2006-04-08

Ecos do Silencio

Ecoa no meu silencio a voz retumbante de minha vida, em suspenso. Diante do espelho de minha experiencia, a tolerancia comeca a se esvair e uma apreensão doentia toma posse de mim. Quero respirar novamente, mas nao posso. As paredes que me cercam, e a cada instante me apertam..

Transição

Minha mente embotada, os sentidos lassos, as veias palpitando de expectativa. Existe um universo a descobrir, e é totalmente novo. Os renovos da minha ansiedade se transmutam em doces reminiscências, quando tolas circunstâncias vem tirar a minha alegria. Mas não há tristeza que subjugue todas as conquistas de então, quando a vida se desabrocha como uma rosa verdadeira, inundando todos os dias com seu perfume sutil e duradouro, como o sol que agora brilha tão intensamente que é impossível que não seja notado.

2006-03-30

Quem és

Quem és tu. fantasma taciturno

Que à noite não me deixa dormir

Infligindo dores que não quero sentir

Despreparando-me para o labor diurno?

 

Quem és tu, fantasma invisível

Cuja cama ao meu lado parece vazia

Me atormentas com tamanha agonia

Com o teu arrastar constante e terrível?

 

Quem és tu, figura intrigante

Que me perturbas de forma constante

Fazendo-me desejar a luz do dia?

 

Quem és tu que à noite me assaltas

Roubando-me o sono, lembrando minhas faltas

Tirando-me a esperança que eu ainda sentia?

 

Na Rodoviaria


O homem baixinho e vermelho, usando um chapéu preto de sofisticado mau gosto, exibe sua barriga já um tanto flácida. A mulher da limpeza se detém para conversar, numa atitude tipicamente brasileira, com o pai de um menino que a todo instante atira seu carrinho longe, obrigado o pai a servi-lo como um escravo. Certamente a mulher estará dizendo que criança é assim mesmo.
Mulheres de seios fartos, todas desprovidas de qualquer tipo de beleza (talvez tenham a interior, mas não estou vendo), desfilam numa coreografia estranha, enquanto um homem mastiga um sanduíche que acabou de retirar de um saquinho de papel, usando os parcos dentes que ainda lhe restam. Uma mulher passou por mim, olhando-me nos olhos como as mulheres olham. Outro homem abre seu descomunal pacote de biscoitos voadores. Espero sinceramente que não seja ele meu vizinho de poltrona no ônibus.
Enquanto escrevo, meu estômago dá reviravoltas mirabolantes, fazendo-me enjoar. Coitado do meu futuro vizinho de poltrona. Dois policiais exibem seus glúteos diante da multidão. Um rapaz louco de bermudão laranja saca de repente seu sanduíche de pão francês. A mulher magra de seios grandes passa apressada e logo depois volta correndo com um bilhete de passagem na mão.
Então de repente a surpresa: aparece a primeira mulher bonita de Campinas. Com o namorado.
Minhas pernas agora tremem, não me sustentando,a doença me consumindo desde que cheguei a esta cidade, e parece querer acabar comigo quando me despeço dela. Mas estou sentado, mesmo assim a sensação é horrível. Quero regurgitar (gostei desta palavra, não é mais bonita que vomitar?). Pelo menos me consolo lembrando que não comi nada, já faz dois dias. Madonna solta sua voz no alto-falante da rodoviária
 
Uma mulher gorda e enorme, de cabelos de fogo, carregando uma bolsa também assustadora, entra faminta na lanchonete. O velho do sanduíche conta suas moedas e logo vai comprar um outro pacote de biscoitos. Ele veste um blusão exótico, estampado, um pouco inadequado para o calor que faz aqui. Imagino-me uma Karen Carpenter, guardadas as devidas proporções, vendo tanta gente comendo tanto. Duas adolescentes gordas de seios grandes passam com o seu papai gordo, cujos seios flácidos (do papai) se evidenciam sob a blusa. Param diante do balcão de vidro de uma das lanchonetes e se empanturravam de delícias. Nisso passa um homem apressado, vestindo-se a rigor, parecido com o George Clooney. Olha para mim, doce e significativamente. É campinense, pensei. Neste momento a minha cabeça gira, estou a ponto de desmaiar, mas reuno as forças para não fazê-lo, pois desmaiar em Campinas é uma evidência indiscutível de que se provou a água do lugar, contra o que fui previamente advertido. A cena corriqueira de sorver em goles prazeirosos uma coca cola me trazem ânsias de vômito, e não estou grávido.
A loura feia que estava à minha frente agora se levanta e vem se sentar ao meu lado. Parece-me triste, solitária e sonolenta. Mas é um ledo engano. A loura continua triste, solitária e sonolenta, mas quem está ao meu lado é uma nissei, que logo se levanta (devo ser um tipo sem graça e desinteressante), desaparecendo como por encanto.
Uma velhinha com a cara da Sabrina, minha distraída enfermeira da Bosch, passou rapidamente. Quis agradecer pela brilhante frase com que ela me consolou : "O senhor precisa de um médico!". Se ela não tivesse dito, eu jamais pensaria nisso.
Continua o desfile de figuras abstratas diante dos meus olhos. Uma velha magérrima, vestida totalmente, até onde os meus olhos conseguem divisar, de preto, arrasta o seu marido (cujo nome deve ser Montgomery Adams). Sabrina vai à lanchonete. A loura dorme. Vem então uma moça bonita de olhos negros e profundos. Nas cadeiras à minha frente, um rapazinho veste touca e jaleco de malha. Ao seu lado um gigante careca conversa animadamente com outro rapaz magro e dark. A loura acordou e està me olhando como as mulheres olham. Agora dormiu de novo.
Uma velhinha elegante se assenta ao meu lado. À sua frente se instala um casal ostensivamente em pé, cercando-a de mimos, tipo : "quer um docinho, um refrigerante, água, café, biscoito, revista, almofada, cobertor"?. Todos com o indefectável sotaque campinense, o "r" vibrante. Nunca mais vi Sabrina, minha enfermeira. Vem então uma mulher totalmente vestida de azul calcinha,cujo rosto parece uma máscara de carnaval, destas que se encontram em lojas de doces de Belo Horizonte. Um homem com um cigarro aceso entre os dedos me pede dinheiro para um lanche. Ignoro-o totalmente. Um rapaz veste uma camisa de futebol. Até aí tudo normal. Mas estão estampadas duas palavras totalmente fora de época : Excel e Econômico, dois bancos definitavamente falidos. Triste tendência deste jovem.
Volta a mulher com carranca de carnaval. A loura dorme. Uma meninha grita atrás de mim. Sou louco com menininhas, sem qualquer tendência para a pedofilia. Olho pra trás e ela está fazendo gato e sapato de sua enorme mãe.
Estou delirando agora, de tanta dor. Apanho minha bolsa pesadíssima e deixo-a no guarda-volumes. Vou ao banheiro e lá encontro algo inusitado. Na porta da privada, no lado interno, está escrito em letras garrafais um anúncio de oferta de préstimos homossexuais bilingues, com telefone e tudo.
Volto ao saguão de espera. O meu antigo lugar foi usurpado. Vou para os fundos. De longe vejo a loura sonolenta. Cai uma chuva torrencial em Campinas. Meus companheiros de curso na Bosch são capazes de jurar que estou indo de avião, e podem estar agora preocupados comigo. Mas estou indo de ônibus, se sobreviver até lá, e com isso eu é que me preocupo. Falta uma hora exatamente para a minha partida de ônibus ou avião, se não partir desse mundo antes.

