2005-09-26

Zé Busceta e Dona Rosa





Saí de Belo Horizonte às 10:45. A manhã resplandecia com um bom presságio. As pessoas no centro se movimentavam freneticamente em busca de escapar do que caracterizava a capital mineira, antes que sentissem saudades. Desde a antiga praça do cimento, de que eu agora não me lembrava exatamente como passara a se chamar, os camelôs apregoavam passagens para Ipatinga, Valadares e Coronel Fabriciano. Um outro mais na frente vendia para Teófilo Otoni. Não se tratava de passagem rodoviária normal, mas a possibilidade de chegar mais rápido ou não chegar nunca, a bordo de uma van, dirigida por alguém a quem as pessoas tinham que confiar as suas vidas, numa cumplicidade mórbida.
Aos poucos a cidade ficaria vazia, a exemplo do Rio de Janeiro no carnaval, o que não tinha importância para mim, uma vez que saía também, com destino a Pará de Minas.
Com um chiclete azedo na boca, pouco depois me deixava absorver pelos prédios conhecidos e impessoais da Avenida do Contorno e Via Expressa. Já os vira tantas vezes que não me importava mais com eles. E eles corriam cada vez mais rápidos, ficando para trás, junto com seus infortúnios e prazeres.
Aos poucos o carro ganhava a estrada. Começava a avaliar os cheiros que se manifestavam no interior do veículo e não havia nada neles que agradasse.
De uma forma estranha me sentia aliviado em deixar Belo Horizonte, a quem amava como aquele que sem esperanças se entrega. Mas precisava experimentar se Belo Horizonte, amante profícua, me queria com igual intensidade. Pensava nisso ao passar por Contagem e, como sempre, ansiava por atravessar logo aquela fase.
Quando o ônibus chegou em Betim, resolvi avisar que estava indo, contrariando a mim mesmo, pois planejara meticulosamente outro tipo de chegada diferente da anunciada. Queria mostrar que era educado e diferente. Parte de minha expectativa, porém, se mitigava naquele momento, pois eliminava o inusitado, e portanto não poderia surpreender nem menos a mim.
Foi aí que conheci Dona Rosa e seu filho Zé Buscetta. Resolvi dar-lhe este nome, pois era o mesmo que ele gostava de gritar o tempo todo, completamente atordoado.
Embarcaram em algum lugar de Betim. Ele completamente embriagado e ela completamente condescendente com o filho. Ele acercou-se do corredor do ônibus e encenou as caretas características de bêbado, sob o olhar atento da mãe. Ela se aproximou de mim. Pude vê-la com cuidado através dos óculos escuros. Era uma senhora de aparência saudável, porém humilde. Parecia reter consigo todos os mananciais de paciência que as mães costumam ostentar.
Acercou-se de mim, sentando-se ao meu lado, não sem antes oferecer a cadeira para o filho, que se limitava a gritar que queria cachaça, olhando perdidamente algum ponto invisível acima de minha cabeça.
Durante a viagem o que aconteceu era esperado. O filho saía de sua cadeira e vinha infernizar a mãe, gritando, provocando, proferindo palavras chulas, completamente fora de si.
Não me lembro de onde desceram, mas é certo q num lugar qualquer o veículo vomitou aquele casal estranho.

2005-09-24

Mulheres Americanas

Katrina, Ophelia, Rita. Por que será que os americanos dão nomes de mulheres aos furacões que vem com tudo, levam suas casas e carros e os deixam na lona?

