-19
Fim de noite

O copo tombado no chão, o gelo derretido de uma farra solitária, os olhos ardendo diante da luz insuficiente da sala (quase escreveu bruxuleante, como gostaria, né ?), a toalha amarrada na cintura, ele pensava no que tinha acontecido. Era pra ser um dia calmo, na pasmaceira modorrenta de todo domingo, mas acordou com os trovões à sua janela, a chuva caindo pesada e constante.
Pestando mais atenção aos ruídos do dia ele pôde distinguir, sobressaltado, que gritos de terror ecoavam lá fora. Era uma guerra de nervos. Pessoas desesperadas sendo devoradas pelo horror da guerra. Foi então que percebeu que os trovôes não o eram simplesmente, mas eram os canhões que espoucavam (onde já se viu guerra com canhões? isso é coisa da idade média!), enquanto os caças despejavam seus mísseis sobre a cidade indefesa.
O prefeito havia sido raptado e o poder tinha sido substituído pelas forças inimigas. Um general calvo (sem preconceitos, por favor), berrava num megafone (cadê a internet?) se auto-intitulando governador da província (provìncia? por favor, me poupe, você bebeu o que?)
O quartel general das forças de ocupação (tem visto muito filme baixado em DIVX) tinha sido estabelecido no edifício JK (tinha que ser ele, tadinho, só pela má fama que sempre carregou injustamente, agora paga o pato). As crianças tinham sido agrupadas onde funcionava a polícia, no prédio (tá parecendo a história do Pink Floyd - The Wall. Só falta alguem cantar 'Leave those kids alone').
Olhou no fundo do copo (devia ser onde ele conseguia tanta informação). Sentiu que nao estava bem. Não ele, mas o copo. Vazio, definitivamente. Tinha acabado a última garrafa de Martini, que sobrara do ano anterior, de tanto que ele bebia. Era um Martini antigo, comprado na promoção do Champion, quando este existia. Nada se comparando às beberagens do Rio no último reveillon.
- Será que fiquei louco? - pensou (interessante como eu sei o pensamento dele)
- E quem não é? - consolou-se
Ligou a televisão, mas nao havia transmissão normal. Todos os canais transmitiam a imagem nefasta do general careca, que explicava que a cidade fora julgada e executada pelos seus numerosos pecados.
---- vou dar um tempo com a história ---- não estou entendendo mais nada e já passou de meia noite - o sono chegou. Amanhã a gente vê como termina isso.
2005-12-16
Um dia de fúria
Lembro-me de ter visto um filme há muito tempo (não vou dizer quanto pra ninguem especular minha idade, embora eu não esconda que sou um garoto), em que um pacato cidadão, indo para o seu trabalho, acabava se envolvendo em vários acontecimentos inusitados, tornando-se uma máquina de matar.
Não vou me inspirar no filme. Aliás, nem sei porque eu o citei aqui nesse post (antes era crônica, agora se chama post), mas um dia de fúria (era o nome do filme) não tinha final feliz.
Paralelamente, e invariavelmente, depois do desjejum diário (de que nem sempre eu me lembro) ando os quatro quarteirões que me separam do trabalho. Que me invejem os mortais, mas eu vou a pé para o trabalho e ainda almoço em casa!! Isso é Belo Horizonte !!!
Pois bem, chego primeiro, abro a firma e a primeira providência é fazer um backup do software de gerenciamento que eu mesmo criei. Não confio no backup automático do servidor. Esse software tem uma história. Eu o construí em pleno vôo, quando cheguei à empresa e encontrei registros financeiros e contábeis feitos a caneta em arcaicos livros pretos.
Minha função: gerente administrativo e financeiro. É um conceito vago a administração. Muito difícil de fazer as pessoas entenderem. Houve época em que me invejavam, pois o meu cargo tinha um certo nome, eu andava com um carro da empresa, etc., mas depois, quando passei a ganhar a metade do salário do meu funcionário mais idiota, ninguém mais se interessou em me destronar.
Normalmente, depois do backup, eu crio algum módulo adicional. Hoje mesmo criei um analisador de produtos vendidos, um calculador de ICMS a recolher, um transferidor de saldo bancário, além de uma série de outras coisinhas miúdas de quem nem me recordo.
Feito o backup (ainda estamos nele), a próxima meia hora fica por conta de me levantar e abrir o portão eletrônico (afinal a empresa é de eletrônica) para os funcionários. Dois deles chegam invariavelmente atrasados, mas um é primo do dono, e a outra é a preferida do dono, portanto, não posso mexer.
Pronto. Chegaram todos. São 9:00. O tal primo fala em voz alta sobre a novela da noite anterior. A minha sala é exclusiva, mas tenho que aturar esse papo furado sobre novela e, pior, futebol. É uma pessoa que apregoa que a necessidade básica de um homem é futebol. Sim, ele é doido.
Recebo uma ligação de São Paulo. Uma senhorita muito educada me ameaça com seu departamento jurídico porque eu ainda não registrei o nome comercial da empresa no INPI. Tem mais gente interessada.
O contador liga me pedindo instruções sobre como proceder com o ICMS, uma vez que está sendo ajustado de última hora.
Uma grande companhia mineradora me liga de São Luís, no Maranhão, me dizendo que existem peculiaridades nunca vistas antes para o pagamento de faturas emitidas contra a tal empresa.
O funcionário em Rio Piracicaba-MG me liga dizendo que a empresa em que ele está prestando serviços se recusou a deixá-lo entrar, e continua aguardando na portaria uma atitude minha.
O dono da empresa chega de surpresa e me sugere fechar a empresa filha, imediatamente. Argumento alguma coisa, mas ele não aceita. Já tomou conselho com outro.
O advogado da empresa liga querendo marcar reunião comigo. Pergunto o assunto, nada, é só uma reunião de rotina.
A funcionária grávida me chama porque uma nota fiscal enviada para Salvador está retida na transportadora, lá naquela cidade. Motivo: existe uma particularidade baiana quanto a faturar contra hospitais, e eu tenho que contornar o problema junto à Secretaria de Fazenda da Bahia, que inexplicavelmente não funciona antes das 14:00h.
A senhora dos serviços gerais começa então a contar uma longa história dos tempos em que ela era moça.
Enquanto leio os emails, recebo a visita de outro funcionário que se queixa de que o projeto que lhe passaram para executar está totalmente diferente do real, e que assim nao consegue produzir com qualidade.
Recebo um email de New York, da porto-riquenha que gosta de falar. Evito ligar pra ela, pois não gosto da lingua espanhola (apesar de minha ascendência) e ela é muito prolífica em palavras quando se trata de falar inglês.
Normalmente eu comunico a ela que fechamos um pacote com uma grande empresa multinacional e que ela foi escolhida como fornecedora.
Ela sempre acredita.
Ligo para Sorocaba, numa empresa de engenharia, que me deve documentos sobre arrecadação de INSS de 2003 !
Nunca me atendem com boa vontade.
A garota do financeiro me liga, no ramal, explicando que não sabe quanto tem que pagar de gratificação aos funcionários em viagem, quais os reembolsos devidos, etc.
No meu sistema de gestão está agendado : Araujo, vou me atrasar pois tenho que levar a filha à festa da escola.
Recebo um telefonema de uma empresa paulista me informando sobre curos de rede, para os quais pretendo enviar um ou dois funcionários.
Sou também um beta tester do novo formulário de nota fiscal que encomendei e que acabou de chegar. Então, toda nota fiscal eu mesmo imprimo, para conferir a diagramação e acertar no software. Hoje surgiu um problema. Foi emitida uma nota com todos os dados do cliente, exceto o CNPJ e inscrição estadual, que são indispensáveis nesse tipo de documento. Resultado: criei um relatório que ignora todas as outras informações e imprime apenas as desejadas.
Me ligam do Rio de Janeiro. Um empresário de lá me convida a passar o final de ano com a família dele. Irrecusável, mas vou pensar. No ano passado foram dois barris de chopp e cinco caixas de cerveja, pra quem não bebe bem quando está deprimido.
Outro funcionário me liga de Carajás dizendo que houve um problema com a licença do software que está instalando na rede do cliente.
Outro liga de uma cidade do interior de Minas querendo saber quanto e quando vai receber de férias.
Acabei de criar uma rotina no software que me permite saber quem está cotando pra quem e por quanto.
Esse software foi destruído por algum agente nocivo e desconhecido, faz menos de um mês. Tive que recriá-lo do nada. Antes ele até conversava com os usuários, usando a tecnologia MsAgent da Microsoft. Agora está bem mais espartano, mais eficiente e confiável. Mas sempre alguem reclama alguma coisa e isso é corrigido imediatamente.
A funcionária das compras quer que o programa informe a ela o que ela cotou, com quem, por quanto e em que época. A outra quer que o documento, se assim for a opção, seja impresso em inglês.
Outra me pede a classificação fiscal de produtos importados dos Estados Unidos. A moça de N. York nem faz idéia do que seja isso.
Estamos na hora do almoço.
Todas pedem sanduíches, pois vou passar perto da lanchonete preferida do bairro.
Após o almoço, a mesa entulhada de papéis das mais diversas naturezas, recebo a chave de um carro que estava em viagem. Consigo resolver o problema do INSS de 2003, e encaminho a documentação escaneada para o contador, que me liga de volta querendo saber se as férias de uma funcionária serão pagas em dobro.
Vem então o camarada que tem como necessidade básica é futebol e doidamente me fala que fechou grandes negócios em algum lugar do mundo. Sei que é bravata e finjo escutar. Ele não fecha negócios, mas enche a paciência dos clientes, estes sim, a ponto de não fecharem mais com a gente. Me elogia, falando que sou o melhor administrador que ele já conheceu na vida, mas eu o evito, pois ele é traiçoeiro como uma cascavel.
2005-12-12
JavaMan

