There is a special place where we stop being who we are to simply move beyond our borders. That's where our dream becomes real and tangible, based on our experiences and feelings. Here is one such place. Soak your conscience and live by every word as if you had said the same.
2011-11-19
Todos os dias
Todos os dias, no mesmo caminhar
Te pego pela mão, me deixo levar
Para o lugar que se estende sob o sol
Mesmo que eu não cante, pobre rouxinol
Assento-me na estrada onde posso ver
As sombras da vida, do que sempre fui
E sinto a minha seiva, ora seca, ora flui
Sou um velho que acabou de nascer
E, menino que sou, ainda não sei mentir
Por isso me deixo levar pela mão, a sentir
O sol do dia, todos os dias me cobrindo
Então me amando, e eu assim, sorrindo
Pois ainda que imberbe, sou pleno
Mesmo com tanto desvelo, sou ameno
Mas falando isso, não sou honesto
Se eu me amo, acaba que eu não presto
2011-10-29
Beco da Noite
Descendo a rua desconhecida, numa esquina aparentemente sinistra, para onde eu tinha ido por não saber exatamente onde estava, meu carro foi abordado por um sujeito com uma touca ninja, o que não é uma boa recomendação, em Belo Horizonte ou em qualquer outro lugar do planeta. Mirna se assustou, ao meu lado, mas eu lhe pedi calma, embora em próprio não a tivesse.
- Perdeu, bacana. Passe as chaves, carteira, celular, dinheiro ! - gritou o ladrão, apontando uma arma para a minha cabeça.
Obedeci-he, não sem tremer as pernas, sem consegui pronunciar uma palavra sequer, e saí do carro imediamente, que arrancou, cantando pneus, subindo a rua na mesma direção de onde chegamos. Mirna não teve tempo de sair do carro, e foi junto, para o meu desespero.
Sozinho, de madrugada, sem celular, pois o sujeito me roubara tudo, comecei a caminhar a esmo. Claro que estava tudo escuro. Maldita a hora em que caí naquela rota !
Avancei um ou dois quarteirões, não me lembro bem, e me deparei com as ruínas de um prédio pequeno. Parei para tomar fôlego e investigar, à distância, aquele cenário de filme de terror, quando ouvi tiros atrás de mim.
Não raciocinei direito, nem tive tempo para isso, mas julguei, num lapso de tempo, que era comigo a parada, e não tive dúvidas em correr para o prédio semi-demolido, e me esconder.
Mas não tive sossego, pois o sujeito, ou sujeitos que atiraram, continuaram me procurando, o que me obrigou a me entranhar naquele labirinto de tijolos empoeirados, entulhos e sabe Deus o que mais havia naquele lugar.
Subi por uma parede meio destruída, a tempo de ouvir, lá embaixo, as vozes dos sujeitos me procurando com intenções nada boas. Olharam para cima, mas eu consegui me esconder no telhado carcomido pelo tempo.
Não havia saída. Comecei a empreender uma caminhada muito louca, andando agachado e me egueirando por entre as madeiras do telhado, que me davam uma cobertura razoável.
Foi quando vi que os dois bandidos, agora eu sabia que eram dois, se separaram para me acharem com maior facilidade. De arma em punho, vasculharam o prédio, sem que tivessem a idéia, felizmente, de olhar para cima.
E eu ali, indefeso, sem qualquer prática nesse tipo de situação, um cidadão comum voltando de uma festa com a namorada, e agora daquele jeito.
Nisso, vi surgir à minha frente a cabeça desconfiada de um dos meus perseguidores. Não usava touca ninja como o que me roubou o carro, mas sua cara não recomendava diálogos de amizade. Tive tempo de me preparar e, quando o tive na minha mira, atirei um tijolo, o maior e mais inteiro que achei solto por ali, na cabeça do homem.
Ele sentiu a pancada, levou a mão à testa, olhou para cima e me viu, mas era tarde pra ele. Rodopiou e caiu na poeira, com um baque surdo.
Não parei para conferir se ele estava ou não consciente, vivo ou morto, ou que raios o haviam partido, e procurei me adiantar na fuga, continuando a andar por sobre o telhado.
Eu sabia que o outro sujeito me procurava. Eu só não sabia a razão daquilo tudo, mas tambem não era hora de especulações.
Alguns passos adiante, deparei com uma sala em que uma pessoa assava biscoitos. O cheiro bom dos biscoitos de polvilho me aguçaram a mente e prestei atenção no que via.
Naquela parte da construçõ, ainda em bom estado, vivia provavelmente uma familia, e ali estava a obra de uma artesã culinária. Uma grande cesta cheia de biscoitos quentes, cobertos com uma toalha branca. Desci para o chão, sem fazer barulho, servi-me de alguns biscoitos, coloquei outros no bolso do casaco, que agora se encontrava em estado lastimável, e apurei o ouvido tentando captar a chegada de alguém. Fiquei ali alguns segundos, na expectativa, mas nada aconteceu.
Confiante, então, naqueles monentos de trégu, saboreei aqueles petiscos rapidamente e continuei a minha caminhada, tendo voltado para o telhado.
Estava nisso, quando ouvi passos. Fiquei ali, paralisado de medo, espreitando, quando surgiu a figura desagradável de um sujeito corpulento, com um olho ostentando uma cicatriz enorme, segurando uma faca medonha. Era o meu agressor, pensei.
Eu não tinha como surpreendê-lo, como fizera ao outro, e permaneci quieto onde estava. Foi quando surgiu uma mulher negra, de seus 35 anos, de roupas puídas, mas de uma autoridade desconcertante. Postou-se de pé, diante do sujeito da faca. Passou-lhe, então um descompostura que eu fiquei arrepiado, de onde estava. Não me pareceu que se conheciam, mas a autoridade da mulher era incontestável, e o sujeito pediu desculpas, guardou a faca, e saiu apressadamente.
Claro que eu não confiei em descer e me apresentar à minha salvadora, pois um homem descendo do telhado não devia ser o que ela estava acostumada a ver. Por isso, continuei mais algum tempo, e desci.
O homem carrancudo havia desaparecido. Isso me deu um novo ânimo, e assim eu consegui andar té a civilização, na forma de uma praça pouco movimentada, mas que tinha um bar, onde pedi para telefonar.
Daus horas depois, encontrei-me com Mirna, que me contou que, logo após o assalto, foram perseguidos pela polícia e o bandido foi preso, e ela, claro, libertada, tendo desde então ajudado a polícia, que acabou prendendo os dois sujeitos que me perseguiram. Ela só não entendeu porqque um deles tinha um buraco enorme na cabeça e não falava coisa com coisa, pois se referia um tijolos caindo do céu.
Abracei-a, feliz e grato a Deus por nós dois ainda estarmos vivos.
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