2010-02-23

S.I.G.L.A.S

Como se tivesse saído de um romance de Kafka, especialmente "O Processo", enveredei-me em intermediar alguns setores da Prefeitura de Belo Horizonte e a empresa onde trabalho. É um afã diário, com assuntos diversos, passíveis de soluções, mas com uma particularidade única: todos eles dependem de análise de setores específicos da municipalidade. E eu me divirto, quando procuro o balcão de atendimento, e pergunto sobre um processo:
- Moça, o processo 01.010.0154.154 tem alguma novidade?
A estagiária, depois de olhar longamente a tela de seu computador, me responde na maior simplicidade, como se falasse com um especialista em siglas internas da prefeitura :
- Seu processo ainda não saiu da GEAVI. Quando sair, vem pra GEATI.
- Filha, muito obrigado. Mas o que é GEAVI e GEATI?
 Outro dia necessitava eu de uma certidão de origem de um imóvel e perguntei a uma delas onde poderia obtê-la, no que veio a pronta resposta:
- O senhor deve ir a SMARU.
- Certo. Não precisa me dizer mais nada. Sei exatamente o que é SMARU e onde fica...
 Via de regra, todo mundo deveria ter um caderninho de siglas para não se perder no cipoal de abreviações e siglas que norteiam a vida do pacato cidadão de quem sou um espécime, dos mais humildes, porém.
 As siglas que acompanham nossa vida, para o bem ou para o mal, são indeléveis e onipresentes. RG, CPF, IR, INSS, FGTS, ICMS, ISS (vamos pular essa parte de impostos), LP, CD, DVD, DIVX, 3D, CSI,
 Tempos atrás circulou na web a notícia jocosa de um documento único, uma espécie de cadastro único, o C.U, que deveria ser mostrado a quem quisesse prova da identidade da pessoa. Mas na vida real, as siglas, se não nos confundem, simplesmente nos direcionam erroneamente.
- Por que não vai para a P.Q.P ?

2010-02-09

Dias de Vida

Norteia-me com teu sorriso fácil 

Aconselha-me com teu passo seguro 

Acompanha-me no teu caminho largo 

Abraça-me no teu braço macio

Como a noite em silêncio se faz vida 

E então aparece como se nunca fora 

Uma história curta que de fato ocorreu 

De personagens que inda ousam viver

Deixa-me seguir tuas pegadas assim 

Para um lugar que só tu sabes onde 

Onde ousarei esquecer este mundo 

Para entrar em outra dimensão

Faz-me, Jesus, viver plenamente Os incontáveis dias que ainda me restam

Trovas

Quem, do infinito, longínquo breu
Se derrama em versos antigos e rimas novas
Que não seja alguém mais do que eu
Navegando feliz onde abundam as trovas

Outro ser de incomparável sutileza
Que viaja pela noite em sonhos divinos
Captando do cosmo toda a beleza
Saltando entre estrelas antes dos sinos

Meio que mágica, é o que acontece
Quando esse menino se pega brincando
Atravessando o dia até que anoitece
E vive entre vivendo e sonhando

Cada palavra com seu mistério velado
É seu diamante, sua maior riqueza
E ele brinca, como se fosse alado
Tomado por um torpor de grandeza

Ainda que a noite termine, enfim
Guarda o poeta a sua melhor rima
Para depois da tormenta, antes do fim
Ele seja exatamente o que ensina



Véspera da véspera de um dia qualquer




Minh'alma se angustia
Pelos meus ausentes rebentos
Alheios a tantos sentimentos
Que sua ausência anuncia

Vem chegando o fim do ano
Na verdade, mais sete dias
Foram tantos de tantas porfias
Que hoje me sinto insano

Falta-me ouvir dizer "papai"
O que muita falta sempre me faz
Se disso depende minha paz
Sem isso tem sido meu ai

Oxala pudesse ouvir suas vozes
Meus filhos todos longe e calados
Ausentes de mim, embalados
No torvelinho de dias algozes


Um desses natais de 2009








Feliz qualquer um dia
Meu filho e minha filha
O tempo agora anuncia
Arrebata-me desta ilha

De vozes estou cercado
Sem glória alguma restante
E temo não ser o indicado
Para ver seu futuro brilhante

Se com saudade os dias conto
De perdas o tempo eu choro
Deixo viver assim meio tonto
Mas sem culpas, jamais imploro



Domingo de sol

Chegou timidamente no parque, àquela hora de carnaval cheio de crianças nas mais inusitadas estrepolias, e foi logo se acomodando no mais discreto dos lugares, à beira do laguinho onde carpas minúsculas sambavam tresloucadamente, à espera das migalhas de pão atiradas pelas boas almas que ali passavam. Ninguém notou, mas ela chorava, discreta mas firmemente. De seus olhos castanhos desciam lágrimas insistentes, parecendo vir do fundo da alma, caso a alma tenha fundo. Ficou ali, parada, olhando os peixes e o musgo, as folhas do capim balançando sobre a água. Ninguém sabia ou poderia saber de sua dor, pois ninguém ali a conhecia. Ou, mesmo se a conhecessem, todos queriam mesmo espairecer, deixar aquele resquício de natureza se assenhorar do metropolitanismo canceroso que assolava a todos. Tinha pouco mais de 20 anos, os cabelos alisados artificialmente com aqueles milagrosos aparelhinhos modernos, vestia-se com toda a simplicidade possível, o que era perfeitamente compatível com o lugar que a acolhia naquele momento. Seu rosto parecia um rosto comum, como aqueles todos que cruzam com a gente na Avenida Afonso Pena, numa segunda feira. Com a diferença de não estampar a urgência e a pressa, mas a de uma abnegação doentia, uma submissão ao fracasso, uma aparência de perda que dificilmente não seria reconhecida. O parque era o último dos refúgios para ela. Em casa, o irmão mais velho vinha com o falatório de irmão mais velho, a mãe com os conselhos imprarticáveis de mãe, os olhares reprovadores do pai, e a curiosidade infernal da irmã caçula. Ali, naquele lugar bucólico, entre as goiabeiras e jabuticabeiras, o remanso sussurrando lá embaixo, os macaquinhos saltitando alegres de galho em galho, ela desejou morrer. Ninguém escolhe o lugar de sua morte, além dos homens-bomba, mas talvez fosse ali um lugar perfeito. Ninguém reparando, a natureza cobrindo a sua dor e vergonha, o trânsito lá na rodovia nem tão intenso, por causa do feriado prolongado. Mas ela não fez nada disso. Em vez de uma atitude extrema, sacou de sua sacola uma garrafa de refrigerante, já nem tão gelado, uma maçã mordiscada, e ficou ali pensativa. De súbito, levantou-se, decidida, e tomo o caminho de casa.