Mulher Campinense

Mulher campinense de fartos seios
Que passa apressada não sei para onde
Vem de um lugar, do que se esconde?
Não vim para tais devaneios
 
Mulher campinense de glúteos poucos
Me ignora completamente, sou desconhecido
Se não acredita, não estou sendo sentido
E não me classifica como aos loucos
 

Mulher campinense, toda diferente
Daquilo que poderia ser atraente
Para um mineiro doente de passagem
 
Mulher campineira deselegante
Talvez quisesse parecer interessante
Sou uma nuvem, pareço uma miragem

Porta do Adeus


Como recordarei de ti, Campinas
Se meus gestos senis me impediram
Se meus olhos cansados não viram
Todo o encanto das tuas esquinas?
 
Eu aqui na Júlio de Mesquita
Vendo-te despertar para a vida
Meu peito dói, é uma dor renhida
Nada que a contemplação suscita
 
Pessoas indiferentes passam, frenéticas
Vejo o pulsar de tuas veias, elétricas
Não vejo saudades que eu possa levar
 
E o caos da minha vida se avolumando
A energia do meu corpo desmoronando
Longe de ti, Campinas, quero estar

Por acaso

Campinas me assusta, bela cidade
De avenidas largas e becos estreitos
Corredores vicinais, todos perfeitos
Palco de recente e trágica realidade
 
Os campinenses te odeiam, te amam
Como eu poderia te amar, se me dói
N¿o somente esta doença que me corrói
Mas por minhas entranhas que clamam?
 
Pareço morrer quando aporto em ti
E estou sofrendo esta dor bem aqui
Nem mesmo tu poderias diagnosticar
 
Campinas, cidade minha por acaso
Poderias estender o meu prazo
E matar-me depois? Quero ainda amar!

Destino

Por que me tolhes, destino sagaz
De respirar normalmente meu ar sem dor
De acertar simplesmente, viver o amor
Sem a tal angústia que você me traz?
 
Por que me prendes neste quarto de hotel
Se a vida fora de mim parece tão doce
Pessoas vivem intensamente como se fosse
Tão delicioso viver, um pedaço do céu?
 
Por que me procuras, morte sombria
Despejando sobre mim esperança tardia
De então viajar sendo o que eu sou?
 
Por que me deixas, vida insolente
Me transformas, sou algo, não gente
Tão ignorante, pra onde eu vou?

Ar Campinense


Tenho os movimentos lassos, incertos
De um bêbado que enfim reconheceu
Quem é, o que fez, o que perdeu
Tantas verdades guardou e prazeres certos
 
Minha bebida é o ar de Campinas
Que nesta manhã despertou calada
Ignorando-me totalmente, não sou nada
O que és, cidade, que não me ensinas?
 
Sorvo em goles curtos a água destilada
Com sabor de maçã nada gelada
Com isso eu conto para me levantar
 
Mas por que me prostras ante tua grandeza
Se nem consigo apreciar tua beleza
Que escondes, como se quisesses me matar?

Don't love me

Dont take me anymore, darling
If you forgot I alive
Can I live so if I dive
Anytime, anywhere in anything
 
Don't remember me, honnie
When I am sad and dying
And my heart is always crying
If my sun is not so sunny
 
Don't love me, little one
I'm the worst man God has done
And my kisses brought you death
 
Leave me alone, my baby child
I have my own destiny to be wild
It shall never change neither the faith

Meu pai

Meu pai, 
Que de coragem e bravura fez sua história 
Em sua terra desconhecida 
Hostil e inglória 
Onde com o teu suor de menino 
Ganhaste a gleba que te hل de cobrir 
Sou com tu, pai 

