Ecoa no meu silencio a voz retumbante de minha vida, em suspenso. Diante do espelho de minha experiencia, a tolerancia comeca a se esvair e uma apreensão doentia toma posse de mim. Quero respirar novamente, mas nao posso. As paredes que me cercam, e a cada instante me apertam..
There is a special place where we stop being who we are to simply move beyond our borders. That's where our dream becomes real and tangible, based on our experiences and feelings. Here is one such place. Soak your conscience and live by every word as if you had said the same.
2006-04-08
Transição
Minha mente embotada, os sentidos lassos, as veias palpitando de expectativa. Existe um universo a descobrir, e é totalmente novo. Os renovos da minha ansiedade se transmutam em doces reminiscências, quando tolas circunstâncias vem tirar a minha alegria. Mas não há tristeza que subjugue todas as conquistas de então, quando a vida se desabrocha como uma rosa verdadeira, inundando todos os dias com seu perfume sutil e duradouro, como o sol que agora brilha tão intensamente que é impossível que não seja notado.
2006-03-30
Quem és
Quem és tu. fantasma taciturno
Que à noite não me deixa dormir
Infligindo dores que não quero sentir
Despreparando-me para o labor diurno?
Quem és tu, fantasma invisível
Cuja cama ao meu lado parece vazia
Me atormentas com tamanha agonia
Com o teu arrastar constante e terrível?
Quem és tu, figura intrigante
Que me perturbas de forma constante
Fazendo-me desejar a luz do dia?
Quem és tu que à noite me assaltas
Roubando-me o sono, lembrando minhas faltas
Tirando-me a esperança que eu ainda sentia?
Na Rodoviaria
O homem baixinho e vermelho, usando um chapéu preto de sofisticado mau gosto, exibe sua barriga já um tanto flácida. A mulher da limpeza se detém para conversar, numa atitude tipicamente brasileira, com o pai de um menino que a todo instante atira seu carrinho longe, obrigado o pai a servi-lo como um escravo. Certamente a mulher estará dizendo que criança é assim mesmo. Mulheres de seios fartos, todas desprovidas de qualquer tipo de beleza (talvez tenham a interior, mas não estou vendo), desfilam numa coreografia estranha, enquanto um homem mastiga um sanduíche que acabou de retirar de um saquinho de papel, usando os parcos dentes que ainda lhe restam. Uma mulher passou por mim, olhando-me nos olhos como as mulheres olham. Outro homem abre seu descomunal pacote de biscoitos voadores. Espero sinceramente que não seja ele meu vizinho de poltrona no ônibus. Enquanto escrevo, meu estômago dá reviravoltas mirabolantes, fazendo-me enjoar. Coitado do meu futuro vizinho de poltrona. Dois policiais exibem seus glúteos diante da multidão. Um rapaz louco de bermudão laranja saca de repente seu sanduíche de pão francês. A mulher magra de seios grandes passa apressada e logo depois volta correndo com um bilhete de passagem na mão. Então de repente a surpresa: aparece a primeira mulher bonita de Campinas. Com o namorado. Minhas pernas agora tremem, não me sustentando,a doença me consumindo desde que cheguei a esta cidade, e parece querer acabar comigo quando me despeço dela. Mas estou sentado, mesmo assim a sensação é horrível. Quero regurgitar (gostei desta palavra, não é mais bonita que vomitar?). Pelo menos me consolo lembrando que não comi nada, já faz dois dias. Madonna solta sua voz no alto-falante da rodoviária Uma mulher gorda e enorme, de cabelos de fogo, carregando uma bolsa também assustadora, entra faminta na lanchonete. O velho do sanduíche conta suas moedas e logo vai comprar um outro pacote de biscoitos. Ele veste um blusão exótico, estampado, um pouco inadequado para o calor que faz aqui. Imagino-me uma Karen Carpenter, guardadas as devidas proporções, vendo tanta gente comendo tanto. Duas adolescentes gordas de seios grandes passam com o seu papai gordo, cujos seios flácidos (do papai) se evidenciam sob a blusa. Param diante do balcão de vidro de uma das lanchonetes e se empanturravam de delícias. Nisso passa um homem apressado, vestindo-se a