2005-10-04

Entre Quatro Paredes

 

O silêncio sepulcral de minha toca me confunde. A luz fátua começa a me cansar os olhos enquanto meus dedos deslizam insolentemente pelo teclado, acariciando as palavras e arrancando delas expressões inteligíveis. Daqui a pouco vou dormir, já é hora. Não sei se me levantarei desse sono, se mergulharei para sempre no nonsense da vida, na paródia malfeita de uma novela de época, na crônica urbana de um homem totalmente enredado em suas próprias teias. Minhas lembranças vão se desvanecendo lentamente. Meus filhos desapareceram, meus amigos nunca existiram, as taças de vinho que eu consumi há muito já adentraram a terra, deixando comigo apenas o gosto amargo de existir só. Perdi a graça de me lamentar, me esqueci de como é sofrer, não recordo de como é amar, se amar é tão intenso quanto esquecer. Meu último poema abortou há meio século, figura natimorta da minha vontade e insensatez. Mas ainda avanço com passos trôpegos em direção ao meu futuro que, parece, me espera na próxima esquina. Sem profetas nem oráculos, minha obstinação de viver acima de tudo vai me propulsionando em direção ao nada, e nada é o que desejo pensar agora, quando a loucura me encharca os pensamentos. Quem me conhecia, acaba de me perder. Quem me amou, que passe a me odiar. Quem me esqueceu, que continue me ignorando até o século vindouro. Preparo a minha vida com toda a meticulosidade louca de um guerreiro navajo, juntando ingredientes dessa salada infame que corrompe a moral, mas é assim que consigo enxergar a vida, nesse vai e vem de sentimentos tolos cujos nomes se ouve diariamente nos jornais e na televisão. Adormeço então sobre a minha insônia, aguardando o novo amanhecer, quando tudo o que foi planejado há de acontecer.

2 comentários:

Anônimo disse...

Bem, só não pode querer pular do prédio...

Anônimo disse...

Parabéns, os texto são ótimos,nos permite possibilidade de refletirmos acerca de várias coisas inclusive de nós mesmos. Um dia talvez eu chegue lá,pois hoje mal escrevo um pensamento ou uma emoção.
Lucinéia