public static void main(String args[]){
DaddyLovesYou sample = DaddyLovesYou();
}
Poucos momentos passamos juntos. Você aparece de repente, sem avisar, não me fala nada. Senta-se diante de uma tela, a mesma que tem sido testemunha viva de meus desvarios e medos. Então você assume a minha casa, a minha vida, muda a minha rotina. Enche meu tempo com essa ternura que por anos eu guardei. Gosta de ver os filmes que eu pacientemente acumulo para que você veja. Estou aprendendo Java para poder conversar com você na mesma língua. Nada se parece com a nossa história de dBase III, Visual Basic e Delphi.
Somos parecidos, temos um refinado paladar musical, desconfiamos de comida caseira, fugimos do convencional, falamos pouco, nossa alma angustiada procura incessantemente, dia e noite, satisfazer nossa curiosidade acerca de tudo. Regularmente recebo seus links, são as suas descobertas que deseja compartilhar comigo. Eu, em contrapartida, lhe dou o que tenho de mais genuíno, esse carinho incondicional, esse orgulho totalmente racional.
Mas você é orgulhoso também. Acha-se o máximo, e não é menos do que isso. Certa vez eu li que você me acha um super-homem. Sou seu herói, mas você é o tipo de fã que não se manifesta. Como eu iria saber então, se não fosse por acaso revistando seu velho HD de 40 Gigabytes, na época em que existiam HDs de 40 Gigabytes?
Ontem chegou de manhã na minha casa, onde consumo os meus dias sozinho. Fechou as cortinas, arrastou a cadeira vermelha, postou-se diante do meu computador e começou a investigar as notícias do mundo Java. Pouca coisa me falou, mas a nossa linguagem não se expressa através de palavras, mas de algoritmos.
Talvez eu o tenha gerado assim, com uma lógica indecifrável para muitos. Hoje você que éo meu herói, meu gênio brilhante em quem imprimi os meus sonhos. Logo vou passar, e a dimensão que me espera será um berço esplêndido para alguém que experimentou o nirvana de ter alguem como você, amigo e confidente.
Não vou escrever mais, pois você sabe que tenho uma defeito de nascença. Se eu começar a escrever sobre você, pararei somente quando as minhas cãs descerem ao chão e a luz se limitar a apenas uma réstia em olhos cansados.
Desejo a você toda a felicidade que está preparando, e mais aquela porção que Deus reservou como prêmio.
2005-11-20
Noite alucinante

2005-11-14
Make me fall in love


2005-11-06
No escuro da noite
A penumbra que envolve o meu latifúndio me traz a angústia da solidão voluntária que abracei há dois anos. Confesso que me escondi durante esse tempo todo, fugindo aos meus amigos, que antes fugiram de mim, tornando-me invisível aos meus filhos que tão ostensivamente me ignoraram, resvalando-me nas mulheres que tão diligentemente tentaram me demover dessa obcecada loucura.
Admito, por fim, que a clausura em que me encontro, vim a ela com meus próprios pés. A chave não sei onde perdi. Por isso eu sei que nenhum remorso eu tenho direito de sentir, nenhuma compaixão eu posso manifestar, pois escolhi este caminho doloroso para purgar as minhas culpas de não ter vivido.
É de minha total responsabilidade a falta de interesse pela vida, quando o meu dia é atravessado na morosidade de quem espera. Logo amanhecerá o dia e nada será conclusivo, e isso me interessa sobremaneira.
No chuveiro eu acho graça.
Gerencio duas empresas, não instalo sistemas de rede. E hoje eu deveria estar aprendendo a instalar sistemas de gerenciamento de redes de uma grande empresa estatal, para onde estou destinado a ir na próxima semana. São Luís e Carajás. Maranhão e Pará. São os desafios do meu cotidiano. Mas há algo muito mais importante que eu deveria estar aprendendo: amar novamente.
Perdi a consciência do que é o amor, e sou eu mesmo que por tantas vezes, em quantas linhas e inúmeros versos enalteci esse câncer maligno que se chama amor, que consome docemente cada ser humano, levando-o a morrer mil vezes.
Há tempos eu não morro assim. A minha imortalidade decorre da falta de amor. Há quem mereça. As pessoas especiais que me cercam todos os dias, as que se movem ao meu redor com interesses tão claros como a luz do dia, as almas puras que expurgam a morte das minhas veias... mas não posso amar cada uma delas, ou as mataria também.
Há muita vida lá fora. Minha cidade apaixonante, minha Belo Horizonte querida, por ela eu deixei tudo, para viver um amor imortal, esse sim. Nos últimos vinte e sete anos eu amei Belo Horizonte, mesmo deixando-a tantas vezes. Envelheci aqui nesta cidade. Amadureci o meu intelecto, enterrando na cidade os meus sonhos pacifistas, as lideranças estudantis, a inteligência inata, a vontade de saber sempre mais.
Em alguns momentos eu persegui um amor. Mas se dissolveu. Parte em Londres, parte em Pará de Minas, parte em Belo Horizonte, parte em algum lugar da terra, sem jamais se concretizar como aquele amor definitivo e louco que nos fazem, homens, meninos imberbes.
Acho q o vinho já me sobe pela cabeça. Minhas palavras tendem a sairem aos borbotões, como o sangue quente de uma veia partida, derramando vida sobre a terra inerte. Desta vez, inerte é o silêncio que me envolve.
Nem as sombras do meu passado me visitam. Por isso não me incomodam mais. A incerteza do futuro é a mesma que sempre dormiu comigo. Mas o presente insosso é algo inusitado e terrível.
Amanhã serei novamente eu. Assistirei ao meu programa preferido na televisão, às oito horas da manhã de domingo, e me prepararei para me encher de conhecimentos que nao sei se algum dia usarei. Não lamento a sorte, pois fui dotado de uma sede angustiante de conhecer coisas.Por isso sou cada dia menos eu, viajando por galáxias nebulosas, de ar rarefeito, sem atmosfera, até.
Não me conheço.
Não sou mesmo esse velho rabugento que se esconde atrás da tecnologia. Sou um menino que sonha em correr na chuva, beijar a primeira namorada, escrever um tolo poema de amor e continuar viajando, viajando.
Talvez eu amanheça morto, hoje. Mas não creio nisso, pois o meu chamado nao é para a morte. E ninguém sabe mais sobre isso do que eu mesmo. Ningueém entende isso mais do que eu entendo.
Às vezes me sinto fugindo para Nínive, quando a minha redenção está em Társis.
Ou então estou realmente louco.
2005-11-02
Mimosa Live !

