Naquela tarde eu saía mais cedo da escola. Minha última aula de Língua Inglesa foi às 15:00h. Meus alunos estavam sonolentos, pois o calor era insuportável. Quando soou o sinal do fim da aula, foi um alívio para todos, inclusive para mim. Cansado, deprimido, meu estado era o normal de um homem que foi desprezado por uma mulher, e pensando nisso eu caminhava sob o sol escaldante. Deixara o carro em casa, pois morava bem perto dali.
Devo ter passado por alguém conhecido, mas estava tão absorto nos meus pensamentos e tão entregue aos meus fantasmas que não devo ter cumprimentado ninguém. Aliás, eu não via nada à minha frente, parecia flutuar em uma dimensão diferente do restante do mundo. Mas vi quando um caminhão passou por mim, descendo a rua.
Transportava gado. Era uma cena comum na cidade, visto que a economia básica ali era justamente a pecuária. Ser professor não me rendia nada comparado ao que eu teria se fosse pecuarista naquele lugar quente e pasmacento.
O caminhão passou por mim, e andava devagar. Notei, porém, um detalhe aterrador. Além das poucas reses havia madeira no caminhão. Claro que uma coisa não combinava com a outra. Somente um louco faria algo assim. E, para o meu espanto, a porteirinha traseira do caminhão se abriu quando o mesmo passou num buraco na pista e a madeira derrapou em direção às patas das vacas. Duas delas saltaram, desajeitadas, e correram em minha direção.
Fiquei estarrecido. Normalmente não tenho medo de vacas, mas aquelas ali estavam assustadas, e seriam capazes de tudo. Olhei em volta, não havia onde me abrigar. Atrás de mim havia um poste de luz, foi onde me refugiei, o mais rápido que pude. Uma das vacas estacou, confusa, e desceu a rua. A outra continuou subindo, firme, e passou por mim bufando e apavorada.
Suspirei de alívio, protegido pelo poste, e olhei para onde a vaca se dirigia. Foi então que eu vi.
A poucos passos de mim vinha uma moça alta, morena, bonita, elegante e perigosamente distraída. Não viu o movimento da rua, nem a vaca que ia em sua direção. Quando gritei, já era tarde demais. A novilha (esclareço que era uma novilha, não uma vaca, que me perdoem os leitores) atingiu a moça em cheio, no estômago, e continuou sua desabalada carreira.
Sem pensar direito, corri para a moça, que tombava para trás, desmaiada. Consegui segurá-la nos braços, antes que caísse no chão. Olhei, não havia sinal de lesões. Por sorte a novilha era mocha (pra quem não sabe, sem chifres).
A moça (não a mocha) desmaiada nos meus braços, começava a pesar. Ainda tive tempo de observá-la. Era realmente muito bonita, os lábios bem desenhados, os cabelos caindo como cascatas negras, a pele bem cuidada, um perfume estonteante. Tomei-a nos braços. Não havia mais ninguém na rua. Procurei um lugar para abrigá-la, todas as portas fechadas. A primeira casa que vi, gritei de fora. Ninguém me atendeu. Insisti (a moça já pesava em meus braços, apesar de sua delicadeza). A porta marrom da casa em questão se abriu lentamente, uma cabecinha enrolada num lenço assomou, assustada.
- Rápido, senhora, me dê abrigo. Esta moça sofreu um acidente ! - gritei
A dona, esbaforida, bateu a porta na minha cara, para logo depois abri-la de novo, desta vez acompanhada de uma menina de doze anos, ambas assustadas. Mas franquearam a casa pra mim e meu precioso fardo.
Entrei numa sala mal iluminada, àquela hora do dia. Demorou um pouco para que eu me acostumasse. Depositei minha carga na poltrona mais próxima. No sofá maior havia uma anciã deitada com dois gatos. Com um aceno de cabeça a dona da casa me instruiu a retirar dali a velha senhora, o que fiz prontamente. Carreguei-a nos braços e levei-a a um quartinho nos fundos, que me foi indicado. Expulsei os gatos e os pelos que deixaram (eram muitos) e ali acomodei a moça bonita e desmaiada.
Ajeito as almofadas, ainda impregnadas de pelos de gatos, mas não tenho escolha.