Meu pai, 
Que começo a perder na distância 
Homem bonito que sempre se estimou assim 
Impondo o respeito com teu jeito manso 
Espalhando o medo com tuas maneiras duras 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Cujo coração abriga amores 
Poemas e cantigas que jamais morrerمão 
Cujos segredos continuarمo insondáveis 
Cuja alma permanecerá boa como sempre 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Lembro-me de como me soltaste no mundo 
Impْúbere garoto com um longo destino 
Choraste a minha ausência quando viste 
Que apesar de tudo eu era teu filho 
Me amavas então, mas de mim abriste mão 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Cujo sangue espanhol fervilha 
Em maneiras ora rudes ora delicadas 
Incapaz de odiar teus raros inimigos 
Apto para amar teus numerosos amigos 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Teimoso com as tuas dores internas 
Mestre em esconder teus sentimentos 
Sensível à beleza, amante da natureza 
Homem intrépido, sempre comedido 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Meu grande herَói polivalente 
Cuja cultura não se aprende em livros 
Cuja lisura não está nos compêndios 
Pai, mineiro discreto e calado 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
De grandes e carinhosas mãos
Cujo nariz enorme sempre atento 
Pai, de proporçُões sempre máximas 
Fizeste tua gente delirar por ti 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Nمo me deixes agora, ainda é cedo 
Ainda não pudemos ser confidentes 
Pois guardas teus segredos como eu 
Que guardo meus segredos
Pois eu sou como tu, pai.

30 Minutos

 
Meu corpo agora dolorido
Pela noite insone que passei
Ou pelas atitudes que tomei
Me debilitam nesse peso sofrido
 
Faltam trinta minutos para a viagem
Estou zonzo, o mundo girando
Sou impelido, agora me assustando
Temo nمo apreciar a paisagem
 
Mas que paisagem que poderei ver
Se a dor interna insiste em doer
Nem faço idéia de como parar
 
Entمo espero que chegue o carro
Minha pequena afliçمo eu narro
Esperando poder um dia voltar.
 

2006-03-29

Viagem

 
Tenho os movimentos lassos, incertos
De um bêbado que enfim reconheceu
Quem é, o que fez, o que perdeu
Tantas verdades guardou e prazeres certos
 
Minha bebida é o ar de Campinas
Que nesta manhã despertou calada
Ignorando-me totalmente, não sou nada
O que és, cidade, que não me ensinas?
 
Sorvo em goles curtos a água destilada
Com sabor de maçã, nada gelada
Com isso eu conto para me levantar
 
Mas por que me prostras ante tua grandeza
Se nem consigo apreciar tua beleza
Que escondes, como se quisesses me matar?
 

2006-03-28

Corre nas veias

Corre nas minhas veias A essência do teu mundo Que vejo através da vidraça Delicada do teu corpo moreno Sinto o cheiro adocicado De tuas coxas qye me tomam Num abraço definitivo Para nunca mais esquecer Beijo o teu seio sedoso E na carícia que me sufoca Sou muito mais do que sou És mais do que eu merecia Sorvo em pequenos goles As delícias da tua boca Que se abre morna e feliz Para então novamente se fechar Então me deixo quedar No gozo pleno de ser teu Em afagos me desfazendo Enquanto o paraíso é aqui Como eu te amo, menina Ainda que somente eu veja Tua sombra na minha sala Para sempre me lembrarei de ti

2006-02-18

Ainda Nao

 
Ainda que quiseste afogar a minha voz no limbo do esquecimento, tornando-me mera reminiscência no universo das loucuras e paixões, eu sobrevivi em meio a esse caos imortal. Não foi meu mérito, a bem da verdade, e nada eu fiz sozinho, além de remar com palavras conhecidas no marasmo da incompreensão, a tortura da minha angústia recrudesceu, tornando-me seu paladino e bandido.
Quem me levantou pela mão foi um tipo de anjo de Deus, com longas madeixas morenas estendendo seu charme sobre esse moribundo coração e, embora residente em longínquas plagas, realizou o milagre de me tornar mais perto e mais íntimo, a ponto de confundir seus sonhos com os meus, seus desejos caminhando junto aos meus, para numa dimentão especial, num tempo abreviado pela urgência, estaremos assim, misturando nossa essência.
Quem desejará me procurar depois desse tempo em que tombei ante os muitos achaques gulliverianos? Não me encontrará, pois encontrei meu caminho, e ele me leva a terras distantes.
Nessas terras frias onde o amor acontece sob edredons pesados, ora em praças apinhadas de história onde o sol brilha intensamente anunciando novos horizontes, ali está a minha vida, incerta e desejada, planejada e estranha, mas com uma dose extrema de esperança.
E você, que me acena à distância, pode ter meu sangue ou não, pode ter recebido de mim a atenção parca de que eu dispunha, pode ter me criticado com o desprendimento dos críticos que, eles e somente eles, entendem a minha amargura. Que agora eu mantenho submersa no oceano da paixão que dura para sempre.
 
 
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2006-02-11

Universe of Mine

 
My universe has grown to sky
For me, I thought I was died
But I understood: she is my wife
In a big hope became my life
Through in a future that I do
Living this in the present, too
And the stars shines on me
Like the only one I used to see
And now my steps is toward
The one I love, the old coward
I ever forget, my ghosts have gone
If I get to be happy, it's done
Spread the wings, my dream
And appreciate my best scene
I'm just a silly man, falling in love
No matter what there is a curve
I must to cross to take the skin
The woman I love, she have seen
 
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2006-02-05

Ole !!!!

