2009-04-26

Natureza Morta


 


Olhou-me com aquele olhar distante dos desconhecidos. Era de uma espécie diferente, mas que, como eu, transitava displicentemente como se fôssemos deuses. Cada um no seu caminho, sua concepção de mundo, seu universo interior. Parecia doente, pois suas atitudes e gestos denotavam total falta de compromisso com o que quer que fosse. Sua serenidade insensata se espalhava por todo o seu corpo e parecia então um boneco desengonçado. Seu destino incerto o levava a um lugar de miríades de ninfas seminuas tocando harpas celestiais. Não se lembrava de onde era, quem o criara, nem ao menos sua ascendência, ou mesmo sua decadência. Era completamente dono de si. Seu nariz apontava para a frente, e ele o seguia sem pestanejar, sem pedir passagem. Ignorou-me quando eu, assim como ele, me perdia em meio ao calor do meio dia na serra do curral.
Passou devagar, as roupas sujas e esfarrapadas escorregando pelo seu corpo maltratado e desnutrido. Seu olhar mortiço a tudo observava, esperando encontrar algo que lhe apetecesse, um resto qualquer de comida, uma guimba de cigarro falsificado, um picolé caído ao chão ou, milagre dos milagres, uma garrafa com um gole da amiga cachaça, do que se abstinha há muito tempo e isso lhe causara um frisson incontrolável. As mulheres que desfilavam diante de si não chamavam a atenção dos seus olhos dementes. Os homens também não despertavam qualquer interesse, fossem ou não abastados e bonitos. Quando seu olhar cruzou com o meu, notei a profundeza de um abismo sem fim, contrastando com o meu. Por um momento fomos solidários, éramos irmãos, tínhamos o meu sangue. Eu poderia estar no seu lugar, catando migalhas da vida, completamente resignado de ser um inútil, um paria, enquanto ele poderia estar tranqüilamente tomando um sorvete de passas ao rum, pensando no que haveria de fazer no momento seguinte.
Ele passou, olhando cuidadosamente em volta. Seu senso de limpeza era impressionante. Seu olhar percorria a rua e varria as calçadas. Onde havia um cisco, uma folhinha seca, um pedaço de papel sujo, ele se agachava imediatamente, recolhia o lixo, e o levava a uma distância onde já providenciara um pequeno depósito.
Ele se arrastava na calçada da Praça Sete, num calor terrível e sentia sede. Mas sua sede não se mitigava com qualquer coisa. Se lhe oferecessem um guaraná. Talvez dignamente recusasse. Seu aspecto moribundo provocava reações e náuseas em todos os transeuntes. Foi então que ele se agachou com seus trapos e, numa poça de lama que saía do esgoto do prédio na Rua São Paulo, bebeu aquele líquido escuro e fétido, diante do olhar estupefato de todos nós.


Awaking



I'm awoke and my she dog barks
Listening a Supertramp's song
And I'm all by myself
The wife sleeps beside me
All the people left me now

I might to take care of my heart
Putting in it the best things
The better memories
Taking off the worst moments
Who is the man that knows
Exactly what his soul is asking for
But there is some doubt
Doubts are bad