2010-08-21

Irmãos de armas

Num desses meio dia de quarta, ou seria quinta, após o almoço no restaurante do shopping, ele me telefona, meu primogênito, coisa que não faz desde que nasceu há 29 anos. Seu nome na tela do meu Blackberry é algo assustador. Alguma tragédia aconteceu. E, de fato, ele fala em sua voz gutural, pouco acostumada a falar:
- Prepare-se. Bita foi sequestrada ! - assim, de sopetão, sem me preparar
- Como foi isso ? O que aconteceu ? - pergunto inutilmente
- Depois te dou informações - e desligou
Fiquei ali, parado, meus colegas olhando pra mim, eu olhando pra eles sem ver ninguém, o estômago revoltado, a mente vazia de idéias, o corpo lasso. Quando voltei à Terra, falei com o Marcos, à minha frente: minha filha foi sequestrada.
Daí por diante, foi uma sequência de ações e emoções deescontroladas. O diretor determinou, ali mesmo, que eu fizesse plantão na Prefeitura de Belo Horizonte, com as costumeiras recomendações de urgência. Escutei e aquiesci, ainda sem nada planejado. Foi aí que o Marcos veio em meio socorro, informando que eu acabara de recebere a notícia do sequestro de minha filha. O diretor, então, retirou o que disse, e me orientou que tirasse o resto do dia para resolver o problema, que ligasse pra mãe da menina, que fosse à delegacia, etc.
Desci a escada como um autômato. Falei com os colegas da sala principal, e cada um deu uma sugestão, inclusive que eu ligasse pra minha filha. Descobri que não tenho o telefone dela. Disseram que era um falso sequestro.
Liguei para meu filho. Ele me disse que precisava de um carro pra irmos à delegacia. Como eu não o ouvia, ele soletrou a palavra CARRO, parecendo irritado. Disse a ele que tinha o carro, e que estava de saída. Marcou o lugar onde deveríamos nos encontrar.
Voltei para a minha sala, e preparei os meus papéis para alguém assumir, pois eu ficaria o resto da tarde fora. Foi quando ele me ligou novamente, dizendo que havia sido um sequestro fake, desses de presidiários.
Espero que não ocorra outra tragédia, fictícia ou não, para que voltemos a nos falar, como se fôssemos meramente irmãos de armas.