 
Naquela tarde eu saía mais cedo da escola. Minha última aula de Língua Inglesa foi às 15:00h. Meus alunos estavam sonolentos, pois o calor era insuportável. Quando soou o sinal do fim da aula, foi um alívio para todos, inclusive para mim. Cansado, deprimido, meu estado era o normal de um homem que foi desprezado por uma mulher, e pensando nisso eu caminhava sob o sol escaldante. Deixara o carro em casa, pois morava bem perto dali.
Devo ter passado por alguém conhecido, mas estava tão absorto nos meus pensamentos e tão entregue aos meus fantasmas que não devo ter cumprimentado ninguém. Aliás, eu não via nada à minha frente, parecia flutuar em uma dimensão diferente do restante do mundo. Mas vi quando um caminhão passou por mim, descendo a rua.
Transportava gado. Era uma cena comum na cidade, visto que a economia básica ali era justamente a pecuária. Ser professor não me rendia nada comparado ao que eu teria se fosse pecuarista naquele lugar quente e pasmacento.
O caminhão passou por mim, e andava devagar. Notei, porém, um detalhe aterrador. Além das poucas reses havia madeira no caminhão. Claro que uma coisa não combinava com a outra. Somente um louco faria algo assim. E, para o meu espanto, a porteirinha traseira do caminhão se abriu quando o mesmo passou num buraco na pista e a madeira derrapou em direção às patas das vacas. Duas delas saltaram, desajeitadas, e correram em minha direção.
Fiquei estarrecido. Normalmente não tenho medo de vacas, mas aquelas ali estavam assustadas, e seriam capazes de tudo. Olhei em volta, não havia onde me abrigar. Atrás de mim havia um poste de luz, foi onde me refugiei, o mais rápido que pude. Uma das vacas estacou, confusa, e desceu a rua. A outra continuou subindo, firme, e passou por mim bufando e apavorada.
Suspirei de alívio, protegido pelo poste, e olhei para onde a vaca se dirigia. Foi então que eu vi.
A poucos passos de mim vinha uma moça alta, morena, bonita, elegante e perigosamente distraída. Não viu o movimento da rua, nem a vaca que ia em sua direção. Quando gritei, já era tarde demais. A novilha (esclareço que era uma novilha, não uma vaca, que me perdoem os leitores) atingiu a moça em cheio, no estômago, e continuou sua desabalada carreira.
Sem pensar direito, corri para a moça, que tombava para trás, desmaiada. Consegui segurá-la nos braços, antes que caísse no chão. Olhei, não havia sinal de lesões. Por sorte a novilha era mocha (pra quem não sabe, sem chifres).
A moça (não a mocha) desmaiada nos meus braços, começava a pesar. Ainda tive tempo de observá-la. Era realmente muito bonita, os lábios bem desenhados, os cabelos caindo como cascatas negras, a pele bem cuidada, um perfume estonteante. Tomei-a nos braços. Não havia mais ninguém na rua. Procurei um lugar para abrigá-la, todas as portas fechadas. A primeira casa que vi, gritei de fora. Ninguém me atendeu. Insisti (a moça já pesava em meus braços, apesar de sua delicadeza). A porta marrom da casa em questão se abriu lentamente, uma cabecinha enrolada num lenço assomou, assustada.
- Rápido, senhora, me dê abrigo. Esta moça sofreu um acidente ! - gritei
A dona, esbaforida, bateu a porta na minha cara, para logo depois abri-la de novo, desta vez acompanhada de uma menina de doze anos, ambas assustadas. Mas franquearam a casa pra mim e meu precioso fardo.
Entrei numa sala mal iluminada, àquela hora do dia. Demorou um pouco para que eu me acostumasse. Depositei minha carga na poltrona mais próxima. No sofá maior havia uma anciã deitada com dois gatos. Com um aceno de cabeça a dona da casa me instruiu a retirar dali a velha senhora, o que fiz prontamente. Carreguei-a nos braços e levei-a a um quartinho nos fundos, que me foi indicado. Expulsei os gatos e os pelos que deixaram (eram muitos) e ali acomodei a moça bonita e desmaiada.
Ajeito as almofadas, ainda impregnadas de pelos de gatos, mas não tenho escolha.
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2006-02-03

Cadeira Cabeluda

Todas as noites vem a rainha
Com seu andar cadenciado
Fazendo voltas na minha cabeça
Eu querendo que seja minha
Embora um tanto apressado
Antes que eu proprio enlouqueça

A cadeira cabeluda aguarda, fria
Que a carne macia a toque
Aquecendo-a como se fora eu
Isso me traz tamanha agonia
Pois eu cá, ouvindo meu rock
Um momento somente meu

Coberta a cadeira, vem a beleza
De cujo rosto me encanto
Fazendo-me tolo e criança
A ela me rendo, a realeza
E para meu proprio espanto
Sou a própria esperança


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2006-01-23

Amor

 
Para quem nao sabe o que é o amor
Este amigo imperdoável que de tão sincero
Incomoda, nos deixa perplexos, e eu quero
Senti-lo de todas as maneiras, como for
 
É respirar um ar diferente
Sentir que a vida continua
Deliciar-se com a expectação nua
De que existe algo bom lá na frente
 
É catalogar todas as emoções que sentimos
Compará-las, e isso é certo
Pois ainda que não esteja perto
Por este amor descemos e subimos
 
Mas mantemos a calma, afinal
Pois se desejamos todo o tesouro
Que pra nós reluz mais do que ouro
Entendemos que este seja o sinal
 
 
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Filha do Meio

 
Não somente és a filha do meio
Que eu trouxe ao mundo em anseio
De não ser perfeito como devia
Mas isso você não entendia
Era apenas uma linda criança
Meiga e frágil, doce esperança
Então eu a vi crescendo
Aos poucos me esquecendo
Gerando em seu coração rancor
Mas ora, isso nao substitui o amor
Com que eu a amo eternamente
Por ele quantas eu tolamente
Chorei meu solitário pranto
Para não perder seu encanto
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Caçula

 
Não me queixo de você pois sei
Que você é fruto do que lhe dei
E se me relega ao silêncio doloroso
E seu conceito de um pai zeloso
Não corresponde em nada comigo
E mesmo que eu tente ser seu amigo
Encontro tão estranhas barreiras
São as suas peculiares maneiras
De ver as coisas, mesmo que não
Sejam de dentro do seu coração
Não me permito esquecer de você
Minha filha querida agora a crescer
Tornando-se uma encantadora mulher
Sou seu pai, se isso é o que voce quer
 