rigor, parecido com o George Clooney. Olha para mim, doce e significativamente. É campinense, pensei. Neste momento a minha cabeça gira, estou a ponto de desmaiar, mas reuno as forças para não fazê-lo, pois desmaiar em Campinas é uma evidência indiscutível de que se provou a água do lugar, contra o que fui previamente advertido. A cena corriqueira de sorver em goles prazeirosos uma coca cola me trazem ânsias de vômito, e não estou grávido. A loura feia que estava à minha frente agora se levanta e vem se sentar ao meu lado. Parece-me triste, solitária e sonolenta. Mas é um ledo engano. A loura continua triste, solitária e sonolenta, mas quem está ao meu lado é uma nissei, que logo se levanta (devo ser um tipo sem graça e desinteressante), desaparecendo como por encanto. Uma velhinha com a cara da Sabrina, minha distraída enfermeira da Bosch, passou rapidamente. Quis agradecer pela brilhante frase com que ela me consolou : "O senhor precisa de um médico!". Se ela não tivesse dito, eu jamais pensaria nisso. Continua o desfile de figuras abstratas diante dos meus olhos. Uma velha magérrima, vestida totalmente, até onde os meus olhos conseguem divisar, de preto, arrasta o seu marido (cujo nome deve ser Montgomery Adams). Sabrina vai à lanchonete. A loura dorme. Vem então uma moça bonita de olhos negros e profundos. Nas cadeiras à minha frente, um rapazinho veste touca e jaleco de malha. Ao seu lado um gigante careca conversa animadamente com outro rapaz magro e dark. A loura acordou e està me olhando como as mulheres olham. Agora dormiu de novo. Uma velhinha elegante se assenta ao meu lado. À sua frente se instala um casal ostensivamente em pé, cercando-a de mimos, tipo : "quer um docinho, um refrigerante, água, café, biscoito, revista, almofada, cobertor"?. Todos com o indefectável sotaque campinense, o "r" vibrante. Nunca mais vi Sabrina, minha enfermeira. Vem então uma mulher totalmente vestida de azul calcinha,cujo rosto parece uma máscara de carnaval, destas que se encontram em lojas de doces de Belo Horizonte. Um homem com um cigarro aceso entre os dedos me pede dinheiro para um lanche. Ignoro-o totalmente. Um rapaz veste uma camisa de futebol. Até aí tudo normal. Mas estão estampadas duas palavras totalmente fora de época : Excel e Econômico, dois bancos definitavamente falidos. Triste tendência deste jovem. Volta a mulher com carranca de carnaval. A loura dorme. Uma meninha grita atrás de mim. Sou louco com menininhas, sem qualquer tendência para a pedofilia. Olho pra trás e ela está fazendo gato e sapato de sua enorme mãe. Estou delirando agora, de tanta dor. Apanho minha bolsa pesadíssima e deixo-a no guarda-volumes. Vou ao banheiro e lá encontro algo inusitado. Na porta da privada, no lado interno, está escrito em letras garrafais um anúncio de oferta de préstimos homossexuais bilingues, com telefone e tudo. Volto ao saguão de espera. O meu antigo lugar foi usurpado. Vou para os fundos. De longe vejo a loura sonolenta. Cai uma chuva torrencial em Campinas. Meus companheiros de curso na Bosch são capazes de jurar que estou indo de avião, e podem estar agora preocupados comigo. Mas estou indo de ônibus, se sobreviver até lá, e com isso eu é que me preocupo. Falta uma hora exatamente para a minha partida de ônibus ou avião, se não partir desse mundo antes. | |||
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Mulher Campinense
| Mulher campinense de fartos seios Que passa apressada não sei para onde Vem de um lugar, do que se esconde? Não vim para tais devaneios Mulher campinense de glúteos poucos Me ignora completamente, sou desconhecido Se não acredita, não estou sendo sentido E não me classifica como aos loucos Mulher campinense, toda diferente Daquilo que poderia ser atraente Para um mineiro doente de passagem Mulher campineira deselegante Talvez quisesse parecer interessante Sou uma nuvem, pareço uma miragem | |||
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Porta do Adeus
