
Acordo sobressaltado, sentindo uma certa pestilência no ar. Resultado de um sonho mau. O telefone toca, uma voz automática me chama pelo nome completo e me sugere que eu preste atenção no que vou ouvir. Mas não é do próprio aparelho, é um carro de som, convocando a população masculina para se alistar nas fileiras das forças armadas. Estranho é que o convite é feito com uma exigência de se pagar certa quantia pela inscrição. Alistamento militar gratuito já é uma hipocrisia, pago então....
Por uma estranha contingência, apenas os homens conseguem ouvir a mensagem. Pelo que observo, não houve aquiescência de ninguém até este momomento. Cada um com sua guerra particular.
Pensando nisso, sinto ainda o peito oprimido, como se pressentisse que alguma coisa estava fora de controle. E a minha mente repassou em revista todos os meus amigos, poucos em número, porém grandiosos em qualidade.
Meu coração me ordena que eu visite um deles, Marcone. Um comerciante normal, com a vida ajustada, pregador de uma igreja neoliberal pós-moderna, seja lá o que isso significa. Conheci-o na dita igreja, onde fui mitigar alguns dos meus numerosos pecados, até descobrir que dos meus pecados entendo eu e Deus.
Marcone havia se mudado para um sítio, onde vivia sozinho, compondo canções gospel, vivendo a vida como imaginava que poderia ser uma vida saudável e feliz.
Algumas vezes eu o visitava, e a sua sabedoria ilimitada me deslumbrava. Sua esposa se desdobrava em mimos para comigo, preparando suculentos pratos que sabia ser da minha preferência.
O licor de jabuticaba era sua especialidade. Doce, encorpado e translúido, era um prazer saborear, à sombra das mangueiras, todo aquele esplendor.
No sítio de Marcone havia um pequeno pomar, totalmente eclético, onde se podia encontrar desde o exótico caqui até o nauseante pequi, só pra rimar.
O caminho até o sitio era orlado por belíssimas árvores.A alameda de ipês (que eu mesmo ajudei a plantar), dava a impressão de estar indo em direção ao nirvana. Não posso me esquecer dele, pois lutou ao meu lado numa guerra sem qualquer tipo de senso moral ou patriótico, como eu mesmo não seria capaz. Sigo o impulso de visitá-lo. É uma caminhada prazerosa, o perfume das flores do campo desintoxicando os meu pulmões. Não sei porque, mas me sinto totalmente revigorado. Nem me lembro da loucura da noite anterior, quando foi a comemoração de ano novo, as pessoas se embebedando cuidadosamente irresponsáveis, aproveitando o dia para serem exatamente o que são. Não as reprovo. Cada um com suas particularidades, algumas até mesmo coletivas.
No caminho, numa bifurcação da alameda está a casa de Jennifer, uma moça bonita da cidade, professora formada, cuja dedicação às crianças a encheu de notoriedade e carinho por parte da população. Resolvi dar um alô, pois minhas relações com ela são muito boas, embora não sejamos mais amantes.
Encontro-a pendurada numa trave, o pescoço amarrado por um fio e isso me choca. Corro para ela e tento retirá-la daquela posição ridícula, mas me surpreendo com a sua reação.
- Não faça isso, Homer ! Afaste-se de mim!
- Não estou entendendo, Jennifer!
- Não se intrometa - falou, duramente - é um assunto meu.
- Você quer se matar? Ficou louca ?
- Contrário. Quero viver. Estou me purificando.
- Já sei, ficou até tarde vendo People&Arts, e agora quer imitar alguma coltura aborígene que pratica a autoflagelação.
- Que discurso cansativo. Quer fazer o favor de me deixar em paz ?
- Ok, você que sabe.
Saio dali apreensivo. Ela mora sozinha. Seu único vizinho é Marcone. Antes de deixá-la, porém, fico sabendo que ela se penitencia por ter cedido ao assedio de seu namorado, e também se amarrou, pelo pescoço, aquele travessão. Seu ritual de purificação é no mínimo macabro, mas ela fez questão de me manter fora dele. Ainda asim, argumento que não é exatamente essa a forma de chamar a atenção de Deus, mas ela está firme em seus propósitos. Alguma coisa deve ter acontecido. Ou ela bateu com a cabeça ou um asteróide caiu nos campos próximos, como num filme de ficção.
Ainda assim, não hesito em chamar a polícia. Ligo para o delegado Antunes, que não se encontra, foi a uma reunião na sede da Maçonaria. Deixo recado com o cabo Arnaldo e lhe peço que mande alguém atender a Jennifer. Alguma coisa no meu coração começa a tomar forma, e é uma angústia inexplicável.
Em alguns passos eu já estou no sítio do Marcone.
Marcone no seu sitio na estrada velha, amarrado a coluna de madeira por um fio de aço que lhe sai da orelha, magro e abatido, mas com um sorriso simplório nos lábios. Não parecia bem, no geral.
- Meu amigo, o que está acontecendo com você ? - pergunto
- Comigo? Nada além de experimentar o nirvana - responde, numa voz rouca.
- Quem fez isso com você ?
- Isso o que ?
- Quem o amarrou dessa maneira ? Há quanto tempo? Qual o motivo?
- Ninguém me amarrou. Eu mesmo o fiz, para me purificar.
--------- to be continued -----------------