2005-11-20

Noite alucinante




 
Quando recebi aquele tiro, vi que o ginásio rodopiava ao meu lado. Eu não conseguia divisar. As luzes continuavam firmes, como para registrar o quadro grotesco que se assenhorava de nós naquele momento. Não cheguei a cair, pois a bala passou de raspão. Mas a sensação de impotência diante da necessidade básica de auto-preservação me deixava exasperado. Foi como um soco de um pugilista, o chão para mim era o tablado vazio, as arquibancadas desertas, a brisa nua entrando pela porta entreaberta. Meu agressor já se evadira, absolutamente seguro de ter dado cabo de minha vida. Ainda cambaleando, tateei o chão, sentindo o cheiro do nada que parecia despencar sobre mim.Procurei minha amiga Mariko, que tinha sido arrebatada naquele momento tão doloroso e, inadvertidamente, vi-a equilibrando-se sobre a ponte, no alto, bem perto do teto do ginásio. Não houve tempo de pensar como tinha chegado ali. Alguem movimentava a ponte. Vi seu olhar angustiado em minha direção e um sopro de voz me dizendo para me abaixar, quando ela caiu. Alguem, intencionalmente, a jogara do alto. Gritei desesperado e corri para, numa tentativa patética, amparar seus 54 quilos, mas nao consegui. Ela chocou-se violentamente com o chão, mas algo terrível ainda estava para acontecer.
Enquanto eu corria para socorrê-la, veio uma tampa de ferro, bem do alto, e a atingiu em cheio no pescoço, separando sua cabeça morena do restante do corpo. Horrizado corri para ela, tomei-a nos braços, ainda pude vislumbrar um meio sorriso, e ela tombou inerte.
Seu corpo ainda quente jazia nos meus braços. Nossos agressores tinham sumido. Havia um silêncio mortal. Uma espécie de vácuo. O ar nao se movimentava. Eu temia respirar e ferir minha amiga, que no entanto jazia morta nos meus braços impotentes. Deixei que as lágrimas acorressem, e num lapso de memória, vi os muitos momentos de alegria que desfrutamos juntos, agora interrompidos por um ato vil e covarde.
Não sei quanto tempo fiquei ali, com o coração em frangalhos. Sei que minha alma queria se apegar aquele corpo, fazê-lo meu, parte de mim, devolver-lhe a vida, torná-lo pensante, forte e pulsante. Mas fugiram de mim as forças. Novamente as coisas dançavam ao meu redor. Então desmaiei.
 
 
 
Powered By HqaD

2005-11-14

Make me fall in love







 
I know you hide yourself behind the square, since I ever think I'm locked in my cave. I don't care to catch your eyes, or to smell you neck, or to taste your lips. What is the color of your words, the weight of your breasts, the dimension of your love.
It's sad to know your name do not exist, where are you coming from, what kind of love you have to give me.
I know Powered By Qumana