Mulher


A mulher é um parque de diversões onde o brinquedo principal é a montanha russa

Um dos filhos de Emilio





Nao cabe aqui a história dos filhos de Emilio, mesmo este que vos escreve estas mal traçadas linhas. Mesmo porque além deste, outros oito filhos vivos e uns quatro mortos, a prole de Emílio se espalhou pela Terra e se tornou incontrolável como Rita, o furacão . Mas podemos fazer uma brevissima apresentação. O mais velho é médico, o segundo é um aventureiro, o terceiro administra empresas, o quarto gerencia uma transportadora. Os outros eu nao sei direito. Parece-me que um deles mora em Portugal, é só o que sei.
Pois bem, Emilio, descendente dos conquistadores mouros e dos indígenas machacalis. Dessa mistura espanhola e brasileira nasceu um homem comedido, sagaz, paciente e extremamente violento. Mas sua violência se expressava nos sonoros berros que ensurdeciam os desprevenidos pupilos de sua saga, tantos filhos aos seus cuidados.
Conta-se que Emilio, aos doze anos, profundo conhecedor das florestas das três fronteiras (Minas, Espírito Santo e Bahia), foi contratado para conduzir um rico fazendeiro até uma certa cidade, para onde nao havia caminho. Durante dias e noites Emilio desbravou a mata, abrindo um caminho para seu ilustre contratante, chegando, porfim, ao destino planejado. O homem ficou tão encantado que lhe deu uma fazenda. Se me chamarem de mentiroso eu levo no local para provar. A fazenda existe até hoje, sinal da inteligência e resistência de Emilio. Por comodidade, sua recém-adquirida fazenda fazia divisa com a fazenda de Antonia Janes, sua mãe e, pro consequencia, avó deste humilde narrador.
Convencionou-se chamar a fazenda de Paraíba. Não sei a origem de tal nome, qual a influência daquele estado nordestino na vida de Emilio.
Certo é que ele conta sobre o primeiro par de sapatos aos quatorze anos. Sim, porque como acontece hoje, ter uma fazenda nao significa necessariamente ter dinheiro. O fantasma da liquidez, ou da falta dela, sempre assombrou os fazendeiros e empreendedores de um modo geral.
Emilio se enrabichou por uma mulata de parar o trânsito. É verdade que na época o trânsito não passava de algumas carroças puxadas por plácidos bois. Os automóveis rareavam naquelas paragens. Ele conta que as pernas da mulata o fizeram perder o juizo. Numa cidade vizinha, de Minas, na mesma onde ele nasceu, essa mulata passou a tomar conta de seu pensamento e sua alma. Os volteios que ela dava com os quadris faziam Emilio se esquecer da roça que ele tinha deixado para trás. Vez por outra, inventava uma desculpa qualquer para ir a Nanuque visitar a mulata de cabelos sedosos e encaracolados, boca pequena e olhos... ah, os olhos da mulata pareciam invadir a alma de Emilio, ou de quem se pusesse diante deles.
Surgiu uma complicação. A mãe da mulata era a temível Rosa, barraqueira de profissão e barraqueira por diversão. Sim, pois Rosa adorava armar um barraco. Por um "dê cá aquela palha" ela rodava a baiana, mesmo porque era baiana, como a filha mulata que encantava Emilio. A crônica nanuquense registra que Rosa, a futura sogra de Emilio, certa vez arrastou um policial pela genitália, quando esse a desrespeitou. Mas essa era uma das mais leves façanhas de Rosa. Mas não me permito falar dela e de seus almoços servidos ao ar livre, com que eu, tímido neto, me regalava, alheio às moscas que insistiam em compartilhar comigo os quitutes da vovó. Lamentavelmente Rosa morreu , bem velhinha e solitária, em sua residência no Rio de Janeiro, muitos anos depois, depois de resistir a assaltos, atentados, incêndios, miséria e fome. Tudo isso devidamente registrado pela lágrima discreta da mulata que encantava Emilio.
Emilio achou por bem casar-se com a mulata. Arrastou-a para a fazenda e com ela construiu uma família.
Viveram um amor intenso e despreocupado. A força de trabalho da mulata, somada à disposição de Emilio, aos poucos a fazenda foi se formando. A sede foi construiída sob palmeiras reais, o curral a poucos passos, e a farinheira, como nao podia deixar de ser, a um tiro de espingarda.


..... to be continued....

