
Saí de Belo Horizonte às 10:45. A manhã resplandecia com um bom presságio. As pessoas no centro se movimentavam freneticamente em busca de escapar do que caracterizava a capital mineira, antes que sentissem saudades. Desde a antiga praça do cimento, de que eu agora não me lembrava exatamente como passara a se chamar, os camelôs apregoavam passagens para Ipatinga, Valadares e Coronel Fabriciano. Um outro mais na frente vendia para Teófilo Otoni. Não se tratava de passagem rodoviária normal, mas a possibilidade de chegar mais rápido ou não chegar nunca, a bordo de uma van, dirigida por alguém a quem as pessoas tinham que confiar as suas vidas, numa cumplicidade mórbida.
Aos poucos a cidade ficaria vazia, a exemplo do Rio de Janeiro no carnaval, o que não tinha importância para mim, uma vez que saía também, com destino a Pará de Minas.
Com um chiclete azedo na boca, pouco depois me deixava absorver pelos prédios conhecidos e impessoais da Avenida do Contorno e Via Expressa. Já os vira tantas vezes que não me importava mais com eles. E eles corriam cada vez mais rápidos, ficando para trás, junto com seus infortúnios e prazeres.
Aos poucos o carro ganhava a estrada. Começava a avaliar os cheiros que se manifestavam no interior do veículo e não havia nada neles que agradasse.
De uma forma estranha me sentia aliviado em deixar Belo Horizonte, a quem amava como aquele que sem esperanças se entrega. Mas precisava experimentar se Belo Horizonte, amante profícua, me queria com igual intensidade. Pensava nisso ao passar por Contagem e, como sempre, ansiava por atravessar logo aquela fase.
Quando o ônibus chegou em Betim, resolvi avisar que estava indo, contrariando a mim mesmo, pois planejara meticulosamente outro tipo de chegada diferente da anunciada. Queria mostrar que era educado e diferente. Parte de minha expectativa, porém, se mitigava naquele momento, pois eliminava o inusitado, e portanto não poderia surpreender nem menos a mim.
Foi aí que conheci Dona Rosa e seu filho Zé Buscetta. Resolvi dar-lhe este nome, pois era o mesmo que ele gostava de gritar o tempo todo, completamente atordoado.
Embarcaram em algum lugar de Betim. Ele completamente embriagado e ela completamente condescendente com o filho. Ele acercou-se do corredor do ônibus e encenou as caretas características de bêbado, sob o olhar atento da mãe. Ela se aproximou de mim. Pude vê-la com cuidado através dos óculos escuros. Era uma senhora de aparência saudável, porém humilde. Parecia reter consigo todos os mananciais de paciência que as mães costumam ostentar.
Acercou-se de mim, sentando-se ao meu lado, não sem antes oferecer a cadeira para o filho, que se limitava a gritar que queria cachaça, olhando perdidamente algum ponto invisível acima de minha cabeça.
Durante a viagem o que aconteceu era esperado. O filho saía de sua cadeira e vinha infernizar a mãe, gritando, provocando, proferindo palavras chulas, completamente fora de si.
Não me lembro de onde desceram, mas é certo q num lugar qualquer o veículo vomitou aquele casal estranho.


Caía uma chuva fina naquela tarde. Os ventos sopravam indolentemente, salpicando agua do mar em quem se aventurasse a passar por aquele lado. Havia somente um homem com aquela disposição, na preguiça típica da hora. De aspecto rude, talvez pela barba cerrada que ostentava, emprestando-lhe um aspecto desleixado e feroz. Desceu do carro estacionado há pouco, vestiu um sobretudo à inglesa, olhou em volta como se procurasse uma paisagem familiar, sorriu para si mesmo, e começou a caminhar lentamente, apesar da garoa. O motorista, empertigado, já entrara novamente no carro de chapa branca e deixara o local. Ele amava o Rio de Janeiro. Nem a chuva que avançava verão adentro o fazia desistir desse amor incompreendido e platônico. Quando olhava as águas da baía, se sentia como se fizesse parte da paisagem, e isso lhe trazia grande satisfação. Por isso parou, cheirou o ar profundamente, sorriu novamente, e se dirigiu para um prédio antigo que era seu velho conhecido. Reparou que pequenas ondas batiam na parede de concreto, base daquele prédio. Alguns corais estava ali para demarcarem seu território. O homem conhecia muito bem aquele local. Caminhou, com passos resolutos, para a recepção. Um rapaz, trajando um impecável uniforme branco da marinha, o interpelou: - Pois não, senhor. - Olá, cabo. Sou um amigo da Almirante Kenia. - A quem devo anunciar, senhor. - Castel. Fred Castel é meu nome. - Desculpe, senhor, mas a Almirante o espera? - Certamente que sim. Ela me chamou. - Nada me foi informado, senhor - tornou o solícito marinheiro - Pois não posso ajudá-lo. Sei o caminho. Não precisa se incomodar. - Mas senhor... E Fred Castel já entrava pelo corredor estreito que conhecia muito bem. Sabia onde este ia dar e, sem cerimônia, continuou seu caminho, deixando para trás o perpelxo cabo. Ao fim de alguns passos, chegou à porta dos aposentos da Almirante. Bateu delicadamente, sem ouvir resposta. Esperou um pouco e bateu novamente. Nada. Torceu a maçaneta e entrou. No interior do aposento reinava uma luz fraca. O ambiente estava praticamente na penumbra, mas ele conhecia muito bem onde pisar. Dirigiu-se ao bar, serviu-se despreocupadamente de uma generosa dose de uísque, que sorveu de um só gole, e preparou-se para a espera, quando ouviu um ruído vindo de outra dependência. Dirigiu-se para o local. Era o banheiro. Aproximou-se, sem qualquer tipo de cuidado para não chamar a atenção, acercou-se do box onde um vulto fazia movimentos rítmicos através do vidro translúcido. ---- to be continued ----------