Dia de finados. É uma utopia dizer que meus mortos me trazem saudades, pois não os tenho. À exceção de meus antigos correligionários, poetas, planos, sucessos e dores, tudo continua vivo, e isso eu posso sentir nas minhas veias que ainda transportam a inquietude de minha alma, como se fosse um moto contínuo. Em alguns dias, menos do que eu espero, há de cessar essa atividade febril. Mas enquanto isso, ainda realizarei grandes feitos, se não para mim mesmo, mas para uma parcela da humanidade que me assiste, me ouve, me lê e me detesta.
Morreu o passado. Nele habitava Mimosa, a vaca malhada. Não consegui um retrato melhor do que este. Era um sonho de profissão, a zootecnia como opção, a agricultura como paixão, a agronomia como libação. E em sonhos psicodélicos que alvoroçavam a mente de um adolescente irrequieto, Mimosa era a personificação do esquisito, do inalcançável, do irreal, do imaginário e do maluco, tudo isso que fazia parte do meu dia a dia. Foi tema de alguns poemas sanguíneos e lúdicos.
Hoje então me lembrei, quando sozinho no meu latifúndio, precisei extrapolar os meus limites de sanidade para reviver aquilo que faz parte de mim.
2005-10-26
Tiao x Bandido

Até parece novela, mas a batalha épica entre o peão Tião Inácio, o estereótipo do povo brasileiro, contra o touro filósofo Bandido abalou a nação dos crédulos em qualquer modelo político.
De um lado, um brasileiro que ganha a vida com suor e dignidade, tentando sobreviver nesse caos de corrupção, malversação, engodos, roubalheiras que é o curral político do país. Por outro lado, o próprio governo, um touro que no seu curral determina o rumo dessa novela triste que não tem mais fim. Agora com a febre aftosa, é um perigo ainda maior mantê-lo no poder.
Na primeira chifrada do boi, o cidfadão-Tião viu sua renda se esvair. Com o cipoal de impostos, taxas e tributos que paga normalmente, foi doloroso sentir a chifrada da certeza de que seu dinheiro alimentava contas no exterior, quando nao sustentava uma quadrilha arranchada em Brasília.
Nesse caso, não adianta Nossa Senhora Aparecida continuar aparecendo. É mister que cada um tome consciência da gravidade dos fatos e faça o seu papel, aquele para o qual nasceu ou foi eleito.
2005-10-24
Referendo

Recentemente o meu país, uma republiqueta encravada na América Latina, instituiu o referendo popular para definir a vontade dos eleteitores em relação à comercialização ou não de fogões brancos. Claro que tal coisa somente acontece em países onde realmente a opinão pública é levada a sério. Mas este humilde cronista de plantão resolveu fazer algumas considerações a respeito desse tão apaixonante tema:
1º - O perigo de se usar fogões brancos - para isso pagamos altos salários aos deputados, para discorrerem sobre assuntos do interesse nacional. Haja visto que fogões brancos são os responsáveis pela violência urbana, um mal que se alastra de forma incontrolável pelo país adentro, de norte a sul, não distinguindo classe social, raça ou religião. O homem que chega em casa com a predisposição animal de jantar e não encontra anda pronto, e o fogão impecavelmente branco, logicamente será levado a dar umas bifas na esposa, companheira, empregada, namorado. Isso é até natural, nesse contexto. O filho, por sua vez, depois de colocar o tênis (comprado na melhor boutique de calçados do shopping, tendo custado oolho da cara) na máquina de lavar e, uma vez limpo, colocado o seu objeto de desejo pra secar no forno do fogão branco, a empregada Ermenegilda, desavisada, distraída e incompetente, assou o bolo do café da manhã de domingo junto com o tênis. O filho então se viu obrigado a estrangular a empregada. E assim são os casos corriqueiros de violência doméstica que espoucam em nosso cotidiano. Tem também o caso em que o homem atirou o fogão branco pela janela, atingindo um transeunte, que jamais imaginaria sendo atingido por um fogão daquela estirpe, caído do céu.
2º - Os traficantes de fogão. Uma classe sorrateira e esperta, que tem atravessado as fronteiras em vôos fretados, descarregando fogões brancos chineses nas florestas no nosso amado país e mais tarde utilizando rotas predefinidas para espalharem seu afã de enriquecimento ilícito.
2005-10-22
Sexta-Feira 14

Acordou suando frio, os nervos tensos, a preocupação estampada na forma de rugas que insistiam em se tornar perenes, apesar da idade que ele ostentava. Nada daquilo fazia sentido pra ele, no momento em que esfregou os olhos, olhou para o despertador ao seu lado. Ainda eram 5:12 da manhã. Olhou através da cortina translúcida, cor de goiaba, a luz bruxuleante da aurora invadia a sua privacidade tantas vezes violada. Levantou-se como se estivesse bêbado, caminhou titubeando até a janela, abriu-a pela metade, aspirou com força o ar de fora do apartamento. Não havia muito o que respirar. Logo ao lado passava a BR que levava ao Rio de Janeiro e Vitória, as ambulâncias começavam a ostentar a sua passagem rasgando o silêncio com suas sirenes estridentes. Levavam restos humanos para serem restaurados.
Como eu próprio - pensou.
Aprumou o corpo, ainda seminu e deixou-se envolver pelas gotas de água fria que jorravam em cascata do chuveiro. Foi quando notou que havia um cheiro dif
erente no ar. Procurou segui-lo, nada encontrando. Visitou cada cômodo do apartamento, sem nada localizar. Bobeira minha - concluiu.
Fez um café bem forte. Reparou que nao havia mais que três bolachas para o desjejum, mas nada disso o preocupou. Continuava sentindo o cheiro forte. Não vinha lá de fora. Cheirou o próprio corpo. Nada.
2005-10-10
Espelho