2005-09-21

Operação Poseidon - Capítulo I

 Caía uma chuva fina naquela tarde. Os ventos sopravam indolentemente, salpicando agua do mar em quem se aventurasse a passar por aquele lado. Havia somente um homem com aquela disposição, na preguiça típica da hora. De aspecto rude, talvez pela barba cerrada que ostentava, emprestando-lhe um aspecto desleixado e feroz. Desceu do carro estacionado há pouco, vestiu um sobretudo à inglesa, olhou em volta como se procurasse uma paisagem familiar, sorriu para si mesmo, e começou a caminhar lentamente, apesar da garoa. O motorista, empertigado, já entrara novamente no carro de chapa branca e deixara o local. Ele amava o Rio de Janeiro. Nem a chuva que avançava verão adentro o fazia desistir desse amor incompreendido e platônico. Quando olhava as águas da baía, se sentia como se fizesse parte da paisagem, e isso lhe trazia grande satisfação. Por isso parou, cheirou o ar profundamente, sorriu novamente, e se dirigiu para um prédio antigo que era seu velho conhecido. Reparou que pequenas ondas batiam na parede de concreto, base daquele prédio. Alguns corais estava ali para demarcarem seu território. O homem conhecia muito bem aquele local. Caminhou, com passos resolutos, para a recepção. Um rapaz, trajando um impecável uniforme branco da marinha, o interpelou: - Pois não, senhor. - Olá, cabo. Sou um amigo da Almirante Kenia. - A quem devo anunciar, senhor. - Castel. Fred Castel é meu nome. - Desculpe, senhor, mas a Almirante o espera? - Certamente que sim. Ela me chamou. - Nada me foi informado, senhor - tornou o solícito marinheiro - Pois não posso ajudá-lo. Sei o caminho. Não precisa se incomodar. - Mas senhor... E Fred Castel já entrava pelo corredor estreito que conhecia muito bem. Sabia onde este ia dar e, sem cerimônia, continuou seu caminho, deixando para trás o perpelxo cabo. Ao fim de alguns passos, chegou à porta dos aposentos da Almirante. Bateu delicadamente, sem ouvir resposta. Esperou um pouco e bateu novamente. Nada. Torceu a maçaneta e entrou. No interior do aposento reinava uma luz fraca. O ambiente estava praticamente na penumbra, mas ele conhecia muito bem onde pisar. Dirigiu-se ao bar, serviu-se despreocupadamente de uma generosa dose de uísque, que sorveu de um só gole, e preparou-se para a espera, quando ouviu um ruído vindo de outra dependência. Dirigiu-se para o local. Era o banheiro. Aproximou-se, sem qualquer tipo de cuidado para não chamar a atenção, acercou-se do box onde um vulto fazia movimentos rítmicos através do vidro translúcido. ---- to be continued ----------

2005-09-13

Comfortably Numb


Hoje fui brindado com uma das músicas que mais tocam o meu coração, a canção perfeita, que resolvi colocar aqui.


Pink Floyd

Comfortably Numb


Hello.
Is there anybody in there?
Just nod if you can hear me.
Is there anyone home?

Come on, now.
I hear you're feeling down.
Well I can ease your pain,
Get you on your feet again.

Relax.
I need some information first.
Just the basic facts:
Can you show me where it hurts?


There is no pain, you are receding.
A distant ship's smoke on the horizon.
You are only coming through in waves.
Your lips move but I can't hear what you're sayin'.
When I was a child I had a fever.
My hands felt just like two balloons.
Now I got that feeling once again.
I can't explain, you would not understand.
This is not how I am.
I have become comfortably numb.


Ok.