 
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Tormento

 
Vem meu filho, ausentar-se de mim
Quando meu prazer se tornou em tormento
Se por apenas um momento
Voce não pode ser como eu, assim
E tendo desprezado quem te amou
Abraçando a sua causa pessoal
Nem imagina tão grande mal
Que no meu coração você causou
Mas eu não tenho direito de odiá-lo
E continuo amando-o sem razão
Apesar de tudo o que eu falo
Você é o filho do meu coração
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2006-01-21

Circus - Zero Por Cento

Peça Teatral em Cinco Atos
 
 Personagens :
  1. Araujo - um cara ja sem paciencia
  • Funcao : gerente adiministrativo e financeiro, na carteira
  • Na prática : testa de ferro, laranja, bombril, resolvedor de pepinos, descascador de abacaxis, ouvinte de baboseiras
  1. Antonio - primo do dono, filho de casal de primos, louco de jogar pedra.
  • Função : projetista/orçamentista
  • Na prática : puxa-saco, pitaqueiro, intrometido, primo, doido

Ato 1:
Antonio chega, revirando os olhos, na sala de Araujo e já vai falando, sem ser autorizado:
- Araujo, você é o máximo. Adoro você. Gerente igual você tá pra surgir. Sua competência me assusta. Deixa eu te falar : tou fechando uma proposta de fornecimento pra Bolívia e quero saber de você qual a carga tributária da proposta.
- Tá
- Quando você vai me informar ?
- Agora. Alíquota ZERO pra tudo.
- Só isso, nao tem mais nada ?
- Zero.
- Tá bom

Ato 2 :
Tres dias depois, Araujo reenvia para o Antonio um email do Departamento Contábil confirmando a informação sobre o ZERO PORCENTO de imposto em que se diz:

"Caro Araujo,
           Conforme nossos entendimentos, confirmo a informação sobre a tributação das vendas efetuadas para a Bolivia. Aliquota ZERO. Favor verificar possibilidade de contratar consultoria especializada em exportação.
           Abraços,

           Marcos
 "

Ato 3 :
Antonio recebe o email e devolve ao Araujo dizendo :
- Se a alíquota é ZERO, qual o índice que vou informar na minha proposta ?
Não há resposta do Araujo, por motivos óbvios


Ato 4 :
30 dias depois, véspera de férias, Araujo está reunido com a área financeira e compras. Antonio chega, com o olhar vidrado e solta sem mais nem menos:
- Araujo, sobre a tributação de vendas pra Bolívia, você falou que é ZERO?
- Falei
- Então, como vou dar desconto na proposta se a aliquota é ZERO?
- Simples. Não dê desconto. Informe somente o valor real.
- Mas não posso, tenho que ter dois valores, com e sem impostos
- Negocie de outra forma, SOMENTE COM O VALOR NORMAL
- Quanto que vou aplicar ?
- Aplicar o que ?
- Imposto, uai
- Zero, Antonio, ZE-ZE-RO-RO
- Voce nao ta me entendendo
- Vc tambem nao
- Ta bom

Ato 5
Antonio sai da sala do financeiro e vai pra sua propria mesa. De lá, liga pro dono da firma, em curso em São Paulo:
- Ze Carlos, sabe aquela proposta da Bolívia ? Pois é, tenho que informar ao cliente os impostos que incidem sobre a venda e  O ARAUJO NÃO SABE. Nao, o CONTADOR TAMBEM NAO SABE.

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Sabado 21

Delicioso é pensar em como vivemos, quando mesmo sabemos o que vamos ver, vamos ter. O mundo girando em torno de si, em torno do sol, e nas voltas do destino, nosso destino vai sendo traçado. Será o Oráculo de Deus a instruir todas as coisas? Será um Noé contemporâneo construindo uma nova arca em que duas pessoas escapam do nonsense, das rotulações, do corriqueiro, do perfeitamente normal, se amamos ou se apenas somos amados, ou se amamos e não somos amados. Cada passo que se dá é um desafio, excitante e desconhecido como tem que ser, e nossas mentes se preparam, se formam, se armam para a grande batalha, o dia-a-dia em que aprendemos a ser nós mesmos, ainda que com as limitações pertinentes à nossa natureza.
Nossas vidas ora se dividem, ora são coesas e egoístas, mas sempre serão o nosso objetivo principal. Enquanto uns de nós, escrevendo nas páginas da história a história de suas vidas, outros simplesmente vivem sem pensar muito, cada um com seu percentual de erros e acertos.
Nisso está a grande sabedoria humana, de cada um ser quem quer ser.
Não falamos especificamente de quem quer que seja, mas falamos de nós mesmos, e a experiência metafísica nos ensinou que nada sabemos, e hoje ainda estamos na escola.
 
 
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2006-01-18

Inspiration

My eyes are droping a kind of tears
I can say nothing to kill the missing
You left to me tonight, along the time
I see you, but you don't hear me
I touch you, but you don't smell me
I love you, and I think you love me too
 
How many days I'll be stopped in this cave
Working to get the ticket
To ride toward your tanned arms
My heart is away, have you seen it?
 
Some words can be displayed meanwhile
I dream
But when I awake every morning
The flavor of your kiss is envolving me
In my bed there's someone
And the name of her is Loneliness
 
In a short piece of life, the time
Will surrender, and your head will be
Over my shoulders, listening to the music
The night plays for us
 
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O Resgate de Giselda - Parte 2

 
Giselda ligou pro Corpo de Bombeiros de Londres.
- Hi, people. It's me, Giselda, from Brazil. I am locked in my house. Please, help-me !
- Ok, Miss Gizele. We are going out. Don't move. We'll rescue you, soon.
- Thank you.
Por coincidência, dessas que acontecem em filmes, o sargento que recebeu o chamado é um fã incondicional de uma certa Gisele brasileira. Ligou os fatos : Gisele + Brazil = oba !!!. Berrou então ao seu destacamento, em inglês, obviamente :
- Temos um resgate a fazer neste momento, trata-se de uma brasileira. Deixem comigo que assumo pessoalmente o caso.
Enquanto isso, no Brasil, o namorado da Giselda entrara em contato com o Itamarati, que imediatamente acionou o consulado britânico no Brasil e o chanceler brasileiro em Londres. Num esforço conjunto inédito desde o atentado que vitimou um inocente no metrô londrino, os dois paises mobilizaram a policia federal britânica e, a pedido da rainha.
Sendo assim, dois dos melhores agentes da Scotland Yard foram designados para acompanhar o caso, com relatórios a cada quarto de hora, com cópia para o palácio de Buckingham.
 