Toda vez em que ele me via, escondia o rosto. Parecíamos dois estranhos, mesmo sendo parte um do outro. Ele era a minha voz e eu a dele. De cada lado da rua, cada um seguia o seu caminho, à sua própria maneira. Era inusitado pensar como éramos tão diferentes, mas com algo genuinamente comum: a obstinação e o orgulho. Genioso e genial, brilhante e obscuro, ágil e lerdo, uma coleção de antígonas que poderiam nos levar a qualquer lugar, tamanha era a incerteza do nosso caminho. A inteligência que aflorava era proporcional à burrice nas atitudes, e isso o faziam cada dia mais parecido com o seu criador. Mas as marcas indeléveis de sua indeferença calaram fundo, tornando-me cada dia mais introspectivo, amargurado, acabrunhado e infeliz. Não lhe parecia importante saber ou deixar de saber do meu paradeiro. Mas pra mim era essencial conquistá-lo pra junto de mim, pois na verdade ele era uma extensão da minha personalidade.
Nao quero te encontrar
2005-10-04
Entre Quatro Paredes

O silêncio sepulcral de minha toca me confunde. A luz fátua começa a me cansar os olhos enquanto meus dedos deslizam insolentemente pelo teclado, acariciando as palavras e arrancando delas expressões inteligíveis. Daqui a pouco vou dormir, já é hora. Não sei se me levantarei desse sono, se mergulharei para sempre no nonsense da vida, na paródia malfeita de uma novela de época, na crônica urbana de um homem totalmente enredado em suas próprias teias. Minhas lembranças vão se desvanecendo lentamente. Meus filhos desapareceram, meus amigos nunca existiram, as taças de vinho que eu consumi há muito já adentraram a terra, deixando comigo apenas o gosto amargo de existir só. Perdi a graça de me lamentar, me esqueci de como é sofrer, não recordo de como é amar, se amar é tão intenso quanto esquecer. Meu último poema abortou há meio século, figura natimorta da minha vontade e insensatez. Mas ainda avanço com passos trôpegos em direção ao meu futuro que, parece, me espera na próxima esquina. Sem profetas nem oráculos, minha obstinação de viver acima de tudo vai me propulsionando em direção ao nada, e nada é o que desejo pensar agora, quando a loucura me encharca os pensamentos. Quem me conhecia, acaba de me perder. Quem me amou, que passe a me odiar. Quem me esqueceu, que continue me ignorando até o século vindouro. Preparo a minha vida com toda a meticulosidade louca de um guerreiro navajo, juntando ingredientes dessa salada infame que corrompe a moral, mas é assim que consigo enxergar a vida, nesse vai e vem de sentimentos tolos cujos nomes se ouve diariamente nos jornais e na televisão. Adormeço então sobre a minha insônia, aguardando o novo amanhecer, quando tudo o que foi planejado há de acontecer.
2005-09-26
Zé Busceta e Dona Rosa

Saí de Belo Horizonte às 10:45. A manhã resplandecia com um bom presságio. As pessoas no centro se movimentavam freneticamente em busca de escapar do que caracterizava a capital mineira, antes que sentissem saudades. Desde a antiga praça do cimento, de que eu agora não me lembrava exatamente como passara a se chamar, os camelôs apregoavam passagens para Ipatinga, Valadares e Coronel Fabriciano. Um outro mais na frente vendia para Teófilo Otoni. Não se tratava de passagem rodoviária normal, mas a possibilidade de chegar mais rápido ou não chegar nunca, a bordo de uma van, dirigida por alguém a quem as pessoas tinham que confiar as suas vidas, numa cumplicidade mórbida.
Aos poucos a cidade ficaria vazia, a exemplo do Rio de Janeiro no carnaval, o que não tinha importância para mim, uma vez que saía também, com destino a Pará de Minas.
Com um chiclete azedo na boca, pouco depois me deixava absorver pelos prédios conhecidos e impessoais da Avenida do Contorno e Via Expressa. Já os vira tantas vezes que não me importava mais com eles. E eles corriam cada vez mais rápidos, ficando para trás, junto com seus infortúnios e prazeres.
Aos poucos o carro ganhava a estrada. Começava a avaliar os cheiros que se manifestavam no interior do veículo e não havia nada neles que agradasse.
De uma forma estranha me sentia aliviado em deixar Belo Horizonte, a quem amava como aquele que sem esperanças se entrega. Mas precisava experimentar se Belo Horizonte, amante profícua, me queria com igual intensidade. Pensava nisso ao passar por Contagem e, como sempre, ansiava por atravessar logo aquela fase.
Quando o ônibus chegou em Betim, resolvi avisar que estava indo, contrariando a mim mesmo, pois planejara meticulosamente outro tipo de chegada diferente da anunciada. Queria mostrar que era educado e diferente. Parte de minha expectativa, porém, se mitigava naquele momento, pois eliminava o inusitado, e portanto não poderia surpreender nem menos a mim.
Foi aí que conheci Dona Rosa e seu filho Zé Buscetta. Resolvi dar-lhe este nome, pois era o mesmo que ele gostava de gritar o tempo todo, completamente atordoado.
Embarcaram em algum lugar de Betim. Ele completamente embriagado e ela completamente condescendente com o filho. Ele acercou-se do corredor do ônibus e encenou as caretas características de bêbado, sob o olhar atento da mãe. Ela se aproximou de mim. Pude vê-la com cuidado através dos óculos escuros. Era uma senhora de aparência saudável, porém humilde. Parecia reter consigo todos os mananciais de paciência que as mães costumam ostentar.
Acercou-se de mim, sentando-se ao meu lado, não sem antes oferecer a cadeira para o filho, que se limitava a gritar que queria cachaça, olhando perdidamente algum ponto invisível acima de minha cabeça.
Durante a viagem o que aconteceu era esperado. O filho saía de sua cadeira e vinha infernizar a mãe, gritando, provocando, proferindo palavras chulas, completamente fora de si.
Não me lembro de onde desceram, mas é certo q num lugar qualquer o veículo vomitou aquele casal estranho.
2005-09-24
Mulheres Americanas

Katrina, Ophelia, Rita. Por que será que os americanos dão nomes de mulheres aos furacões que vem com tudo, levam suas casas e carros e os deixam na lona?
Um dos filhos de Emilio