Morte e Vida Severina




Confesso, acabrunhado, que ainda não li João Cabral de Melo Neto, apesar de ter lido resenhas e resumos. Perdi o tesão pela minha novela preferida,a CPI DO MENSALÃO, uma vez que as coisas não saem do lugar, como se fosse uma rosca contínua. Suspeita-se, investiga-se, denuncia-se, defende-se, incrimina-se, tapeia-se. E de repente a figura número um não é o nosso atabalhoado presidente, cético, surdo, mudo e cego, mas a carismática criatura chamada simplesmente "Severino".
Todo mundo ficou chocado quando ele, dando um banho no governo, assumiu a presidência da câmara, vulga "Parlamento". Todo mundo sabia que não se podia esperar grandes coisas de um homem com instintos nepotistas tão salientes. Todo mundo sabia que ele seria o sucessor do presidente em situações que assim exigissem.
Mas ele continua no auge da fama. Agora como agente do mensalinho. E de repente os jornais televisivos não se referem mais ao mensalão. Perdeu a graça. E entendo porque: uma pessoa como Severino foi o que todos ali usaram para abafar o mensalão.
Mas já estou cansado dessa história.
Olho pra meus pé e pergunto-lhe: este é o meu país? Onde estão as pessoas decentes que outrora existiram? Onde estão as pessoas que seriam cópias morais perfeitas de meu pai e minha mãe?
Considero-me perdido, como muitos brasileiros estão, nesse oceano de lama que se tornou a vida pública no meu país. Confesso que, se me perguntarem se sou brasileiro, é capaz de se ouvir que eu sou marciano.
Pois bem. Tomei então algumas decisões para evitar o caos na minha mente, já muito combalida pelos meus fantasmas particulares:
1 - Cancelei a assinatura do Globo
2 - Não ligo mais a televisão, a não ser para o Globo Rural
3 - Não comento sobre política, religião e sexo (abri uma exceção somente hoje)
4 - Atiro uma rosa vermelha, daquelas que simbolizam o amor, para a Velhinha de Taubaté.
E encerro aqui o meu assunto.
Certamente meu irmão cartunista vai ler e postar um comentário:" Cadê o final da história, cadê a moral da história". A resposta: sei lá. Vamos esperar pra ver no que dá.

2005-09-11

Domingo




Não. Ninguém tem mais paciência em escrever ou ler alguma coisa sobre os domingos. Eu também não vou cansar ninguem com esse assunto tão maçante. Então vou tecendo meu monólogo de hoje, trazendo à tona remininscências da época de estudante. Acordávamos tarde, na pasmaceira de uma manhã em Campos, no estado do Rio. A sombra nevoenta da preguiça aos poucos tornando os movimentos mecânicos. Alguem tinha quer ir à padaria e realizava-se uma espécie de roleta russa de padaria. Esta distava um quarteirão, mas era como se estivesse no Japão. Do outro lado da rua da padaria ficava o boteco onde era costume jogarmos sinucão. Nem uma coisa nem outra aos domingos. Era um dia exclusivo de dedicação a não fazer nada.
Pensando bem, talvez não seja uma boa idéia escrever sobre domingo tão longe na época. Mesmo que aqui seja Brasil, e brasileiros não se preocupam TANTO com o passado de suas personagens como os americanos: "Extra, o presidente já ficou pelado quando bebê. Impeachment nele!!".
Vou continuar de teimoso.
Pois bem, onde é que eu estava? Ah sim, na padaria. O café, por mãos masculinas, não tinha graça nenhuma. Um dos rapazes da república era jeitoso com o fogão. Falava fino às vezes, mas fingíamos ignorar o fato, pra não render conversa.
Dois poetas, um artesão, um agricultor, um político. Nas células vizinhas havia todo tipo de gente e lugar. E essa miscigenação era salutar, uma vez que discutíamos assuntos diferentes.
Mas aos domingos, bem, aos domingos a tendência era ficar perambulando pela rua, sem nada pra fazer. Os mais corajosos se aventuravam a assaltar o pomar da escola, a uns quatro quilômetros dali. Havia os mais radicais, que colocavam uma cadeira à porta da casa e encostavam um radinho de pilha, daqueles que chiavam (hoje proleferam pra todo lado, imagino se alguem ainda compra), pra ouvir futebol.
A tristeza de ouvir futebol no rádio não se comparava à expectativa de chegar ao fim de um dia tão apático, morto até.
Num desses domingos, um de nós foi ao supermercado, no centro. Olhou todas as gôndolas e, por incrível que possa parecer, não encontrou nada do seu agrado. Dirigiu-se então à saída, quando foi abordado pelo segurança, um mulato de quase dois metros, como tem que ser todo segurança de histórias verídicas. Me contaram que nosso amigo se acovardou diante do porte da lei. Mas a delicadeza do segurança o cosntrangeram a ser gentil.
- E aí, seu ladrãozinho. O que tá levando aí ? - perguntou o brutamontes
- Eu? O senhor ficou maluco? Tá me ofendendo.
- Você ainda não viu nada. Seu safado, gatuno.
- Vou te processar, moço. Tá me caluniando. Tá todo mundo olhando pra cá.
- Que olhem, seu gatuno de meia tigela.
- O senhor sabe com quem tá falando? Sou estudante de agropecuária da Federal.
- E eu com isso?
- Você com isso porque sou de respeito.
- Sei. Vams logo ali no reservado falar com o gerente.
Não teve jeito. Nosso amigo foi levado ao gerente, um homem atarracado e de maus bofes, como diria Machado.
- Então o senhor é o estudante que foi apanhando roubando na loja!
- Não estou entendendo onde vocês querem chegar. A única coisa que acertaram é que sou estudante.
- E ladrão.
- Isso não. Não estou desrespeitando ninguem.
- Claro que não. A constituição federal não é "ninguém". Esvazie os bolsos, antes que eu chame a polícia.
- Se é assim que querem, vou fazer, mas aviso, não encontrarão nada.
Somando atitude às palavras, o estudante esvaziou os bolsos. Nada havia além da carteira com o dinheiro da passagem de volta e a carteirinha da Escola Federal de Agricultura.
Mas foi instigado a se deixar revistar. Realmente não tinha nada nos bolsos. Mas nas meias e nos canos das botas foram encontrados vários itens de pequeno valor, tipo pasta de dente, escova, caneta, barbeador descartável, quinquilharias. O constrangimento foi inversamente proporcionalao valor dos objetos. Mas recebeu conselhos do gerente enjoado, e despachado pra casa.
Quando chegou em casa, ainda teve a cara deslavada de nos contar sua desventura. Mas ninguém mesmo tinha essa coisa chamada vergonha.
E acabou que nem falei exatamente do domingo, e ele está acabando. Só me resta ver o Fantástico, enquanto termino essa conversa mole.

