
Quando recebi aquele tiro, vi que o ginásio rodopiava ao meu lado. Eu não conseguia divisar. As luzes continuavam firmes, como para registrar o quadro grotesco que se assenhorava de nós naquele momento. Não cheguei a cair, pois a bala passou de raspão. Mas a sensação de impotência diante da necessidade básica de auto-preservação me deixava exasperado. Foi como um soco de um pugilista, o chão para mim era o tablado vazio, as arquibancadas desertas, a brisa nua entrando pela porta entreaberta. Meu agressor já se evadira, absolutamente seguro de ter dado cabo de minha vida. Ainda cambaleando, tateei o chão, sentindo o cheiro do nada que parecia despencar sobre mim.Procurei minha amiga Mariko, que tinha sido arrebatada naquele momento tão doloroso e, inadvertidamente, vi-a equilibrando-se sobre a ponte, no alto, bem perto do teto do ginásio. Não houve tempo de pensar como tinha chegado ali. Alguem movimentava a ponte. Vi seu olhar angustiado em minha direção e um sopro de voz me dizendo para me abaixar, quando ela caiu. Alguem, intencionalmente, a jogara do alto. Gritei desesperado e corri para, numa tentativa patética, amparar seus 54 quilos, mas nao consegui. Ela chocou-se violentamente com o chão, mas algo terrível ainda estava para acontecer.
Enquanto eu corria para socorrê-la, veio uma tampa de ferro, bem do alto, e a atingiu em cheio no pescoço, separando sua cabeça morena do restante do corpo. Horrizado corri para ela, tomei-a nos braços, ainda pude vislumbrar um meio sorriso, e ela tombou inerte.
Seu corpo ainda quente jazia nos meus braços. Nossos agressores tinham sumido. Havia um silêncio mortal. Uma espécie de vácuo. O ar nao se movimentava. Eu temia respirar e ferir minha amiga, que no entanto jazia morta nos meus braços impotentes. Deixei que as lágrimas acorressem, e num lapso de memória, vi os muitos momentos de alegria que desfrutamos juntos, agora interrompidos por um ato vil e covarde.
Não sei quanto tempo fiquei ali, com o coração em frangalhos. Sei que minha alma queria se apegar aquele corpo, fazê-lo meu, parte de mim, devolver-lhe a vida, torná-lo pensante, forte e pulsante. Mas fugiram de mim as forças. Novamente as coisas dançavam ao meu redor. Então desmaiei.
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