Algum tempo depois, o sargento Jack, do corpo de bombeiros, irrompeu com seu destacamento na rua calma onde morava Giselda. Toda a vizinhança, se é que ficou alguém em casa naquela manhã, acorreu para verificar, bem à maneira inglesa, discretamente sem perder a pose.
O helicóptero da polícia despejou seus homens através de escadas flexiveis. Estes logo se posicionam estrategicamente. A Scotland Yard, com seus impecáveis agentes, trata de abordar o sargento Jack, que se mostra surpreso com tanta repercussão do caso. Caças começaram a sobrevoar o bairro, mantendo os olhos fixos no quarteirão onde se dera o fato.
 
A imprensa inglesa (leia-se tabloides sensacionalistas) logo acorreu, ávida de notícias. O julgamento de Saddam Hussei foi esquecido, o casamento de Elton John sequer foi mencionado, o frustrado sequestro do caçula de Tony Blair mereceu duas linhas, mas as unidades partiram pro local do evento, transmitindo ao vivo a operação de salvamento de Giselda. A BBC noticiou em edição extraordinária:
- Brazilian Gisele locked at house !
 
Nossa Giselda, sem saber do que despertara seu pequeno incidente doméstico, continuava procurando a chave em todos os lugares possíveis, e até nos impossíveis. Repassara centenas de vezes todos os acontecimentos da noite anterior, quando chegara do trabalho. Lembrava minuciosamente do que falara, com quem, em que momento. Se acreditasse em terapia da regressão estaria bem perto de ter feito uma regressão ao dia anterior, mas nada disso lhe valera encontrar a bendita chave. Já pensava seriamente em colocar uma cópia da mesma embaixo do capacho na porta, para o caso de esquecer ao chegar, mas ainda não pensara no que fazer numa situação como a atual. No açucareiro ? Não, todos na casa usavam adoçante. No armário do banheiro? Decididamente banheiro não era lugar de chave alguma. Por fim, exausta
 
Na verdade, é bom que se esclareça, todos os ingleses envolvidos estavam certos de que se travava de Gisele, aquela brasileira modelo que tinha pouco da nossa Giselda, esta sim, um ícone da beleza trigueira, cujos cabelos descendo em cascatas rebeldes e pousando suavemente sobre os ombros morenos. As duas tinham como único ponto em comum a nacionalidade.
 
Isto explicado, voltemos ao caso, antes que este narrador perca o fio da meada.
Em poucos instantes, os homens da operação salvamento estavam em toda parte. Os quarteirões foram fechados. Ninguém entrava ou saía sem ordens de Blair, o primeiro-ministro, não o chefe de polícia.
 
O sargento Jack, aquele do corpo de bombeiros, estava neste momento às turras com os dois agentes federais, cada um requisitando para si a jurisdição do caso.
- Trata-se de um incidente internacional - falava o Agente Bond, James Bond, muito nervoso, estranho para um inglês.
- Nada disso, meu chapa. Incidente local, habitante da cidade em apuros.
 
 
 
 
 
 
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2006-01-17

Crepusculo

 
É noite
Na vidraça turva a neve bate sem parar
São como gotas de algodão me assustando
Mais uma vez o céu cinzento se cobre de grossas nuvens negras.
Não faz sentido
Nada faz sentido
Estou assentado no chão, na sala
Ao meu lado o telefone destruído
pegadas de sangue em direção à cozinha
A música da rua vem romper a monotonia da nevasca
Não sei o que me atingiu
Não consigo ver nada direito
Meu corpo agora mergulha lentamente num torpor
Como se eu tivesse tomado algumas taças de vinho
Não há como chamar ninguém
Ninguém me ouvirá
As sombras me envolvem, mas não são as noturnas, pois ainda é dia
Tento mexer meus pés, nao consigo. Pesam toneladas
Uma sonolência incontrolável me assalta
Lembro de tudo o que passei na vida
Muita coisa valeu a pena
Outras coisas nao
Nao consigo mais pensar
Meus olhos se fechando
Vou perdendo a noção de profundidade
Não sou eu mais aqui
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2006-01-16

Prosaicus

 
Estava eu pensando, e pensando eu entendi que pra entender eu não precisava pensar. Não posso mudar as coisas como nasceram, não posso deixar de ser eu, o visionário imberbe que se aventura pelos recônditos mal-falados das paixões.
Para onde vou neste momento? Se eu soubesse dizer, na certa traçaria planos mirabolantes, estrategicamente perfeitos, e não vacilaria em palmilhar cada um dos caminhos diante de mim, como se fossem cabalmente verdadeiros.
Mas não. Minha vida está associada ao que é a minha emoção, e eu alimento esse egoísmo todos os dias.
Quem me amará nesses dias?. Decerto que sei a resposta.
Mas as respostas definitivas, que Deus escreveu para mim, oráculo de mim mesmo, vem a cada instante enrugando a minha pele no toque áspeo da realidade que eu vivo. Mas é também o sopro gélido nesse calor tropical de minha alma.
Tenho algumas palavras a dizer.
Mas as palavras são tão numerosas que acabarão em nonsense. Terei dito intermináveis monólogos sem no entanto definir o meu papel aqui nesta terra, onde a minha semente foi e ainda será lançada, gerando seres infinitamente parecidos comigo, tolos e fáceis.
Mas não sou tão fácil assim, me dirão alguns. A paixão que retorce o meu peito acontece uma vez só, e se apaga se ferida, então me atira ao limbo onde permaneço para sempre até ser resgatado.
Presentemente eu vivo, e isso é permanente. Vivo na memória daqueles  que por uma razão ou outra não parametrizaram a minha passagem com os nefastos vilões da história. Vivo na mibha concepção particular de que sou tão factível de ser feliz quanto qualquer outro, não importa qual bizarro seja o caminho que eu percorrer para isso, desde que eu mesmo não o considere bizarro.
Sinto um leve torpor que me inebria, trazendo-me o cheiro ocre londrino, saído de uma história antiga. Estou passeando pelas ruas sombrias, mas meu coração foi aclareado pelo despertar de um novo milênio, não aquele que rege todos os seres, mas a minha própria época.
Sou eu escrevendo as páginas do meu romance, em que sou protagonista, mas um perfeito coadjuvante, pois nada farei se ficar sozinho. Não garanto que saiam perfeitas, mas garanto a genuidade, a veracidade, a honestidade de minha vida.
Interessa a certas pessoas. A outras não. Não importa.
 