2005-09-09

El Fedor em Nanuque



Pocotó. Pocotó. Que diabos será isso? Alguem quebrando pedras? Um homem balançando a ferramenta? Um disco voador não identificado? Nada. É o anúncio da cehgada de EL FEDOR EM NANUQUE.

São aproximadamente três da tarde. O sol pegajoso e abrasador parece sugar a vontade dos homens, como um vampiro monumental, arrancando faíscas do chão de paralelepípedos, onde proliferam os vermes aeróbios, e onde os cães, figuras nativas do lugar, não podiam coçar suas sarnas. Um deles, por sinal, dormita molemente à sombra de uma casa escolhida a esmo. Ao fundo da rua principal, na entrada da cidade, vem se avolumando a figura negra e grotesca de um cavaleiro.
Seu porte alto e esquelético, sua cor trigueira, os lábios cerrados, cabelos escorridos e incrivelmente negros lhe dão uma aparência estranha. As poucas pessoas que transitam naquela hora ficam arrepiadas com a figura sinistra.
Na sua cintura balouçam um revólver de cada lado, lustrado e bem cuidado. Ferramenta de trabalho, pelo que denota.

...to be continued

2005-09-08

Viagem Insólita



De repente meu olhar se detem num horizpnte longínquo, fora do campo visual da minha razão. E meus músculos lassos travam, diante de uma caminhada de que não sei se estou no começo ou no fim, sabe-se lá onde fica o meio, mas num vislumbre de minha loucura percebo que há um brilho no espaço. Talvez não se refira a mim, mas à minha consciência que, a essa altura, se apartou de mim, fazendo-me demente e ansioso. Onde deixei minha inteligência, minha sensibilidade, minha arte? Não sei, e tenho certeza de que ninguém saberá me dizer. Sigo então, tateando, na penumbra da minha obscuridade, mas reconhecendo o terreno, onde penso que já pisei. Logo estarei num lugar insólito, fazendo algo que eu nem imagino.