| Como recordarei de ti, Campinas Se meus gestos senis me impediram Se meus olhos cansados não viram Todo o encanto das tuas esquinas? Eu aqui na Júlio de Mesquita Vendo-te despertar para a vida Meu peito dói, é uma dor renhida Nada que a contemplação suscita Pessoas indiferentes passam, frenéticas Vejo o pulsar de tuas veias, elétricas Não vejo saudades que eu possa levar E o caos da minha vida se avolumando A energia do meu corpo desmoronando Longe de ti, Campinas, quero estar | |||
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Por acaso
| Campinas me assusta, bela cidade De avenidas largas e becos estreitos Corredores vicinais, todos perfeitos Palco de recente e trágica realidade Os campinenses te odeiam, te amam Como eu poderia te amar, se me dói N¿o somente esta doença que me corrói Mas por minhas entranhas que clamam? Pareço morrer quando aporto em ti E estou sofrendo esta dor bem aqui Nem mesmo tu poderias diagnosticar Campinas, cidade minha por acaso Poderias estender o meu prazo E matar-me depois? Quero ainda amar! | |||
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Destino
| Por que me tolhes, destino sagaz De respirar normalmente meu ar sem dor De acertar simplesmente, viver o amor Sem a tal angústia que você me traz? Por que me prendes neste quarto de hotel Se a vida fora de mim parece tão doce Pessoas vivem intensamente como se fosse Tão delicioso viver, um pedaço do céu? Por que me procuras, morte sombria Despejando sobre mim esperança tardia De então viajar sendo o que eu sou? Por que me deixas, vida insolente Me transformas, sou algo, não gente Tão ignorante, pra onde eu vou? | |||
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Ar Campinense
| Tenho os movimentos lassos, incertos De um bêbado que enfim reconheceu Quem é, o que fez, o que perdeu Tantas verdades guardou e prazeres certos Minha bebida é o ar de Campinas Que nesta manhã despertou calada Ignorando-me totalmente, não sou nada O que és, cidade, que não me ensinas? Sorvo em goles curtos a água destilada Com sabor de maçã nada gelada Com isso eu conto para me levantar Mas por que me prostras ante tua grandeza Se nem consigo apreciar tua beleza Que escondes, como se quisesses me matar? | |||
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Don't love me
| Dont take me anymore, darling If you forgot I alive Can I live so if I dive Anytime, anywhere in anything Don't remember me, honnie When I am sad and dying And my heart is always crying If my sun is not so sunny Don't love me, little one I'm the worst man God has done And my kisses brought you death Leave me alone, my baby child I have my own destiny to be wild It shall never change neither the faith | |||
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Meu pai
30 Minutos
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| Meu corpo agora dolorido Pela noite insone que passei Ou pelas atitudes que tomei Me debilitam nesse peso sofrido Faltam trinta minutos para a viagem Estou zonzo, o mundo girando Sou impelido, agora me assustando Temo nمo apreciar a paisagem Mas que paisagem que poderei ver Se a dor interna insiste em doer Nem faço idéia de como parar Entمo espero que chegue o carro Minha pequena afliçمo eu narro Esperando poder um dia voltar. | ||||||
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2006-03-29
Viagem
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| Tenho os movimentos lassos, incertos De um bêbado que enfim reconheceu Quem é, o que fez, o que perdeu Tantas verdades guardou e prazeres certos Minha bebida é o ar de Campinas Que nesta manhã despertou calada Ignorando-me totalmente, não sou nada O que és, cidade, que não me ensinas? Sorvo em goles curtos a água destilada Com sabor de maçã, nada gelada Com isso eu conto para me levantar Mas por que me prostras ante tua grandeza Se nem consigo apreciar tua beleza Que escondes, como se quisesses me matar? | ||||||
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2006-03-28
Corre nas veias
2006-02-18
Ainda Nao
2006-02-11
Universe of Mine
2006-02-05
Ole !!!!