Nao cabe aqui a história dos filhos de Emilio, mesmo este que vos escreve estas mal traçadas linhas. Mesmo porque além deste, outros oito filhos vivos e uns quatro mortos, a prole de Emílio se espalhou pela Terra e se tornou incontrolável como Rita, o furacão . Mas podemos fazer uma brevissima apresentação. O mais velho é médico, o segundo é um aventureiro, o terceiro administra empresas, o quarto gerencia uma transportadora. Os outros eu nao sei direito. Parece-me que um deles mora em Portugal, é só o que sei.
Pois bem, Emilio, descendente dos conquistadores mouros e dos indígenas machacalis. Dessa mistura espanhola e brasileira nasceu um homem comedido, sagaz, paciente e extremamente violento. Mas sua violência se expressava nos sonoros berros que ensurdeciam os desprevenidos pupilos de sua saga, tantos filhos aos seus cuidados.
Conta-se que Emilio, aos doze anos, profundo conhecedor das florestas das três fronteiras (Minas, Espírito Santo e Bahia), foi contratado para conduzir um rico fazendeiro até uma certa cidade, para onde nao havia caminho. Durante dias e noites Emilio desbravou a mata, abrindo um caminho para seu ilustre contratante, chegando, porfim, ao destino planejado. O homem ficou tão encantado que lhe deu uma fazenda. Se me chamarem de mentiroso eu levo no local para provar. A fazenda existe até hoje, sinal da inteligência e resistência de Emilio. Por comodidade, sua recém-adquirida fazenda fazia divisa com a fazenda de Antonia Janes, sua mãe e, pro consequencia, avó deste humilde narrador.
Convencionou-se chamar a fazenda de Paraíba. Não sei a origem de tal nome, qual a influência daquele estado nordestino na vida de Emilio.
Certo é que ele conta sobre o primeiro par de sapatos aos quatorze anos. Sim, porque como acontece hoje, ter uma fazenda nao significa necessariamente ter dinheiro. O fantasma da liquidez, ou da falta dela, sempre assombrou os fazendeiros e empreendedores de um modo geral.
Emilio se enrabichou por uma mulata de parar o trânsito. É verdade que na época o trânsito não passava de algumas carroças puxadas por plácidos bois. Os automóveis rareavam naquelas paragens. Ele conta que as pernas da mulata o fizeram perder o juizo. Numa cidade vizinha, de Minas, na mesma onde ele nasceu, essa mulata passou a tomar conta de seu pensamento e sua alma. Os volteios que ela dava com os quadris faziam Emilio se esquecer da roça que ele tinha deixado para trás. Vez por outra, inventava uma desculpa qualquer para ir a Nanuque visitar a mulata de cabelos sedosos e encaracolados, boca pequena e olhos... ah, os olhos da mulata pareciam invadir a alma de Emilio, ou de quem se pusesse diante deles.
Surgiu uma complicação. A mãe da mulata era a temível Rosa, barraqueira de profissão e barraqueira por diversão. Sim, pois Rosa adorava armar um barraco. Por um "dê cá aquela palha" ela rodava a baiana, mesmo porque era baiana, como a filha mulata que encantava Emilio. A crônica nanuquense registra que Rosa, a futura sogra de Emilio, certa vez arrastou um policial pela genitália, quando esse a desrespeitou. Mas essa era uma das mais leves façanhas de Rosa. Mas não me permito falar dela e de seus almoços servidos ao ar livre, com que eu, tímido neto, me regalava, alheio às moscas que insistiam em compartilhar comigo os quitutes da vovó. Lamentavelmente Rosa morreu , bem velhinha e solitária, em sua residência no Rio de Janeiro, muitos anos depois, depois de resistir a assaltos, atentados, incêndios, miséria e fome. Tudo isso devidamente registrado pela lágrima discreta da mulata que encantava Emilio.
Emilio achou por bem casar-se com a mulata. Arrastou-a para a fazenda e com ela construiu uma família.
Viveram um amor intenso e despreocupado. A força de trabalho da mulata, somada à disposição de Emilio, aos poucos a fazenda foi se formando. A sede foi construiída sob palmeiras reais, o curral a poucos passos, e a farinheira, como nao podia deixar de ser, a um tiro de espingarda.
..... to be continued....
2005-09-21
Operação Poseidon - Capítulo I
Caía uma chuva fina naquela tarde. Os ventos sopravam indolentemente, salpicando agua do mar em quem se aventurasse a passar por aquele lado. Havia somente um homem com aquela disposição, na preguiça típica da hora. De aspecto rude, talvez pela barba cerrada que ostentava, emprestando-lhe um aspecto desleixado e feroz. Desceu do carro estacionado há pouco, vestiu um sobretudo à inglesa, olhou em volta como se procurasse uma paisagem familiar, sorriu para si mesmo, e começou a caminhar lentamente, apesar da garoa. O motorista, empertigado, já entrara novamente no carro de chapa branca e deixara o local. Ele amava o Rio de Janeiro. Nem a chuva que avançava verão adentro o fazia desistir desse amor incompreendido e platônico. Quando olhava as águas da baía, se sentia como se fizesse parte da paisagem, e isso lhe trazia grande satisfação. Por isso parou, cheirou o ar profundamente, sorriu novamente, e se dirigiu para um prédio antigo que era seu velho conhecido. Reparou que pequenas ondas batiam na parede de concreto, base daquele prédio. Alguns corais estava ali para demarcarem seu território. O homem conhecia muito bem aquele local. Caminhou, com passos resolutos, para a recepção. Um rapaz, trajando um impecável uniforme branco da marinha, o interpelou: - Pois não, senhor. - Olá, cabo. Sou um amigo da Almirante Kenia. - A quem devo anunciar, senhor. - Castel. Fred Castel é meu nome. - Desculpe, senhor, mas a Almirante o espera? - Certamente que sim. Ela me chamou. - Nada me foi informado, senhor - tornou o solícito marinheiro - Pois não posso ajudá-lo. Sei o caminho. Não precisa se incomodar. - Mas senhor... E Fred Castel já entrava pelo corredor estreito que conhecia muito bem. Sabia onde este ia dar e, sem cerimônia, continuou seu caminho, deixando para trás o perpelxo cabo. Ao fim de alguns passos, chegou à porta dos aposentos da Almirante. Bateu delicadamente, sem ouvir resposta. Esperou um pouco e bateu novamente. Nada. Torceu a maçaneta e entrou. No interior do aposento reinava uma luz fraca. O ambiente estava praticamente na penumbra, mas ele conhecia muito bem onde pisar. Dirigiu-se ao bar, serviu-se despreocupadamente de uma generosa dose de uísque, que sorveu de um só gole, e preparou-se para a espera, quando ouviu um ruído vindo de outra dependência. Dirigiu-se para o local. Era o banheiro. Aproximou-se, sem qualquer tipo de cuidado para não chamar a atenção, acercou-se do box onde um vulto fazia movimentos rítmicos através do vidro translúcido. ---- to be continued ----------
2005-09-13
Comfortably Numb

Hoje fui brindado com uma das músicas que mais tocam o meu coração, a canção perfeita, que resolvi colocar aqui.
Pink Floyd
Comfortably Numb
Hello.
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone home?
Come on, now.
I hear you're feeling down.
Well I can ease your pain,
Get you on your feet again.
Relax.
I need some information first.
Just the basic facts:
Can you show me where it hurts?
There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move but I can't hear what you're sayin'.
When I was a child I had a fever.
My hands felt just like two balloons.
Now I got that feeling once again.
I can't explain, you would not understand.
This is not how I am.
I have become comfortably numb.
Ok.
Morte e Vida Severina