2005-09-06

Vida de Cachorro

 

Já foi há muito tempo quando se falava da vida de cachorro como sendo a pior existência que se podia imaginar. Os antigos vira-latas, esquálidos, sarnentos, revirando latas para conseguir algum alimento, eram o quadro deprimente de uma sociedade emergente. Mas daí começou um movimento, como uma onda, tentando dar um pouco de dignidade (?) aos animais que são considerados os melhores amigos do homem (inclusive os pitbulls, rotveilers e filas). Minha avó me contava de um certo cachorro da família, que morreu aos dezoito anos, portanto já bem experiente. Chamava-se VenceTudo, era branco como uma ovelha branca, pêlos lisos, e tinha como peculiaridade a mansidão, apesar do nome. Vim a saber, mais tarde, que ele ganhara o nome porque, além de ser o guardião da fazenda, por essa razão havia sido atropelado, o que o fizera mancar um pouco, e levara um tiro no olho, que o tornara cego de uma das vistas (não me pergunte qual). Nada se comparando ao yorkshire de Gisele Bunchen ou daquela socilite carioca Loyola, e a tantos outros cães famosos que conhecemos. Então veio a Suipa, no Rio, para minimizar os desmandos da carrocinha, o terror dos cães urbanos. Mas vida de cachorro hoje, em pleno século 21, não é mais a mesma coisa. A Lei do Pitbull, no Rio, é uma prova disso. Pacíficos e mal-encarados cães de estimação de repente entraram na mídia de forma nervosa, tornando seus donos infratores contumazes. Eis a situação: - Tirano ! Tirano ! - chama o Dr. Celso, desembargador carioca - Vem logo ! - Peraí, meu chapa - responde o Pitbull, acabando de traçar um rosbife (ou preferem roast-beef?) - Não temos tempo. O CAC tá vindo aí. Depressa ! - Impacienta-se o irreprimível senhor. - Que droga é essa? CAC ? - rosna o cão, um pitbull atarracado, com cara de mau, pesando uns 99 quilos. - CAC, seu animal, é o Comando Anti Cachorro, nova divisão da polícia carioca. - Ué, nós agora que somos os bandidos ? - surpreende-se Tirano. - Pra você ver. Mas deixa de papo e venha logo. Temos toque de recolher. - Calma, Bete. Quero entender primeiro. Bandidos mandam e desmandam, corrompem a polícia e outras autoridades, impõem um poder que não é mais paralelo, são filmados, documentados, presos e soltos, revrenciados por astros do esportes, e nós é que levamos a culpa? - Tirano, isso é Brasil, meu amigo. - Ah é? E onde eu posso viver simplesmente sendo um cachorro honesto e trabalhador, cuidando da minha família, trabalhando no meu emprego decente? - Acho que já estão colonizando a lua. Próximo vai ser Marte. - Demora muito. Os americanos, que são donos do espaço lá fora, estão preocupados com o Katrina, agora. - Eu sei, seu burro, mas Bush não está. Você tem chance. - Se eu for, o que será de você então, sozinho aqui nesse Brasil cheio de cachorradas em Brasília. - Irei com você. Quem sabe você me arranja uma casinha no fundo do seu quintal e me alimenta com uma boa ração lunar? - É, pelo menos banhos de lua não vão faltar. - Agora chega. Vamos. - Tá bom, tá bom. Que saco ! - Pegou seus acessórios todos? - Conferindo: Focinheira, ok. Enforcadeira, ok. Caganeira, ok? Pra que droga serve essa tal de caganeira? - Seu animal. Pra que você acha que serve? Anda logo. Ou você acha que vou sair atrás de você com um saquinho plástico e uma pazinha catando bosta sua? Sou um homem de respeito. - Sei. O Juiz Nicolau também era. Aquele que matou o vigia lá em Sobral também. - Respeita. Aqueles eram uns cachorros. - Epa. Não me ofenda. - Apanhou o boné, a punheteira, os óculos escuros ? - Não estou entendendo mais nada. Estamos a quase uma hora da madrugada.... - O boné, seu burro, pra você não pegar resfriado, pois veterinário tá caro pra cachorro, a punheteira pra você proteger seus punhos, ou patas, como queira, na falta de sapatos (nunca ouvi dizer que cachorro usa sapato, a não ser nas histórias de Jeca Tatu - coisa bem antiga). - E os óculos? - Pra disfarçar de turista. Vamos que o CAC nos aborda na rua, você começa a latir em inglês e mostra seu passaporte britânico.