2005-11-06

No escuro da noite

A penumbra que envolve o meu latifúndio me traz a angústia da solidão voluntária que abracei há dois anos. Confesso que me escondi durante esse tempo todo, fugindo aos meus amigos, que antes fugiram de mim, tornando-me invisível aos meus filhos que tão ostensivamente me ignoraram, resvalando-me nas mulheres que tão diligentemente tentaram me demover dessa obcecada loucura. Admito, por fim, que a clausura em que me encontro, vim a ela com meus próprios pés. A chave não sei onde perdi. Por isso eu sei que nenhum remorso eu tenho direito de sentir, nenhuma compaixão eu posso manifestar, pois escolhi este caminho doloroso para purgar as minhas culpas de não ter vivido. É de minha total responsabilidade a falta de interesse pela vida, quando o meu dia é atravessado na morosidade de quem espera. Logo amanhecerá o dia e nada será conclusivo, e isso me interessa sobremaneira. No chuveiro eu acho graça. Gerencio duas empresas, não instalo sistemas de rede. E hoje eu deveria estar aprendendo a instalar sistemas de gerenciamento de redes de uma grande empresa estatal, para onde estou destinado a ir na próxima semana. São Luís e Carajás. Maranhão e Pará. São os desafios do meu cotidiano. Mas há algo muito mais importante que eu deveria estar aprendendo: amar novamente. Perdi a consciência do que é o amor, e sou eu mesmo que por tantas vezes, em quantas linhas e inúmeros versos enalteci esse câncer maligno que se chama amor, que consome docemente cada ser humano, levando-o a morrer mil vezes. Há tempos eu não morro assim. A minha imortalidade decorre da falta de amor. Há quem mereça. As pessoas especiais que me cercam todos os dias, as que se movem ao meu redor com interesses tão claros como a luz do dia, as almas puras que expurgam a morte das minhas veias... mas não posso amar cada uma delas, ou as mataria também. Há muita vida lá fora. Minha cidade apaixonante, minha Belo Horizonte querida, por ela eu deixei tudo, para viver um amor imortal, esse sim. Nos últimos vinte e sete anos eu amei Belo Horizonte, mesmo deixando-a tantas vezes. Envelheci aqui nesta cidade. Amadureci o meu intelecto, enterrando na cidade os meus sonhos pacifistas, as lideranças estudantis, a inteligência inata, a vontade de saber sempre mais. Em alguns momentos eu persegui um amor. Mas se dissolveu. Parte em Londres, parte em Pará de Minas, parte em Belo Horizonte, parte em algum lugar da terra, sem jamais se concretizar como aquele amor definitivo e louco que nos fazem, homens, meninos imberbes. Acho q o vinho já me sobe pela cabeça. Minhas palavras tendem a sairem aos borbotões, como o sangue quente de uma veia partida, derramando vida sobre a terra inerte. Desta vez, inerte é o silêncio que me envolve. Nem as sombras do meu passado me visitam. Por isso não me incomodam mais. A incerteza do futuro é a mesma que sempre dormiu comigo. Mas o presente insosso é algo inusitado e terrível. Amanhã serei novamente eu. Assistirei ao meu programa preferido na televisão, às oito horas da manhã de domingo, e me prepararei para me encher de conhecimentos que nao sei se algum dia usarei. Não lamento a sorte, pois fui dotado de uma sede angustiante de conhecer coisas.Por isso sou cada dia menos eu, viajando por galáxias nebulosas, de ar rarefeito, sem atmosfera, até. Não me conheço. Não sou mesmo esse velho rabugento que se esconde atrás da tecnologia. Sou um menino que sonha em correr na chuva, beijar a primeira namorada, escrever um tolo poema de amor e continuar viajando, viajando. Talvez eu amanheça morto, hoje. Mas não creio nisso, pois o meu chamado nao é para a morte. E ninguém sabe mais sobre isso do que eu mesmo. Ningueém entende isso mais do que eu entendo. Às vezes me sinto fugindo para Nínive, quando a minha redenção está em Társis. Ou então estou realmente louco.

2005-11-02

Mimosa Live !



Dia de finados. É uma utopia dizer que meus mortos me trazem saudades, pois não os tenho. À exceção de meus antigos correligionários, poetas, planos, sucessos e dores, tudo continua vivo, e isso eu posso sentir nas minhas veias que ainda transportam a inquietude de minha alma, como se fosse um moto contínuo. Em alguns dias, menos do que eu espero, há de cessar essa atividade febril. Mas enquanto isso, ainda realizarei grandes feitos, se não para mim mesmo, mas para uma parcela da humanidade que me assiste, me ouve, me lê e me detesta.
Morreu o passado. Nele habitava Mimosa, a vaca malhada. Não consegui um retrato melhor do que este. Era um sonho de profissão, a zootecnia como opção, a agricultura como paixão, a agronomia como libação. E em sonhos psicodélicos que alvoroçavam a mente de um adolescente irrequieto, Mimosa era a personificação do esquisito, do inalcançável, do irreal, do imaginário e do maluco, tudo isso que fazia parte do meu dia a dia. Foi tema de alguns poemas sanguíneos e lúdicos.
Hoje então me lembrei, quando sozinho no meu latifúndio, precisei extrapolar os meus limites de sanidade para reviver aquilo que faz parte de mim.