2005-10-26

Tiao x Bandido



Até parece novela, mas a batalha épica entre o peão Tião Inácio, o estereótipo do povo brasileiro, contra o touro filósofo Bandido abalou a nação dos crédulos em qualquer modelo político.
De um lado, um brasileiro que ganha a vida com suor e dignidade, tentando sobreviver nesse caos de corrupção, malversação, engodos, roubalheiras que é o curral político do país. Por outro lado, o próprio governo, um touro que no seu curral determina o rumo dessa novela triste que não tem mais fim. Agora com a febre aftosa, é um perigo ainda maior mantê-lo no poder.
Na primeira chifrada do boi, o cidfadão-Tião viu sua renda se esvair. Com o cipoal de impostos, taxas e tributos que paga normalmente, foi doloroso sentir a chifrada da certeza de que seu dinheiro alimentava contas no exterior, quando nao sustentava uma quadrilha arranchada em Brasília.
Nesse caso, não adianta Nossa Senhora Aparecida continuar aparecendo. É mister que cada um tome consciência da gravidade dos fatos e faça o seu papel, aquele para o qual nasceu ou foi eleito.

2005-10-24

Referendo



Recentemente o meu país, uma republiqueta encravada na América Latina, instituiu o referendo popular para definir a vontade dos eleteitores em relação à comercialização ou não de fogões brancos. Claro que tal coisa somente acontece em países onde realmente a opinão pública é levada a sério. Mas este humilde cronista de plantão resolveu fazer algumas considerações a respeito desse tão apaixonante tema:

1º - O perigo de se usar fogões brancos - para isso pagamos altos salários aos deputados, para discorrerem sobre assuntos do interesse nacional. Haja visto que fogões brancos são os responsáveis pela violência urbana, um mal que se alastra de forma incontrolável pelo país adentro, de norte a sul, não distinguindo classe social, raça ou religião. O homem que chega em casa com a predisposição animal de jantar e não encontra anda pronto, e o fogão impecavelmente branco, logicamente será levado a dar umas bifas na esposa, companheira, empregada, namorado. Isso é até natural, nesse contexto. O filho, por sua vez, depois de colocar o tênis (comprado na melhor boutique de calçados do shopping, tendo custado oolho da cara) na máquina de lavar e, uma vez limpo, colocado o seu objeto de desejo pra secar no forno do fogão branco, a empregada Ermenegilda, desavisada, distraída e incompetente, assou o bolo do café da manhã de domingo junto com o tênis. O filho então se viu obrigado a estrangular a empregada. E assim são os casos corriqueiros de violência doméstica que espoucam em nosso cotidiano. Tem também o caso em que o homem atirou o fogão branco pela janela, atingindo um transeunte, que jamais imaginaria sendo atingido por um fogão daquela estirpe, caído do céu.

2º - Os traficantes de fogão. Uma classe sorrateira e esperta, que tem atravessado as fronteiras em vôos fretados, descarregando fogões brancos chineses nas florestas no nosso amado país e mais tarde utilizando rotas predefinidas para espalharem seu afã de enriquecimento ilícito.

2005-10-22

Sexta-Feira 14



Acordou suando frio, os nervos tensos, a preocupação estampada na forma de rugas que insistiam em se tornar perenes, apesar da idade que ele ostentava. Nada daquilo fazia sentido pra ele, no momento em que esfregou os olhos, olhou para o despertador ao seu lado. Ainda eram 5:12 da manhã. Olhou através da cortina translúcida, cor de goiaba, a luz bruxuleante da aurora invadia a sua privacidade tantas vezes violada. Levantou-se como se estivesse bêbado, caminhou titubeando até a janela, abriu-a pela metade, aspirou com força o ar de fora do apartamento. Não havia muito o que respirar. Logo ao lado passava a BR que levava ao Rio de Janeiro e Vitória, as ambulâncias começavam a ostentar a sua passagem rasgando o silêncio com suas sirenes estridentes. Levavam restos humanos para serem restaurados.
Como eu próprio - pensou.
Aprumou o corpo, ainda seminu e deixou-se envolver pelas gotas de água fria que jorravam em cascata do chuveiro. Foi quando notou que havia um cheiro dif
erente no ar. Procurou segui-lo, nada encontrando. Visitou cada cômodo do apartamento, sem nada localizar. Bobeira minha - concluiu.
Fez um café bem forte. Reparou que nao havia mais que três bolachas para o desjejum, mas nada disso o preocupou. Continuava sentindo o cheiro forte. Não vinha lá de fora. Cheirou o próprio corpo. Nada.

