2006-03-30

Quem és

Quem és tu. fantasma taciturno

Que à noite não me deixa dormir

Infligindo dores que não quero sentir

Despreparando-me para o labor diurno?

 

Quem és tu, fantasma invisível

Cuja cama ao meu lado parece vazia

Me atormentas com tamanha agonia

Com o teu arrastar constante e terrível?

 

Quem és tu, figura intrigante

Que me perturbas de forma constante

Fazendo-me desejar a luz do dia?

 

Quem és tu que à noite me assaltas

Roubando-me o sono, lembrando minhas faltas

Tirando-me a esperança que eu ainda sentia?

 

Na Rodoviaria


O homem baixinho e vermelho, usando um chapéu preto de sofisticado mau gosto, exibe sua barriga já um tanto flácida. A mulher da limpeza se detém para conversar, numa atitude tipicamente brasileira, com o pai de um menino que a todo instante atira seu carrinho longe, obrigado o pai a servi-lo como um escravo. Certamente a mulher estará dizendo que criança é assim mesmo.
Mulheres de seios fartos, todas desprovidas de qualquer tipo de beleza (talvez tenham a interior, mas não estou vendo), desfilam numa coreografia estranha, enquanto um homem mastiga um sanduíche que acabou de retirar de um saquinho de papel, usando os parcos dentes que ainda lhe restam. Uma mulher passou por mim, olhando-me nos olhos como as mulheres olham. Outro homem abre seu descomunal pacote de biscoitos voadores. Espero sinceramente que não seja ele meu vizinho de poltrona no ônibus.
Enquanto escrevo, meu estômago dá reviravoltas mirabolantes, fazendo-me enjoar. Coitado do meu futuro vizinho de poltrona. Dois policiais exibem seus glúteos diante da multidão. Um rapaz louco de bermudão laranja saca de repente seu sanduíche de pão francês. A mulher magra de seios grandes passa apressada e logo depois volta correndo com um bilhete de passagem na mão.
Então de repente a surpresa: aparece a primeira mulher bonita de Campinas. Com o namorado.
Minhas pernas agora tremem, não me sustentando,a doença me consumindo desde que cheguei a esta cidade, e parece querer acabar comigo quando me despeço dela. Mas estou sentado, mesmo assim a sensação é horrível. Quero regurgitar (gostei desta palavra, não é mais bonita que vomitar?). Pelo menos me consolo lembrando que não comi nada, já faz dois dias. Madonna solta sua voz no alto-falante da rodoviária
 