 
 
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2006-01-08

Princesas Julie e Emmy e a Goiabeira Real

Num reino muito distante chamado Mallaka, o Rei Charles partiu pra guerra. Precisava conquistar novos domínios, estabelecer riquezas e, mesmo que pesaroso de deixar a família real, seguiu o seu caminho. Ficaram as princesas Emmy e Julie com a rainha. Como toda criança daquele reino, tinham suas tarefas a cumprir, iam à escola, ajudavam à mamãe com os cuidados do palácio mas, quando tinham uma folga, corriam para a Goiabeira Real, o seu lugar preferido. Esta goiabeira real, contavam as lendas, tinha sido uma princesa lindíssima há muitos anos mas, por sua infelicidade, uma bruxa má, vinda do oriente, a transformara em uma goiabeira, tomando-lhe assim o objeto de seu amor.. Numa época em que as invejas e porfias eram uma praga naquele mundo, a inocência e a pureza das princesas Emmy e Julie sobrepujavam todo o mal que poderia existir na natureza humana. As princesas eram as melhores na escola aprendiam coisas novas, conheciam pessoas interessantes, se enchiam de ricos conhecimentos, mas guardavam no seu coração, com um grande tesouro, a imagem seu querido papai. Nos intervalos das batalhas, porém, o rei Charles as visitava, percorrendo com sua carruagem real e comitiva, uma grande distância . Ele sempre levava presentes para as suas princesas, mais o que mais as agradava era simplesmente a presença do rei. As princesas costumavam brincar no jardim no palácio e ali a Goiabeira Real, frondosa, majestosa, as acolhia com ternura e amor, protegendo-as e instruindo-as. Por muitos anos aquela árvore tinha visto reis, príncipes, princesas e rainhas, vitórias, conquistas e dores. Por iisso acumulava tanta sabedoria que podia ser considerada oráculo. Mas, por um capricho do destino, somente as princesas e suas amigas sa desfrutavam de tanta sabedoria daquela árvore milenar. Nas tardes reais as princesas brincavam ao redor da goiabeira, comiam de seus frutos vermelhos e suculentos, inventavam jogos e algazarras, até que chegasse a hora de voltarem ao palácio para fazerem os deveres de casa e dormirem.. Certo dia, as princesas Emmy e Julie foram surpreendidas quando chegaram ao seu lugar preferido. A goabeira jazia tombada no chão, morta. As princesas logo o chamaram a rainha, e esta determinou que os cientistas e agrônomos do Reino examinassem a árvore tombada. Começaram as lendas no reino. Teria sido um ataque alienígena? Algum animal da floresta encantada? Algum vilão misterioso? A bruxa malvada ? Os duendes maus ? Os monstros que atacavam criancinhas que nao gostavam de leite e verduras ? Mas, após exaustivos, porém minuciosos estudos, sábios e magos reais constataram que a Goiabeira Real havia morrido de velhice. Isto consternou profundamente as princesas. Como elas agora iriam se divertir?. A quem contariam os lúdicos segredos de sua infância, quem lhe ensinaria os profundos segredos do universo?. Quem lhes abriria as excitantes aventuras de todos os séculos?. Foi decretado feriado para as cerimônias fúnebres da árvore real. Os corneteiros, vestidos a rigor com seus bonés vermelhos adornados com correntinhas douradas, os guardas palacianos, o cortejo seguia pelas ruas douradas do palácio.

2006-01-05

O que sustenta o mundo

Mesmo com a visão embotada pelo cansaço da hora, os músculos lassos, uma parte de mim retesada e viva, o alvorecer bem perto, a chuva passou. Na minha vidraça a solidão não bate mais, assustando-me como se eu fora o último dos moradores da terra. Entao vejo aquilo que é meu interesse, e os meus sentidos se aguçam. Em taças homônimas, lutam para se libertarem, para serem vistos, tocados e sentidos. Mas são retidos, apertados, oprimidos, censurados, distanciados. Sou o seu libertador, mas nao os alcanço, pois meus braços são curtos e minha vontade crescente. Entre frustrado e infeliz, sou feliz , no entanto. Sem querer explicar nada, apenas viver esse momento sublime de êxtase. E logo adormecer. Sozinho. Como sempre.

Almoço com a sogra

Ele, de bermuda e camiseta, já meio calvo, com a esposa a tiracolo, caminha impavidamente pelo restaurante e sussurra algo ao garçom, um gigante de dois metros de altura. O garçom passeia o olhar em volta, experiente. Olha o casal, olha as crianças, e por fim, a sogra. Sugere, então, em voz baixa e polida, que se juntem três mesas bem no meio do salão. Incontinenti, faz a mudança necessária e fica, por um instante, paralisado, observando como a família vai se acomodar. O casal fica no canto, em frente ao espelho, e de frente pro resto do Shopping. Ao seu lado, afastado umas duas cadeiras, está o filho mais velho. Nós o chamaremos de Rafael, pois todo adolescente de 15 anos se chama, indefectivelmente, Rafael.
Do outro lado da tira de mesas, em frente aos pais e, portanto, no canto, diante do espelho e de costas para o shopping, está o caçula, que por ter uns 10 anos, deve se chamar Felipe.
No canto oposto, no mesmo lado em está Felipe, está a sogra.