Confesso, acabrunhado, que ainda não li João Cabral de Melo Neto, apesar de ter lido resenhas e resumos. Perdi o tesão pela minha novela preferida,a CPI DO MENSALÃO, uma vez que as coisas não saem do lugar, como se fosse uma rosca contínua. Suspeita-se, investiga-se, denuncia-se, defende-se, incrimina-se, tapeia-se. E de repente a figura número um não é o nosso atabalhoado presidente, cético, surdo, mudo e cego, mas a carismática criatura chamada simplesmente "Severino".
Todo mundo ficou chocado quando ele, dando um banho no governo, assumiu a presidência da câmara, vulga "Parlamento". Todo mundo sabia que não se podia esperar grandes coisas de um homem com instintos nepotistas tão salientes. Todo mundo sabia que ele seria o sucessor do presidente em situações que assim exigissem.
Mas ele continua no auge da fama. Agora como agente do mensalinho. E de repente os jornais televisivos não se referem mais ao mensalão. Perdeu a graça. E entendo porque: uma pessoa como Severino foi o que todos ali usaram para abafar o mensalão.
Mas já estou cansado dessa história.
Olho pra meus pé e pergunto-lhe: este é o meu país? Onde estão as pessoas decentes que outrora existiram? Onde estão as pessoas que seriam cópias morais perfeitas de meu pai e minha mãe?
Considero-me perdido, como muitos brasileiros estão, nesse oceano de lama que se tornou a vida pública no meu país. Confesso que, se me perguntarem se sou brasileiro, é capaz de se ouvir que eu sou marciano.
Pois bem. Tomei então algumas decisões para evitar o caos na minha mente, já muito combalida pelos meus fantasmas particulares:
1 - Cancelei a assinatura do Globo
2 - Não ligo mais a televisão, a não ser para o Globo Rural
3 - Não comento sobre política, religião e sexo (abri uma exceção somente hoje)
4 - Atiro uma rosa vermelha, daquelas que simbolizam o amor, para a Velhinha de Taubaté.
E encerro aqui o meu assunto.
Certamente meu irmão cartunista vai ler e postar um comentário:" Cadê o final da história, cadê a moral da história". A resposta: sei lá. Vamos esperar pra ver no que dá.
2005-09-11
Domingo

Não. Ninguém tem mais paciência em escrever ou ler alguma coisa sobre os domingos. Eu também não vou cansar ninguem com esse assunto tão maçante. Então vou tecendo meu monólogo de hoje, trazendo à tona remininscências da época de estudante. Acordávamos tarde, na pasmaceira de uma manhã em Campos, no estado do Rio. A sombra nevoenta da preguiça aos poucos tornando os movimentos mecânicos. Alguem tinha quer ir à padaria e realizava-se uma espécie de roleta russa de padaria. Esta distava um quarteirão, mas era como se estivesse no Japão. Do outro lado da rua da padaria ficava o boteco onde era costume jogarmos sinucão. Nem uma coisa nem outra aos domingos. Era um dia exclusivo de dedicação a não fazer nada.
Pensando bem, talvez não seja uma boa idéia escrever sobre domingo tão longe na época. Mesmo que aqui seja Brasil, e brasileiros não se preocupam TANTO com o passado de suas personagens como os americanos: "Extra, o presidente já ficou pelado quando bebê. Impeachment nele!!".
Vou continuar de teimoso.
Pois bem, onde é que eu estava? Ah sim, na padaria. O café, por mãos masculinas, não tinha graça nenhuma. Um dos rapazes da república era jeitoso com o fogão. Falava fino às vezes, mas fingíamos ignorar o fato, pra não render conversa.
Dois poetas, um artesão, um agricultor, um político. Nas células vizinhas havia todo tipo de gente e lugar. E essa miscigenação era salutar, uma vez que discutíamos assuntos diferentes.
Mas aos domingos, bem, aos domingos a tendência era ficar perambulando pela rua, sem nada pra fazer. Os mais corajosos se aventuravam a assaltar o pomar da escola, a uns quatro quilômetros dali. Havia os mais radicais, que colocavam uma cadeira à porta da casa e encostavam um radinho de pilha, daqueles que chiavam (hoje proleferam pra todo lado, imagino se alguem ainda compra), pra ouvir futebol.
A tristeza de ouvir futebol no rádio não se comparava à expectativa de chegar ao fim de um dia tão apático, morto até.
Num desses domingos, um de nós foi ao supermercado, no centro. Olhou todas as gôndolas e, por incrível que possa parecer, não encontrou nada do seu agrado. Dirigiu-se então à saída, quando foi abordado pelo segurança, um mulato de quase dois metros, como tem que ser todo segurança de histórias verídicas. Me contaram que nosso amigo se acovardou diante do porte da lei. Mas a delicadeza do segurança o cosntrangeram a ser gentil.
- E aí, seu ladrãozinho. O que tá levando aí ? - perguntou o brutamontes
- Eu? O senhor ficou maluco? Tá me ofendendo.
- Você ainda não viu nada. Seu safado, gatuno.
- Vou te processar, moço. Tá me caluniando. Tá todo mundo olhando pra cá.
- Que olhem, seu gatuno de meia tigela.
- O senhor sabe com quem tá falando? Sou estudante de agropecuária da Federal.
- E eu com isso?
- Você com isso porque sou de respeito.
- Sei. Vams logo ali no reservado falar com o gerente.
Não teve jeito. Nosso amigo foi levado ao gerente, um homem atarracado e de maus bofes, como diria Machado.
- Então o senhor é o estudante que foi apanhando roubando na loja!
- Não estou entendendo onde vocês querem chegar. A única coisa que acertaram é que sou estudante.
- E ladrão.
- Isso não. Não estou desrespeitando ninguem.
- Claro que não. A constituição federal não é "ninguém". Esvazie os bolsos, antes que eu chame a polícia.
- Se é assim que querem, vou fazer, mas aviso, não encontrarão nada.
Somando atitude às palavras, o estudante esvaziou os bolsos. Nada havia além da carteira com o dinheiro da passagem de volta e a carteirinha da Escola Federal de Agricultura.
Mas foi instigado a se deixar revistar. Realmente não tinha nada nos bolsos. Mas nas meias e nos canos das botas foram encontrados vários itens de pequeno valor, tipo pasta de dente, escova, caneta, barbeador descartável, quinquilharias. O constrangimento foi inversamente proporcionalao valor dos objetos. Mas recebeu conselhos do gerente enjoado, e despachado pra casa.
Quando chegou em casa, ainda teve a cara deslavada de nos contar sua desventura. Mas ninguém mesmo tinha essa coisa chamada vergonha.
E acabou que nem falei exatamente do domingo, e ele está acabando. Só me resta ver o Fantástico, enquanto termino essa conversa mole.
2005-09-09
El Fedor em Nanuque

Pocotó. Pocotó. Que diabos será isso? Alguem quebrando pedras? Um homem balançando a ferramenta? Um disco voador não identificado? Nada. É o anúncio da cehgada de EL FEDOR EM NANUQUE.
São aproximadamente três da tarde. O sol pegajoso e abrasador parece sugar a vontade dos homens, como um vampiro monumental, arrancando faíscas do chão de paralelepípedos, onde proliferam os vermes aeróbios, e onde os cães, figuras nativas do lugar, não podiam coçar suas sarnas. Um deles, por sinal, dormita molemente à sombra de uma casa escolhida a esmo. Ao fundo da rua principal, na entrada da cidade, vem se avolumando a figura negra e grotesca de um cavaleiro.
Seu porte alto e esquelético, sua cor trigueira, os lábios cerrados, cabelos escorridos e incrivelmente negros lhe dão uma aparência estranha. As poucas pessoas que transitam naquela hora ficam arrepiadas com a figura sinistra.
Na sua cintura balouçam um revólver de cada lado, lustrado e bem cuidado. Ferramenta de trabalho, pelo que denota.
...to be continued
2005-09-08
Viagem Insólita

