2005-08-31

A Apologia do Caos


Certa vez um presidente. Não era um presidente qualquer, como muitos que a gente encontra por aí. Não tinha o carisma de alguem como Hugo Chavez, nem a fraqueza de um George W. Bush. Não tinha a expressão lúdica como Itamar Franco, nem a ostensividade de um Collor, nem o espírito humanitário de um Hitler e, indo mais longe, a consciência tranquila de um Nero, que sequer era presidente. Mas este era diferente, porque nunca sonhou em ser presidente. Num desses movimentos que ninguem entende mesmo, as massas o elevaram ao posto máximo no poder e ele passou a governar aquela nação estranha.
Sua maior peculiaridade era que ele nao sabia. Passou a infância toda em Marte, onde nao tinha escola, e nao foi informado sobre o que ocorria na terra. Desse modo, nao sabia que a capital do Brasil nao era Buenos Aires, nem que a fórmula de Eisten transformava homens em almas, nem que o mundo caminhava independentemente de suas decisões. Ele ignorava. E era cômodo ignorar. Naquela republiqueta onde qualquer coisa podia acontecer, o mais provável era que o resto do mundo fizesse piadas. Mas entao o nosso homem era especialista em piadas. A última foi assassinar verbalmente um presidente, um notável estadista que aquela nação ousou eleger para construir a sede do seu governo.
O homem que nao entendia, passou a entender menos. Tudo o que ele nao conhecia, passou a ignorar mais veemente. O que ele venerava, passou a exorcizar. Flertou com o seu inimigo, esquivou-se do seu destino, estabeleceu-se como um marco da ignonímia e da balbúrdia. Era o ícone maior.

O Chupador da PUC


Na prova de matemática, com a lógica simples que transcorria prazeirosamente, ele deu uma chupada longa e sonora.
Olhei-o, instintivamente, com uma irritação ostensiva, mas ele não se tocou. Estava na carteira atrás de mim e mamava distraidamente uma garrafa de água com a estampa PHDBH. Gordinho, com um irritante boné com a aba para a esquerda, a camiseta preta com uma enorme estampa do Iron Maiden, com o Eddie em evidência. No nariz e nas orelhas pendiam argolinhas brilhantes. Devia ter uns dezoito anos. Por um momento fiquei curioso em saber seu nome, que estava disponível na carteira de identidade que ele deixou presa ao celular, no porta-giz da sala de aula. Merecia uma crônica, mas desisti do nome e da crônica, pois ele sorvia aquela água cheia de baba, de novo.
Já ouvi falar que as pessoas comem chocolates, tomam cachaça, fazem qualquer coisa pra relaxar na hora do vestibular, mas nunca soube que levavam garrafas de água para beberem durante a prova. E que ficavam daquela forma chata e nojenta atrás da gente.
Ora, cada um tem sua peculiaridade. Eu dormi e sonhei, pouco antes da prova. Sonhei algo absurdo como uma ocorrência policial em que eram algemados alguns cafetões que, ao meu ver, são personagens de folhetins, da Hilda Furacão, do Drummond, e não existem mais.
Acordei com a chupada irritante do Chupador da PUC. Bem na hora, pois eu tinha terminado as provas e preenchido a folha de respostas. Mas ele continuava lá, com aquela garrafinha inquietante.
Planejei então, para o dia seguinte. Não deu tempo de almoçar, então comi sanduíches de salaminho, daqueles italianos, que vem a todo momento à tona, não nos deixando esquecer deles.
Não deu certo.
Quando me assentei na mesma carteira do dia anterior, não havia ninguém mais na sala. Deu pra dormir de novo. Quando acordei, como um pesadelo, estava o Chupador com sua indefectível garrafa.
Fiz todas as provas. A caneta infame que eu trouxe me deixou chateado. E a todo momento o camarada sorvia sua mistura mineral.
Antes de pular no seu pescoço e estrangulá-lo, resolvi sair. Fim de vestibular.
Saí.
Pois foi lá fora que me surpreendi. Dezenas de outros candidatos portavam uma garrafinha igual ao meu vizinho. Olhei um a um raivosamente, como um Pitbull acuado.
Desci a rua, atravessei a praça e olha só com que me deparo: várias moças, todas uniformizadas com a marca PHDBH, assentadas num restaurante, batendo papo, alheias à vítima que fizeram e que neste momento passava, lançando-lhes um olhar fulminante, que nem mesmo entenderam
Que o Chupador da PUC reprove, pois não agüentarei vê-lo estudando DIREITO ao meu lado direito.
Ou esquerdo.
Ou na retaguarda.
Ou onde for._
H