Uma mulher gorda e enorme, de cabelos de fogo, carregando uma bolsa também assustadora, entra faminta na lanchonete. O velho do sanduíche conta suas moedas e logo vai comprar um outro pacote de biscoitos. Ele veste um blusão exótico, estampado, um pouco inadequado para o calor que faz aqui. Imagino-me uma Karen Carpenter, guardadas as devidas proporções, vendo tanta gente comendo tanto. Duas adolescentes gordas de seios grandes passam com o seu papai gordo, cujos seios flácidos (do papai) se evidenciam sob a blusa. Param diante do balcão de vidro de uma das lanchonetes e se empanturravam de delícias. Nisso passa um homem apressado, vestindo-se a rigor, parecido com o George Clooney. Olha para mim, doce e significativamente. É campinense, pensei. Neste momento a minha cabeça gira, estou a ponto de desmaiar, mas reuno as forças para não fazê-lo, pois desmaiar em Campinas é uma evidência indiscutível de que se provou a água do lugar, contra o que fui previamente advertido. A cena corriqueira de sorver em goles prazeirosos uma coca cola me trazem ânsias de vômito, e não estou grávido.
A loura feia que estava à minha frente agora se levanta e vem se sentar ao meu lado. Parece-me triste, solitária e sonolenta. Mas é um ledo engano. A loura continua triste, solitária e sonolenta, mas quem está ao meu lado é uma nissei, que logo se levanta (devo ser um tipo sem graça e desinteressante), desaparecendo como por encanto.
Uma velhinha com a cara da Sabrina, minha distraída enfermeira da Bosch, passou rapidamente. Quis agradecer pela brilhante frase com que ela me consolou : "O senhor precisa de um médico!". Se ela não tivesse dito, eu jamais pensaria nisso.
Continua o desfile de figuras abstratas diante dos meus olhos. Uma velha magérrima, vestida totalmente, até onde os meus olhos conseguem divisar, de preto, arrasta o seu marido (cujo nome deve ser Montgomery Adams). Sabrina vai à lanchonete. A loura dorme. Vem então uma moça bonita de olhos negros e profundos. Nas cadeiras à minha frente, um rapazinho veste touca e jaleco de malha. Ao seu lado um gigante careca conversa animadamente com outro rapaz magro e dark. A loura acordou e està me olhando como as mulheres olham. Agora dormiu de novo.
Uma velhinha elegante se assenta ao meu lado. À sua frente se instala um casal ostensivamente em pé, cercando-a de mimos, tipo : "quer um docinho, um refrigerante, água, café, biscoito, revista, almofada, cobertor"?. Todos com o indefectável sotaque campinense, o "r" vibrante. Nunca mais vi Sabrina, minha enfermeira. Vem então uma mulher totalmente vestida de azul calcinha,cujo rosto parece uma máscara de carnaval, destas que se encontram em lojas de doces de Belo Horizonte. Um homem com um cigarro aceso entre os dedos me pede dinheiro para um lanche. Ignoro-o totalmente. Um rapaz veste uma camisa de futebol. Até aí tudo normal. Mas estão estampadas duas palavras totalmente fora de época : Excel e Econômico, dois bancos definitavamente falidos. Triste tendência deste jovem.
Volta a mulher com carranca de carnaval. A loura dorme. Uma meninha grita atrás de mim. Sou louco com menininhas, sem qualquer tendência para a pedofilia. Olho pra trás e ela está fazendo gato e sapato de sua enorme mãe.
Estou delirando agora, de tanta dor. Apanho minha bolsa pesadíssima e deixo-a no guarda-volumes. Vou ao banheiro e lá encontro algo inusitado. Na porta da privada, no lado interno, está escrito em letras garrafais um anúncio de oferta de préstimos homossexuais bilingues, com telefone e tudo.
Volto ao saguão de espera. O meu antigo lugar foi usurpado. Vou para os fundos. De longe vejo a loura sonolenta. Cai uma chuva torrencial em Campinas. Meus companheiros de curso na Bosch são capazes de jurar que estou indo de avião, e podem estar agora preocupados comigo. Mas estou indo de ônibus, se sobreviver até lá, e com isso eu é que me preocupo. Falta uma hora exatamente para a minha partida de ônibus ou avião, se não partir desse mundo antes.

Mulher Campinense

Mulher campinense de fartos seios
Que passa apressada não sei para onde
Vem de um lugar, do que se esconde?
Não vim para tais devaneios
 
Mulher campinense de glúteos poucos
Me ignora completamente, sou desconhecido
Se não acredita, não estou sendo sentido
E não me classifica como aos loucos
 

Mulher campinense, toda diferente
Daquilo que poderia ser atraente
Para um mineiro doente de passagem
 
Mulher campineira deselegante
Talvez quisesse parecer interessante
Sou uma nuvem, pareço uma miragem

Porta do Adeus


Como recordarei de ti, Campinas
Se meus gestos senis me impediram
Se meus olhos cansados não viram
Todo o encanto das tuas esquinas?
 
Eu aqui na Júlio de Mesquita
Vendo-te despertar para a vida
Meu peito dói, é uma dor renhida
Nada que a contemplação suscita
 
Pessoas indiferentes passam, frenéticas
Vejo o pulsar de tuas veias, elétricas
Não vejo saudades que eu possa levar
 
E o caos da minha vida se avolumando
A energia do meu corpo desmoronando
Longe de ti, Campinas, quero estar

Por acaso

Campinas me assusta, bela cidade
De avenidas largas e becos estreitos
Corredores vicinais, todos perfeitos
Palco de recente e trágica realidade
 
Os campinenses te odeiam, te amam
Como eu poderia te amar, se me dói
N¿o somente esta doença que me corrói
Mas por minhas entranhas que clamam?
 
Pareço morrer quando aporto em ti
E estou sofrendo esta dor bem aqui
Nem mesmo tu poderias diagnosticar
 
Campinas, cidade minha por acaso
Poderias estender o meu prazo
E matar-me depois? Quero ainda amar!

Destino

Por que me tolhes, destino sagaz
De respirar normalmente meu ar sem dor
De acertar simplesmente, viver o amor
Sem a tal angústia que você me traz?
 
Por que me prendes neste quarto de hotel
Se a vida fora de mim parece tão doce
Pessoas vivem intensamente como se fosse
Tão delicioso viver, um pedaço do céu?
 
Por que me procuras, morte sombria
Despejando sobre mim esperança tardia
De então viajar sendo o que eu sou?
 
Por que me deixas, vida insolente
Me transformas, sou algo, não gente
Tão ignorante, pra onde eu vou?