2005-10-10

Espelho




Toda vez em que ele me via, escondia o rosto. Parecíamos dois estranhos, mesmo sendo parte um do outro. Ele era a minha voz e eu a dele. De cada lado da rua, cada um seguia o seu caminho, à sua própria maneira. Era inusitado pensar como éramos tão diferentes, mas com algo genuinamente comum: a obstinação e o orgulho. Genioso e genial, brilhante e obscuro, ágil e lerdo, uma coleção de antígonas que poderiam nos levar a qualquer lugar, tamanha era a incerteza do nosso caminho. A inteligência que aflorava era proporcional à burrice nas atitudes, e isso o faziam cada dia mais parecido com o seu criador. Mas as marcas indeléveis de sua indeferença calaram fundo, tornando-me cada dia mais introspectivo, amargurado, acabrunhado e infeliz. Não lhe parecia importante saber ou deixar de saber do meu paradeiro. Mas pra mim era essencial conquistá-lo pra junto de mim, pois na verdade ele era uma extensão da minha personalidade.

Nao quero te encontrar

Enquanto meus olhos fogem à tua figura grotesca, que aos poucos vem se aproximando de mim, trazendo-me a lembrança de minhas perdas e indecisões, aos poucos vou me enamorando de ti, cuja aura me envolve completamente nesse manto noturno, na nossa alcova não há mais ninguém, apenas teu hálito fétido rescendendo a coisas que jamais voltarão e um futuro que jamais acontecerá. Então me deixo prender pela atração de teus argumentos, ficando à mercê de teu poder. Fica, porém, somente uma parte de mim. A outra, desde muito tempo te deixou, buscando a luz do conhecimento, a experiência do deslumbramento, a paz da solidão, a renúncia do abandono, a morte dos sentidos, o renascer da fé.
 

2005-10-04

Entre Quatro Paredes

 

O silêncio sepulcral de minha toca me confunde. A luz fátua começa a me cansar os olhos enquanto meus dedos deslizam insolentemente pelo teclado, acariciando as palavras e arrancando delas expressões inteligíveis. Daqui a pouco vou dormir, já é hora. Não sei se me levantarei desse sono, se mergulharei para sempre no nonsense da vida, na paródia malfeita de uma novela de época, na crônica urbana de um homem totalmente enredado em suas próprias teias. Minhas lembranças vão se desvanecendo lentamente. Meus filhos desapareceram, meus amigos nunca existiram, as taças de vinho que eu consumi há muito já adentraram a terra, deixando comigo apenas o gosto amargo de existir só. Perdi a graça de me lamentar, me esqueci de como é sofrer, não recordo de como é amar, se amar é tão intenso quanto esquecer. Meu último poema abortou há meio século, figura natimorta da minha vontade e insensatez. Mas ainda avanço com passos trôpegos em direção ao meu futuro que, parece, me espera na próxima esquina. Sem profetas nem oráculos, minha obstinação de viver acima de tudo vai me propulsionando em direção ao nada, e nada é o que desejo pensar agora, quando a loucura me encharca os pensamentos. Quem me conhecia, acaba de me perder. Quem me amou, que passe a me odiar. Quem me esqueceu, que continue me ignorando até o século vindouro. Preparo a minha vida com toda a meticulosidade louca de um guerreiro navajo, juntando ingredientes dessa salada infame que corrompe a moral, mas é assim que consigo enxergar a vida, nesse vai e vem de sentimentos tolos cujos nomes se ouve diariamente nos jornais e na televisão. Adormeço então sobre a minha insônia, aguardando o novo amanhecer, quando tudo o que foi planejado há de acontecer.