------------ to be continued -------------------

2006-01-02

Adoradores



Acordo sobressaltado, sentindo uma certa pestilência no ar. Resultado de um sonho mau. O telefone toca, uma voz automática me chama pelo nome completo e me sugere que eu preste atenção no que vou ouvir. Mas não é do próprio aparelho, é um carro de som, convocando a população masculina para se alistar nas fileiras das forças armadas. Estranho é que o convite é feito com uma exigência de se pagar certa quantia pela inscrição. Alistamento militar gratuito já é uma hipocrisia, pago então....
Por uma estranha contingência, apenas os homens conseguem ouvir a mensagem. Pelo que observo, não houve aquiescência de ninguém até este momomento. Cada um com sua guerra particular.
Pensando nisso, sinto ainda o peito oprimido, como se pressentisse que alguma coisa estava fora de controle. E a minha mente repassou em revista todos os meus amigos, poucos em número, porém grandiosos em qualidade.
Meu coração me ordena que eu visite um deles, Marcone. Um comerciante normal, com a vida ajustada, pregador de uma igreja neoliberal pós-moderna, seja lá o que isso significa. Conheci-o na dita igreja, onde fui mitigar alguns dos meus numerosos pecados, até descobrir que dos meus pecados entendo eu e Deus.
Marcone havia se mudado para um sítio, onde vivia sozinho, compondo canções gospel, vivendo a vida como imaginava que poderia ser uma vida saudável e feliz.
Algumas vezes eu o visitava, e a sua sabedoria ilimitada me deslumbrava. Sua esposa se desdobrava em mimos para comigo, preparando suculentos pratos que sabia ser da minha preferência.
O licor de jabuticaba era sua especialidade. Doce, encorpado e translúido, era um prazer saborear, à sombra das mangueiras, todo aquele esplendor.
No sítio de Marcone havia um pequeno pomar, totalmente eclético, onde se podia encontrar desde o exótico caqui até o nauseante pequi, só pra rimar.
O caminho até o sitio era orlado por belíssimas árvores.A alameda de ipês (que eu mesmo ajudei a plantar), dava a impressão de estar indo em direção ao nirvana. Não posso me esquecer dele, pois lutou ao meu lado numa guerra sem qualquer tipo de senso moral ou patriótico, como eu mesmo não seria capaz. Sigo o impulso de visitá-lo. É uma caminhada prazerosa, o perfume das flores do campo desintoxicando os meu pulmões. Não sei porque, mas me sinto totalmente revigorado. Nem me lembro da loucura da noite anterior, quando foi a comemoração de ano novo, as pessoas se embebedando cuidadosamente irresponsáveis, aproveitando o dia para serem exatamente o que são. Não as reprovo. Cada um com suas particularidades, algumas até mesmo coletivas.
No caminho, numa bifurcação da alameda está a casa de Jennifer, uma moça bonita da cidade, professora formada, cuja dedicação às crianças a encheu de notoriedade e carinho por parte da população. Resolvi dar um alô, pois minhas relações com ela são muito boas, embora não sejamos mais amantes.
Encontro-a pendurada numa trave, o pescoço amarrado por um fio e isso me choca. Corro para ela e tento retirá-la daquela posição ridícula, mas me surpreendo com a sua reação.
- Não faça isso, Homer ! Afaste-se de mim!
- Não estou entendendo, Jennifer!
- Não se intrometa - falou, duramente - é um assunto meu.
- Você quer se matar? Ficou louca ?
- Contrário. Quero viver. Estou me purificando.
- Já sei, ficou até tarde vendo People&Arts, e agora quer imitar alguma coltura aborígene que pratica a autoflagelação.
- Que discurso cansativo. Quer fazer o favor de me deixar em paz ?
- Ok, você que sabe.
Saio dali apreensivo. Ela mora sozinha. Seu único vizinho é Marcone. Antes de deixá-la, porém, fico sabendo que ela se penitencia por ter cedido ao assedio de seu namorado, e também se amarrou, pelo pescoço, aquele travessão. Seu ritual de purificação é no mínimo macabro, mas ela fez questão de me manter fora dele. Ainda asim, argumento que não é exatamente essa a forma de chamar a atenção de Deus, mas ela está firme em seus propósitos. Alguma coisa deve ter acontecido. Ou ela bateu com a cabeça ou um asteróide caiu nos campos próximos, como num filme de ficção.
Ainda assim, não hesito em chamar a polícia. Ligo para o delegado Antunes, que não se encontra, foi a uma reunião na sede da Maçonaria. Deixo recado com o cabo Arnaldo e lhe peço que mande alguém atender a Jennifer. Alguma coisa no meu coração começa a tomar forma, e é uma angústia inexplicável.
Em alguns passos eu já estou no sítio do Marcone.
Marcone no seu sitio na estrada velha, amarrado a coluna de madeira por um fio de aço que lhe sai da orelha, magro e abatido, mas com um sorriso simplório nos lábios. Não parecia bem, no geral.
- Meu amigo, o que está acontecendo com você ? - pergunto
- Comigo? Nada além de experimentar o nirvana - responde, numa voz rouca.
- Quem fez isso com você ?
- Isso o que ?
- Quem o amarrou dessa maneira ? Há quanto tempo? Qual o motivo?
- Ninguém me amarrou. Eu mesmo o fiz, para me purificar.


--------- to be continued -----------------