2006-02-03
Cadeira Cabeluda
Todas as noites vem a rainha
Com seu andar cadenciado
Fazendo voltas na minha cabeça
Eu querendo que seja minha
Embora um tanto apressado
Antes que eu proprio enlouqueça
A cadeira cabeluda aguarda, fria
Que a carne macia a toque
Aquecendo-a como se fora eu
Isso me traz tamanha agonia
Pois eu cá, ouvindo meu rock
Um momento somente meu
Coberta a cadeira, vem a beleza
De cujo rosto me encanto
Fazendo-me tolo e criança
A ela me rendo, a realeza
E para meu proprio espanto
Sou a própria esperança
2006-01-23
Amor
Filha do Meio
Caçula
Tormento
2006-01-21
Circus - Zero Por Cento
- Araujo - um cara ja sem paciencia
- Funcao : gerente adiministrativo e financeiro, na carteira
- Na prática : testa de ferro, laranja, bombril, resolvedor de pepinos, descascador de abacaxis, ouvinte de baboseiras
- Antonio - primo do dono, filho de casal de primos, louco de jogar pedra.
- Função : projetista/orçamentista
- Na prática : puxa-saco, pitaqueiro, intrometido, primo, doido
Ato 1:
Antonio chega, revirando os olhos, na sala de Araujo e já vai falando, sem ser autorizado:
- Araujo, você é o máximo. Adoro você. Gerente igual você tá pra surgir. Sua competência me assusta. Deixa eu te falar : tou fechando uma proposta de fornecimento pra Bolívia e quero saber de você qual a carga tributária da proposta.
- Tá
- Quando você vai me informar ?
- Agora. Alíquota ZERO pra tudo.
- Só isso, nao tem mais nada ?
- Zero.
- Tá bom
Ato 2 :
Tres dias depois, Araujo reenvia para o Antonio um email do Departamento Contábil confirmando a informação sobre o ZERO PORCENTO de imposto em que se diz:
"Caro Araujo,
Conforme nossos entendimentos, confirmo a informação sobre a tributação das vendas efetuadas para a Bolivia. Aliquota ZERO. Favor verificar possibilidade de contratar consultoria especializada em exportação.
Abraços,
Marcos
"
Ato 3 :
Antonio recebe o email e devolve ao Araujo dizendo :
- Se a alíquota é ZERO, qual o índice que vou informar na minha proposta ?
Não há resposta do Araujo, por motivos óbvios
Ato 4 :
30 dias depois, véspera de férias, Araujo está reunido com a área financeira e compras. Antonio chega, com o olhar vidrado e solta sem mais nem menos:
- Araujo, sobre a tributação de vendas pra Bolívia, você falou que é ZERO?
- Falei
- Então, como vou dar desconto na proposta se a aliquota é ZERO?
- Simples. Não dê desconto. Informe somente o valor real.
- Mas não posso, tenho que ter dois valores, com e sem impostos
- Negocie de outra forma, SOMENTE COM O VALOR NORMAL
- Quanto que vou aplicar ?
- Aplicar o que ?
- Imposto, uai
- Zero, Antonio, ZE-ZE-RO-RO
- Voce nao ta me entendendo
- Vc tambem nao
- Ta bom
Ato 5
Antonio sai da sala do financeiro e vai pra sua propria mesa. De lá, liga pro dono da firma, em curso em São Paulo:
- Ze Carlos, sabe aquela proposta da Bolívia ? Pois é, tenho que informar ao cliente os impostos que incidem sobre a venda e O ARAUJO NÃO SABE. Nao, o CONTADOR TAMBEM NAO SABE.