Ar Campinense


Tenho os movimentos lassos, incertos
De um bêbado que enfim reconheceu
Quem é, o que fez, o que perdeu
Tantas verdades guardou e prazeres certos
 
Minha bebida é o ar de Campinas
Que nesta manhã despertou calada
Ignorando-me totalmente, não sou nada
O que és, cidade, que não me ensinas?
 
Sorvo em goles curtos a água destilada
Com sabor de maçã nada gelada
Com isso eu conto para me levantar
 
Mas por que me prostras ante tua grandeza
Se nem consigo apreciar tua beleza
Que escondes, como se quisesses me matar?

Don't love me

Dont take me anymore, darling
If you forgot I alive
Can I live so if I dive
Anytime, anywhere in anything
 
Don't remember me, honnie
When I am sad and dying
And my heart is always crying
If my sun is not so sunny
 
Don't love me, little one
I'm the worst man God has done
And my kisses brought you death
 
Leave me alone, my baby child
I have my own destiny to be wild
It shall never change neither the faith

Meu pai

Meu pai, 
Que de coragem e bravura fez sua história 
Em sua terra desconhecida 
Hostil e inglória 
Onde com o teu suor de menino 
Ganhaste a gleba que te hل de cobrir 
Sou com tu, pai 

Meu pai, 
Que começo a perder na distância 
Homem bonito que sempre se estimou assim 
Impondo o respeito com teu jeito manso 
Espalhando o medo com tuas maneiras duras 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Cujo coração abriga amores 
Poemas e cantigas que jamais morrerمão 
Cujos segredos continuarمo insondáveis 
Cuja alma permanecerá boa como sempre 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Lembro-me de como me soltaste no mundo 
Impْúbere garoto com um longo destino 
Choraste a minha ausência quando viste 
Que apesar de tudo eu era teu filho 
Me amavas então, mas de mim abriste mão 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Cujo sangue espanhol fervilha 
Em maneiras ora rudes ora delicadas 
Incapaz de odiar teus raros inimigos 
Apto para amar teus numerosos amigos 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Teimoso com as tuas dores internas 
Mestre em esconder teus sentimentos 
Sensível à beleza, amante da natureza 
Homem intrépido, sempre comedido 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Meu grande herَói polivalente 
Cuja cultura não se aprende em livros 
Cuja lisura não está nos compêndios 
Pai, mineiro discreto e calado 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
De grandes e carinhosas mãos
Cujo nariz enorme sempre atento 
Pai, de proporçُões sempre máximas 
Fizeste tua gente delirar por ti 
Sou como tu, pai 

Meu pai, 
Nمo me deixes agora, ainda é cedo 
Ainda não pudemos ser confidentes 
Pois guardas teus segredos como eu 
Que guardo meus segredos
Pois eu sou como tu, pai.

30 Minutos

 
Meu corpo agora dolorido
Pela noite insone que passei
Ou pelas atitudes que tomei
Me debilitam nesse peso sofrido
 
Faltam trinta minutos para a viagem
Estou zonzo, o mundo girando
Sou impelido, agora me assustando
Temo nمo apreciar a paisagem
 
Mas que paisagem que poderei ver
Se a dor interna insiste em doer
Nem faço idéia de como parar
 
Entمo espero que chegue o carro
Minha pequena afliçمo eu narro
Esperando poder um dia voltar.
 

2006-03-29

Viagem

 
Tenho os movimentos lassos, incertos
De um bêbado que enfim reconheceu
Quem é, o que fez, o que perdeu
Tantas verdades guardou e prazeres certos
 
Minha bebida é o ar de Campinas
Que nesta manhã despertou calada
Ignorando-me totalmente, não sou nada
O que és, cidade, que não me ensinas?
 
Sorvo em goles curtos a água destilada
Com sabor de maçã, nada gelada
Com isso eu conto para me levantar
 
Mas por que me prostras ante tua grandeza
Se nem consigo apreciar tua beleza
Que escondes, como se quisesses me matar?
 

2006-03-28

Corre nas veias

Corre nas minhas veias A essência do teu mundo Que vejo através da vidraça Delicada do teu corpo moreno Sinto o cheiro adocicado De tuas coxas qye me tomam Num abraço definitivo Para nunca mais esquecer Beijo o teu seio sedoso E na carícia que me sufoca Sou muito mais do que sou És mais do que eu merecia Sorvo em pequenos goles As delícias da tua boca Que se abre morna e feliz Para então novamente se fechar Então me deixo quedar No gozo pleno de ser teu Em afagos me desfazendo Enquanto o paraíso é aqui Como eu te amo, menina Ainda que somente eu veja Tua sombra na minha sala Para sempre me lembrarei de ti