De repente meu olhar se detem num horizpnte longínquo, fora do campo visual da minha razão. E meus músculos lassos travam, diante de uma caminhada de que não sei se estou no começo ou no fim, sabe-se lá onde fica o meio, mas num vislumbre de minha loucura percebo que há um brilho no espaço. Talvez não se refira a mim, mas à minha consciência que, a essa altura, se apartou de mim, fazendo-me demente e ansioso. Onde deixei minha inteligência, minha sensibilidade, minha arte? Não sei, e tenho certeza de que ninguém saberá me dizer. Sigo então, tateando, na penumbra da minha obscuridade, mas reconhecendo o terreno, onde penso que já pisei. Logo estarei num lugar insólito, fazendo algo que eu nem imagino.
2005-09-06
Vida de Cachorro
Já foi há muito tempo quando se falava da vida de cachorro como sendo a pior existência que se podia imaginar. Os antigos vira-latas, esquálidos, sarnentos, revirando latas para conseguir algum alimento, eram o quadro deprimente de uma sociedade emergente. Mas daí começou um movimento, como uma onda, tentando dar um pouco de dignidade (?) aos animais que são considerados os melhores amigos do homem (inclusive os pitbulls, rotveilers e filas). Minha avó me contava de um certo cachorro da família, que morreu aos dezoito anos, portanto já bem experiente. Chamava-se VenceTudo, era branco como uma ovelha branca, pêlos lisos, e tinha como peculiaridade a mansidão, apesar do nome. Vim a saber, mais tarde, que ele ganhara o nome porque, além de ser o guardião da fazenda, por essa razão havia sido atropelado, o que o fizera mancar um pouco, e levara um tiro no olho, que o tornara cego de uma das vistas (não me pergunte qual). Nada se comparando ao yorkshire de Gisele Bunchen ou daquela socilite carioca Loyola, e a tantos outros cães famosos que conhecemos. Então veio a Suipa, no Rio, para minimizar os desmandos da carrocinha, o terror dos cães urbanos. Mas vida de cachorro hoje, em pleno século 21, não é mais a mesma coisa. A Lei do Pitbull, no Rio, é uma prova disso. Pacíficos e mal-encarados cães de estimação de repente entraram na mídia de forma nervosa, tornando seus donos infratores contumazes. Eis a situação: - Tirano ! Tirano ! - chama o Dr. Celso, desembargador carioca - Vem logo ! - Peraí, meu chapa - responde o Pitbull, acabando de traçar um rosbife (ou preferem roast-beef?) - Não temos tempo. O CAC tá vindo aí. Depressa ! - Impacienta-se o irreprimível senhor. - Que droga é essa? CAC ? - rosna o cão, um pitbull atarracado, com cara de mau, pesando uns 99 quilos. - CAC, seu animal, é o Comando Anti Cachorro, nova divisão da polícia carioca. - Ué, nós agora que somos os bandidos ? - surpreende-se Tirano. - Pra você ver. Mas deixa de papo e venha logo. Temos toque de recolher. - Calma, Bete. Quero entender primeiro. Bandidos mandam e desmandam, corrompem a polícia e outras autoridades, impõem um poder que não é mais paralelo, são filmados, documentados, presos e soltos, revrenciados por astros do esportes, e nós é que levamos a culpa? - Tirano, isso é Brasil, meu amigo. - Ah é? E onde eu posso viver simplesmente sendo um cachorro honesto e trabalhador, cuidando da minha família, trabalhando no meu emprego decente? - Acho que já estão colonizando a lua. Próximo vai ser Marte. - Demora muito. Os americanos, que são donos do espaço lá fora, estão preocupados com o Katrina, agora. - Eu sei, seu burro, mas Bush não está. Você tem chance. - Se eu for, o que será de você então, sozinho aqui nesse Brasil cheio de cachorradas em Brasília. - Irei com você. Quem sabe você me arranja uma casinha no fundo do seu quintal e me alimenta com uma boa ração lunar? - É, pelo menos banhos de lua não vão faltar. - Agora chega. Vamos. - Tá bom, tá bom. Que saco ! - Pegou seus acessórios todos? - Conferindo: Focinheira, ok. Enforcadeira, ok. Caganeira, ok? Pra que droga serve essa tal de caganeira? - Seu animal. Pra que você acha que serve? Anda logo. Ou você acha que vou sair atrás de você com um saquinho plástico e uma pazinha catando bosta sua? Sou um homem de respeito. - Sei. O Juiz Nicolau também era. Aquele que matou o vigia lá em Sobral também. - Respeita. Aqueles eram uns cachorros. - Epa. Não me ofenda. - Apanhou o boné, a punheteira, os óculos escuros ? - Não estou entendendo mais nada. Estamos a quase uma hora da madrugada.... - O boné, seu burro, pra você não pegar resfriado, pois veterinário tá caro pra cachorro, a punheteira pra você proteger seus punhos, ou patas, como queira, na falta de sapatos (nunca ouvi dizer que cachorro usa sapato, a não ser nas histórias de Jeca Tatu - coisa bem antiga). - E os óculos? - Pra disfarçar de turista. Vamos que o CAC nos aborda na rua, você começa a latir em inglês e mostra seu passaporte britânico.
2005-09-03
É isso aí, companheiro Gabeira

Nunca antes ouvi um político expressar o sentimento do povo de uma forma tão cabal e poética quanto o nosso companheiro Gabeira, carioca como eu, cidadão do mundo como nós, exasperado com a forma de conduzir o Parlamento que vem sendo utilizada pelo nosso emérito Severino. Fosse eu capixaba, como sou, ou mineiro, como sou, ou até mesmo baiano, como sou, meu apoio a Fernando Gabeira seria amplo, geral e irrestrito. Fico somente imaginando que interesses movem aqueles que compactuam com os desmandos daquele que, para nosso infortúnio, é o terceiro na escala da sucessão presidencial, em caso de impedimento do titular e do vice. Nem quero imaginar a balbúrdia que seria esse país já tão duramente castigado pela criatividade de alguns poucos. Vossa Excelencia Gabeira se expressou corretamente ao se dirigir à Sua Excelência o presidente da Câmara Federal. O meu desejo que todos os brasileiros conscientes (ainda existem) façam coro a essa demonstração de amor à pátria.
2005-09-02
As Virgens de Suazilândia

A figura imponente do rei Mswati III, senhor dessa grande nação africana, manejando o seu cetro em riste, apontando os seios hirtos das virgens, cuja grande paixão não era necessariamente desfrutar da alcova real, mas a de pilotar uma BMW, ao mesmo tempo falando ao celular de ultima geração. Seu criterioso exemplo de pompa e realeza lembram antigas histórias que nos contavam quando meninos, e que nós mesmos lemos sob a batura de Hans Christian Andersen. Transportadas para o mundo real, tornam-se um quadro patético em que mulheres, ou aspirantes a mulheres, são praticamente desnudas diante de um olhar apático de um rei medieval. São mercadorias expostas ao gosto do freguês, como os paios pendurados em antigos empórios feudais. É uma pena que ainda existam mentes desse calibre, promovendo a corrida do ouro de uma forma tão inusitada e mesquinha. É de se lamentar que tantas jovens se submetam a tamanha humilhação para serem uma a mais no harém do rei, em troca de algumas migalhas financeiras. Está inaugurada a nova concepção do sexo por dinheiro. Será mesmo que rola alguma coisa depois? Nós somos a fortaleza.
Katrina
Como pudeste me enganar dessa maneira tao torpe e vil, minha querida, cujo nome evoca prazeres embalados em nenúfares perfumados! 2005-08-31
A Apologia do Caos