2005-09-03

É isso aí, companheiro Gabeira




Nunca antes ouvi um político expressar o sentimento do povo de uma forma tão cabal e poética quanto o nosso companheiro Gabeira, carioca como eu, cidadão do mundo como nós, exasperado com a forma de conduzir o Parlamento que vem sendo utilizada pelo nosso emérito Severino. Fosse eu capixaba, como sou, ou mineiro, como sou, ou até mesmo baiano, como sou, meu apoio a Fernando Gabeira seria amplo, geral e irrestrito. Fico somente imaginando que interesses movem aqueles que compactuam com os desmandos daquele que, para nosso infortúnio, é o terceiro na escala da sucessão presidencial, em caso de impedimento do titular e do vice. Nem quero imaginar a balbúrdia que seria esse país já tão duramente castigado pela criatividade de alguns poucos. Vossa Excelencia Gabeira se expressou corretamente ao se dirigir à Sua Excelência o presidente da Câmara Federal. O meu desejo que todos os brasileiros conscientes (ainda existem) façam coro a essa demonstração de amor à pátria.

2005-09-02

As Virgens de Suazilândia



A figura imponente do rei Mswati III, senhor dessa grande nação africana, manejando o seu cetro em riste, apontando os seios hirtos das virgens, cuja grande paixão não era necessariamente desfrutar da alcova real, mas a de pilotar uma BMW, ao mesmo tempo falando ao celular de ultima geração. Seu criterioso exemplo de pompa e realeza lembram antigas histórias que nos contavam quando meninos, e que nós mesmos lemos sob a batura de Hans Christian Andersen. Transportadas para o mundo real, tornam-se um quadro patético em que mulheres, ou aspirantes a mulheres, são praticamente desnudas diante de um olhar apático de um rei medieval. São mercadorias expostas ao gosto do freguês, como os paios pendurados em antigos empórios feudais. É uma pena que ainda existam mentes desse calibre, promovendo a corrida do ouro de uma forma tão inusitada e mesquinha. É de se lamentar que tantas jovens se submetam a tamanha humilhação para serem uma a mais no harém do rei, em troca de algumas migalhas financeiras. Está inaugurada a nova concepção do sexo por dinheiro. Será mesmo que rola alguma coisa depois? Nós somos a fortaleza.

Katrina

Como pudeste me enganar dessa maneira tao torpe e vil, minha querida, cujo nome evoca prazeres embalados em nenúfares perfumados! 
Antes que chegasses, tua vinda me provocava calafrios, pois eu sabia que me envolverias e teu sopro me tiraria o fôlego, teu abraço me tolheria os movimentos, teu beijo me faria fugir da vida. Bem que eu me preparei para o nosso encontro definitivo, mas nao avaliei como tua envolvente passagem poderia influenciar o meu destino. Logo eu, um pacato cidadão de New Orleans, dedicando-me exclusivamente à memória do Jazz, fingindo ser culto no meio da balbúrdia musical que assola o mundo. E entao vieste com tua força, arrebatando-me, invadindo minha casa, esmagando meu carro e minha vida, reduzindo tudo a pó. Foi doloroso perceber a tua traição, ó pérfida amante. Não era necessário chegares ao extremo que chegastes. Bastava dizeres que eras bela e forte, e que qualquer homem poderia ser subjugado pelo teu charme maldito. Roubaste-me a paz, meus filhos, minhas esperança, minha comida, meu trabalho. Cobriste de catástrofe a minha densa realidade. Coroaste-me com o prêmio que eu nao desejei receber. Hoje nem sei quem sou, entre tantos sinais de tua arrojada passagem, de tua tempestiva jornada. Não me deixaste muita coisa, e custo a acreditar que ainda estou vivo.