2005-08-28

Incidente no Minas Shopping


Naquela sonolência de um tarde de sábado em Belo Horizonte, o shopping modorrento de preguiça, as pessoas desfilando como se deslizassem numa esteira rolante invisível, em câmera lenta, de repente um alerta:
- Atenção todas as unidades, câmbio ! –
- Atenção todas as unidades, câmbio ! –
Abriu um olho apenas para observar, mas não conseguiu divisar direito. A voz autoritária continuava a berrar no walkie-talkie:
- Atenção todas as unidades, câmbio ! Derrame de pó branco.
Os curiosos de plantão começaram a acorrer e, em poucos segundos, uma pequena multidão se acotovelava diante da mulher negra, trajando um impecável uniforme azul, com as pernas arqueadas, o rádio na mão, um olhar austero, chamando todas as unidades.
Operação de guerra, alguém achou cocaína no shopping – concluiu o pachorrento observador, e voltou a cochilar, pois tal assunto não merecia especial atenção, de tão corriqueiro.
Mas a mulher não desistia de sua chamada escandalosa:
- Temos uma situação de risco aqui no piso 2. repito: situação de emergência no piso 2. em frente à loja Dadalto. Preciso de apoio, cambio.
A multidão olhava, sem entender nada. A mulher negra impunha sua autoridade e não desistia dela, nem quando chegou um homem forte, negro, usando um uniforme em outro tom de azul, que trocou breves palavras com a mulher.
Foi então que ficou visível o objeto de tamanha apreensão. Um extintor de incêndio, por ação de uma facção terrorista de nacionalidade indefinida, foi posto abaixo num ato de pura irresponsabilidade, com a cruel intenção de respingar o pó branco em quantos ali passassem, tornando-os meio palhaços.
Nesse momento chegou uma humilde, discreta e brancamente uniformizada moça com uma pá e uma vassoura. Pediu licença à multidão, aproximou-se da comandante negra, ouviu suas instruções, ditadas a ela como se estivesse muito mais longe do que realmente estava. Aquiesceu, cabisbaixa, e iniciou seu trabalho, metodicamente. Juntou o pó alvíssimo espalhado ali, apanhou-o com a pá, colocou numa sacola preta e sumiu por uma porta lateral, sem ao menos ser ovacionada pela multidão. Mas ela não viu que um dos transeuntes, munido de uma indiscreta câmera digital, disparou o flash bem no momento em que ela se curvava diante de seu afã de fazer desaparecer o pó.
O homem negro seguiu-a, por sua vez, empurrando um carrinho com o extintor contraventor, e não foram vistos mais.
A mulher negra explicava pra imprensa, representada pelos curiosos que ali se acercavam, sobre como aconteceu o derramamento de pó ABC, do extintor daquela área. Seu peito arfava de orgulho, contando como, em poucos instantes, conseguira debelar o fogo da desordem, apenas com seu walkie-talkie e seu tom de voz.
Ninguém a aplaudiu, se era isso o que ela queria.
Aos poucos, os transeuntes voltaram à sua rotina de olhar as vitrines, e o homem que a tudo assistia, voltou a cochilar no sofá macio, esperando a namorada que não vinha.