9.2.10

Domingo de sol



Chegou timidamente no parque, àquela hora de carnaval cheio de
crianças nas mais inusitadas estrepolias, e foi logo se acomodando no
mais discreto dos lugares, à beira do laguinho onde carpas minúsculas
sambavam tresloucadamente, à espera das migalhas de pão atiradas pelas
boas almas que ali passavam.
Ninguém notou, mas ela chorava, discreta mas firmemente. De seus
olhos castanhos desciam lágrimas insistentes, parecendo vir do fundo da
alma, caso a alma tenha fundo. Ficou ali, parada, olhando os peixes e o
musgo, as folhas do capim balançando sobre a água.
Ninguém sabia ou poderia saber de sua dor, pois ninguém ali a
conhecia. Ou, mesmo se a conhecessem, todos queriam mesmo espairecer,
deixar aquele resquício de natureza se assenhorar do metropolitanismo
canceroso que assolava a todos.
Tinha pouco mais de 20 anos, os cabelos alisados artificialmente com
aqueles milagrosos aparelhinhos modernos, vestia-se com toda a
simplicidade possível, o que era perfeitamente compatível com o lugar
que a acolhia naquele momento.
Seu rosto parecia um rosto comum, como aqueles todos que cruzam com
a gente na Avenida Afonso Pena, numa segunda feira. Com a diferença de
não estampar a urgência e a pressa, mas a de uma abnegação doentia, uma submissão ao fracasso, uma aparência de perda que dificilmente não seria reconhecida.
O parque era o último dos refúgios para ela. Em casa, o irmão mais
velho vinha com o falatório de irmão mais velho, a mãe com os conselhos
imprarticáveis de mãe, os olhares reprovadores do pai, e a curiosidade
infernal da irmã caçula.
Ali, naquele lugar bucólico, entre as goiabeiras e jabuticabeiras, o
remanso sussurrando lá embaixo, os macaquinhos saltitando alegres de
galho em galho, ela desejou morrer. Ninguém escolhe o lugar de sua
morte, além dos homens-bomba, mas talvez fosse ali um lugar perfeito.
Ninguém reparando, a natureza cobrindo a sua dor e vergonha, o trânsito
lá na rodovia nem tão intenso, por causa do feriado prolongado.
Mas ela não fez nada disso. Em vez de uma atitude extrema, sacou de
sua sacola uma garrafa de refrigerante, já nem tão gelado, uma maçã mordiscada, e ficou ali pensativa. De súbito, levantou-se, decidida, e tomo o caminho de casa.

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