Certa vez um presidente. Não era um presidente qualquer, como muitos que a gente encontra por aí. Não tinha o carisma de alguem como Hugo Chavez, nem a fraqueza de um George W. Bush. Não tinha a expressão lúdica como Itamar Franco, nem a ostensividade de um Collor, nem o espírito humanitário de um Hitler e, indo mais longe, a consciência tranquila de um Nero, que sequer era presidente. Mas este era diferente, porque nunca sonhou em ser presidente. Num desses movimentos que ninguem entende mesmo, as massas o elevaram ao posto máximo no poder e ele passou a governar aquela nação estranha.
Sua maior peculiaridade era que ele nao sabia. Passou a infância toda em Marte, onde nao tinha escola, e nao foi informado sobre o que ocorria na terra. Desse modo, nao sabia que a capital do Brasil nao era Buenos Aires, nem que a fórmula de Eisten transformava homens em almas, nem que o mundo caminhava independentemente de suas decisões. Ele ignorava. E era cômodo ignorar. Naquela republiqueta onde qualquer coisa podia acontecer, o mais provável era que o resto do mundo fizesse piadas. Mas entao o nosso homem era especialista em piadas. A última foi assassinar verbalmente um presidente, um notável estadista que aquela nação ousou eleger para construir a sede do seu governo.
O homem que nao entendia, passou a entender menos. Tudo o que ele nao conhecia, passou a ignorar mais veemente. O que ele venerava, passou a exorcizar. Flertou com o seu inimigo, esquivou-se do seu destino, estabeleceu-se como um marco da ignonímia e da balbúrdia. Era o ícone maior.
O Chupador da PUC

Na prova de matemática, com a lógica simples que transcorria prazeirosamente, ele deu uma chupada longa e sonora.
Olhei-o, instintivamente, com uma irritação ostensiva, mas ele não se tocou. Estava na carteira atrás de mim e mamava distraidamente uma garrafa de água com a estampa PHDBH. Gordinho, com um irritante boné com a aba para a esquerda, a camiseta preta com uma enorme estampa do Iron Maiden, com o Eddie em evidência. No nariz e nas orelhas pendiam argolinhas brilhantes. Devia ter uns dezoito anos. Por um momento fiquei curioso em saber seu nome, que estava disponível na carteira de identidade que ele deixou presa ao celular, no porta-giz da sala de aula. Merecia uma crônica, mas desisti do nome e da crônica, pois ele sorvia aquela água cheia de baba, de novo.
Já ouvi falar que as pessoas comem chocolates, tomam cachaça, fazem qualquer coisa pra relaxar na hora do vestibular, mas nunca soube que levavam garrafas de água para beberem durante a prova. E que ficavam daquela forma chata e nojenta atrás da gente.
Ora, cada um tem sua peculiaridade. Eu dormi e sonhei, pouco antes da prova. Sonhei algo absurdo como uma ocorrência policial em que eram algemados alguns cafetões que, ao meu ver, são personagens de folhetins, da Hilda Furacão, do Drummond, e não existem mais.
Acordei com a chupada irritante do Chupador da PUC. Bem na hora, pois eu tinha terminado as provas e preenchido a folha de respostas. Mas ele continuava lá, com aquela garrafinha inquietante.
Planejei então, para o dia seguinte. Não deu tempo de almoçar, então comi sanduíches de salaminho, daqueles italianos, que vem a todo momento à tona, não nos deixando esquecer deles.
Não deu certo.
Quando me assentei na mesma carteira do dia anterior, não havia ninguém mais na sala. Deu pra dormir de novo. Quando acordei, como um pesadelo, estava o Chupador com sua indefectível garrafa.
Fiz todas as provas. A caneta infame que eu trouxe me deixou chateado. E a todo momento o camarada sorvia sua mistura mineral.
Antes de pular no seu pescoço e estrangulá-lo, resolvi sair. Fim de vestibular.
Saí.
Pois foi lá fora que me surpreendi. Dezenas de outros candidatos portavam uma garrafinha igual ao meu vizinho. Olhei um a um raivosamente, como um Pitbull acuado.
Desci a rua, atravessei a praça e olha só com que me deparo: várias moças, todas uniformizadas com a marca PHDBH, assentadas num restaurante, batendo papo, alheias à vítima que fizeram e que neste momento passava, lançando-lhes um olhar fulminante, que nem mesmo entenderam
Que o Chupador da PUC reprove, pois não agüentarei vê-lo estudando DIREITO ao meu lado direito.
Ou esquerdo.
Ou na retaguarda.
Ou onde for._
H
2005-08-28
Incidente no Minas Shopping

Naquela sonolência de um tarde de sábado em Belo Horizonte, o shopping modorrento de preguiça, as pessoas desfilando como se deslizassem numa esteira rolante invisível, em câmera lenta, de repente um alerta:
- Atenção todas as unidades, câmbio ! –
- Atenção todas as unidades, câmbio ! –
Abriu um olho apenas para observar, mas não conseguiu divisar direito. A voz autoritária continuava a berrar no walkie-talkie:
- Atenção todas as unidades, câmbio ! Derrame de pó branco.
Os curiosos de plantão começaram a acorrer e, em poucos segundos, uma pequena multidão se acotovelava diante da mulher negra, trajando um impecável uniforme azul, com as pernas arqueadas, o rádio na mão, um olhar austero, chamando todas as unidades.
Operação de guerra, alguém achou cocaína no shopping – concluiu o pachorrento observador, e voltou a cochilar, pois tal assunto não merecia especial atenção, de tão corriqueiro.
Mas a mulher não desistia de sua chamada escandalosa:
- Temos uma situação de risco aqui no piso 2. repito: situação de emergência no piso 2. em frente à loja Dadalto. Preciso de apoio, cambio.
A multidão olhava, sem entender nada. A mulher negra impunha sua autoridade e não desistia dela, nem quando chegou um homem forte, negro, usando um uniforme em outro tom de azul, que trocou breves palavras com a mulher.
Foi então que ficou visível o objeto de tamanha apreensão. Um extintor de incêndio, por ação de uma facção terrorista de nacionalidade indefinida, foi posto abaixo num ato de pura irresponsabilidade, com a cruel intenção de respingar o pó branco em quantos ali passassem, tornando-os meio palhaços.
Nesse momento chegou uma humilde, discreta e brancamente uniformizada moça com uma pá e uma vassoura. Pediu licença à multidão, aproximou-se da comandante negra, ouviu suas instruções, ditadas a ela como se estivesse muito mais longe do que realmente estava. Aquiesceu, cabisbaixa, e iniciou seu trabalho, metodicamente. Juntou o pó alvíssimo espalhado ali, apanhou-o com a pá, colocou numa sacola preta e sumiu por uma porta lateral, sem ao menos ser ovacionada pela multidão. Mas ela não viu que um dos transeuntes, munido de uma indiscreta câmera digital, disparou o flash bem no momento em que ela se curvava diante de seu afã de fazer desaparecer o pó.
O homem negro seguiu-a, por sua vez, empurrando um carrinho com o extintor contraventor, e não foram vistos mais.
A mulher negra explicava pra imprensa, representada pelos curiosos que ali se acercavam, sobre como aconteceu o derramamento de pó ABC, do extintor daquela área. Seu peito arfava de orgulho, contando como, em poucos instantes, conseguira debelar o fogo da desordem, apenas com seu walkie-talkie e seu tom de voz.
Ninguém a aplaudiu, se era isso o que ela queria.
Aos poucos, os transeuntes voltaram à sua rotina de olhar as vitrines, e o homem que a tudo assistia, voltou a cochilar no sofá macio, esperando a namorada que não vinha.