Sabado 21
2006-01-18
Inspiration
O Resgate de Giselda - Parte 2
2006-01-17
Crepusculo
2006-01-16
Prosaicus
2006-01-08
Princesas Julie e Emmy e a Goiabeira Real
Num reino muito distante chamado Mallaka, o Rei Charles partiu pra guerra. Precisava conquistar novos domínios, estabelecer riquezas e, mesmo que pesaroso de deixar a família real, seguiu o seu caminho. Ficaram as princesas Emmy e Julie com a rainha. Como toda criança daquele reino, tinham suas tarefas a cumprir, iam à escola, ajudavam à mamãe com os cuidados do palácio mas, quando tinham uma folga, corriam para a Goiabeira Real, o seu lugar preferido. Esta goiabeira real, contavam as lendas, tinha sido uma princesa lindíssima há muitos anos mas, por sua infelicidade, uma bruxa má, vinda do oriente, a transformara em uma goiabeira, tomando-lhe assim o objeto de seu amor.. Numa época em que as invejas e porfias eram uma praga naquele mundo, a inocência e a pureza das princesas Emmy e Julie sobrepujavam todo o mal que poderia existir na natureza humana. As princesas eram as melhores na escola aprendiam coisas novas, conheciam pessoas interessantes, se enchiam de ricos conhecimentos, mas guardavam no seu coração, com um grande tesouro, a imagem seu querido papai. Nos intervalos das batalhas, porém, o rei Charles as visitava, percorrendo com sua carruagem real e comitiva, uma grande distância . Ele sempre levava presentes para as suas princesas, mais o que mais as agradava era simplesmente a presença do rei. As princesas costumavam brincar no jardim no palácio e ali a Goiabeira Real, frondosa, majestosa, as acolhia com ternura e amor, protegendo-as e instruindo-as. Por muitos anos aquela árvore tinha visto reis, príncipes, princesas e rainhas, vitórias, conquistas e dores. Por iisso acumulava tanta sabedoria que podia ser considerada oráculo. Mas, por um capricho do destino, somente as princesas e suas amigas sa desfrutavam de tanta sabedoria daquela árvore milenar. Nas tardes reais as princesas brincavam ao redor da goiabeira, comiam de seus frutos vermelhos e suculentos, inventavam jogos e algazarras, até que chegasse a hora de voltarem ao palácio para fazerem os deveres de casa e dormirem.. Certo dia, as princesas Emmy e Julie foram surpreendidas quando chegaram ao seu lugar preferido. A goabeira jazia tombada no chão, morta. As princesas logo o chamaram a rainha, e esta determinou que os cientistas e agrônomos do Reino examinassem a árvore tombada. Começaram as lendas no reino. Teria sido um ataque alienígena? Algum animal da floresta encantada? Algum vilão misterioso? A bruxa malvada ? Os duendes maus ? Os monstros que atacavam criancinhas que nao gostavam de leite e verduras ? Mas, após exaustivos, porém minuciosos estudos, sábios e magos reais constataram que a Goiabeira Real havia morrido de velhice. Isto consternou profundamente as princesas. Como elas agora iriam se divertir?. A quem contariam os lúdicos segredos de sua infância, quem lhe ensinaria os profundos segredos do universo?. Quem lhes abriria as excitantes aventuras de todos os séculos?. Foi decretado feriado para as cerimônias fúnebres da árvore real. Os corneteiros, vestidos a rigor com seus bonés vermelhos adornados com correntinhas douradas, os guardas palacianos, o cortejo seguia pelas ruas douradas do palácio.
2006-01-05
O que sustenta o mundo
Almoço com a sogra
Do outro lado da tira de mesas, em frente aos pais e, portanto, no canto, diante do espelho e de costas para o shopping, está o caçula, que por ter uns 10 anos, deve se chamar Felipe.
No canto oposto, no mesmo lado em está Felipe, está a sogra.
------------ to be continued -------------------
2006-01-02
Adoradores

Acordo sobressaltado, sentindo uma certa pestilência no ar. Resultado de um sonho mau. O telefone toca, uma voz automática me chama pelo nome completo e me sugere que eu preste atenção no que vou ouvir. Mas não é do próprio aparelho, é um carro de som, convocando a população masculina para se alistar nas fileiras das forças armadas. Estranho é que o convite é feito com uma exigência de se pagar certa quantia pela inscrição. Alistamento militar gratuito já é uma hipocrisia, pago então....
Por uma estranha contingência, apenas os homens conseguem ouvir a mensagem. Pelo que observo, não houve aquiescência de ninguém até este momomento. Cada um com sua guerra particular.
Pensando nisso, sinto ainda o peito oprimido, como se pressentisse que alguma coisa estava fora de controle. E a minha mente repassou em revista todos os meus amigos, poucos em número, porém grandiosos em qualidade.
Meu coração me ordena que eu visite um deles, Marcone. Um comerciante normal, com a vida ajustada, pregador de uma igreja neoliberal pós-moderna, seja lá o que isso significa. Conheci-o na dita igreja, onde fui mitigar alguns dos meus numerosos pecados, até descobrir que dos meus pecados entendo eu e Deus.
Marcone havia se mudado para um sítio, onde vivia sozinho, compondo canções gospel, vivendo a vida como imaginava que poderia ser uma vida saudável e feliz.
Algumas vezes eu o visitava, e a sua sabedoria ilimitada me deslumbrava. Sua esposa se desdobrava em mimos para comigo, preparando suculentos pratos que sabia ser da minha preferência.
O licor de jabuticaba era sua especialidade. Doce, encorpado e translúido, era um prazer saborear, à sombra das mangueiras, todo aquele esplendor.
No sítio de Marcone havia um pequeno pomar, totalmente eclético, onde se podia encontrar desde o exótico caqui até o nauseante pequi, só pra rimar.
O caminho até o sitio era orlado por belíssimas árvores.A alameda de ipês (que eu mesmo ajudei a plantar), dava a impressão de estar indo em direção ao nirvana. Não posso me esquecer dele, pois lutou ao meu lado numa guerra sem qualquer tipo de senso moral ou patriótico, como eu mesmo não seria capaz. Sigo o impulso de visitá-lo. É uma caminhada prazerosa, o perfume das flores do campo desintoxicando os meu pulmões. Não sei porque, mas me sinto totalmente revigorado. Nem me lembro da loucura da noite anterior, quando foi a comemoração de ano novo, as pessoas se embebedando cuidadosamente irresponsáveis, aproveitando o dia para serem exatamente o que são. Não as reprovo. Cada um com suas particularidades, algumas até mesmo coletivas.
No caminho, numa bifurcação da alameda está a casa de Jennifer, uma moça bonita da cidade, professora formada, cuja dedicação às crianças a encheu de notoriedade e carinho por parte da população. Resolvi dar um alô, pois minhas relações com ela são muito boas, embora não sejamos mais amantes.
Encontro-a pendurada numa trave, o pescoço amarrado por um fio e isso me choca. Corro para ela e tento retirá-la daquela posição ridícula, mas me surpreendo com a sua reação.
- Não faça isso, Homer ! Afaste-se de mim!
- Não estou entendendo, Jennifer!
- Não se intrometa - falou, duramente - é um assunto meu.
- Você quer se matar? Ficou louca ?
- Contrário. Quero viver. Estou me purificando.
- Já sei, ficou até tarde vendo People&Arts, e agora quer imitar alguma coltura aborígene que pratica a autoflagelação.
- Que discurso cansativo. Quer fazer o favor de me deixar em paz ?
- Ok, você que sabe.
Saio dali apreensivo. Ela mora sozinha. Seu único vizinho é Marcone. Antes de deixá-la, porém, fico sabendo que ela se penitencia por ter cedido ao assedio de seu namorado, e também se amarrou, pelo pescoço, aquele travessão. Seu ritual de purificação é no mínimo macabro, mas ela fez questão de me manter fora dele. Ainda asim, argumento que não é exatamente essa a forma de chamar a atenção de Deus, mas ela está firme em seus propósitos. Alguma coisa deve ter acontecido. Ou ela bateu com a cabeça ou um asteróide caiu nos campos próximos, como num filme de ficção.
Ainda assim, não hesito em chamar a polícia. Ligo para o delegado Antunes, que não se encontra, foi a uma reunião na sede da Maçonaria. Deixo recado com o cabo Arnaldo e lhe peço que mande alguém atender a Jennifer. Alguma coisa no meu coração começa a tomar forma, e é uma angústia inexplicável.
Em alguns passos eu já estou no sítio do Marcone.
Marcone no seu sitio na estrada velha, amarrado a coluna de madeira por um fio de aço que lhe sai da orelha, magro e abatido, mas com um sorriso simplório nos lábios. Não parecia bem, no geral.
- Meu amigo, o que está acontecendo com você ? - pergunto
- Comigo? Nada além de experimentar o nirvana - responde, numa voz rouca.
- Quem fez isso com você ?
- Isso o que ?
- Quem o amarrou dessa maneira ? Há quanto tempo? Qual o motivo?
- Ninguém me amarrou. Eu mesmo o fiz, para me purificar.
--------- to be continued -----------------


