2017-12-27

Pelo Caminho

Vinha eu pelas curvas do caminho
Andando a esmo e sem direção
Pois me perdia em busca de carinho
Tão vazio e árido o meu coração

Numa dessas esquinas encontrei
Causa e efeito de minha solidão
Era um tempo com que jamais sonhei
Era o tempo de minha perdição

Batalhas de guerras reais
Assolaram meus parcos dias
Palavras como armas letais
Atitudes como dolorosas porfias

Meu passado encharcado de sangue
Voltando sinistro ao meu leito
Tornando a minha alma exangue
Como chaga aberta no peito

2017-12-10

Montanha Treme (10/12/2015)

Na Montanha do Espírito Santo
Choro o meu silencioso pranto
Diante da dor de meu velho pai

Seu grito embota meu pensamento
Não posso dar-lhe meu alento
Nem posso aliviar o seu ai

Sofro com ele dias e noites
Esses dolorosos e duros açoites
Entristeço-me, meu semblante cai

Então, alheio à minha propria dor
Procuro servi-lo com todo o ardor

Mas isso não tem sido suficiente
Seu estilo tão exigente

Sou uma criança envelhecida
Por ele trocaria a minha vida

Hoje sou um reles fazendeiro
Arrastando-me não muito ligeiro
Para oferecer ao meu pai o melhor

Mas ele geme e me deixa confuso
Mesmo com seu poema difuso
Que então declama de cor

Já recebi tanto de Deus nesta vida
Que nada mais eu teria a pedir
Mas, Deus, olha essa luta renhida
E alivia a dor de meu pai, e aí

Posso morrer em silêncio e paz
Mesmo sem ter sido capaz
De lhe dar um pouco de mim
Mas não, que não seja tão assim

Noite Sem Alento

Enquanto a noite se finda em vil tormento
Foge minh'alma, foge o pensamento
Em busca de um improvável alento
Pleno de esperanças, de que me alimento

Custa-me acreditar que passou o dia
Quando deixou-me por completo a alegria
E a paz, agora totalmente arredia
Apagou-se em completa e lenta agonia

Hoje preciso que tudo seja diferente
Um dia muito especial e emergente
Evocando prazer e amor ardente
Que me olha de longe, tão ausente

Comece logo, aurora venturosa
Vem me achar nesta cama sem prosa
Que se cala comigo em noites de dor
Longe da paz, ao largo do amor
Traz de volta aquele poeta antigo
Restabelece em mim um amor amigo
Embora não saiba o que eu procuro
Se, quando eu olho, tudo é obscuro

Paz Que Tanto Buscas

Por que te queixas, criatura
Se a paz que buscas jà existe
Se o que te leva à loucura
É apenas porque ainda insistes?

Por que classificar os seres
Em bons ou maus, se somos
Sempre ávidos pelos poderes
Maiores do que já dispomos?

Deleita-te na tua essência
És mais do que mereces ser
Não te escondas na presença
De quem se deleita em te conhecer

O tempo já começou para ti
Anda, avança no caminho
Faz o mínimo de sorrir
Lembra-te, nunca estás sozinho.

2017-11-29

Elegia

Quando me perdi nos beijos
Que nos teus lábios encontrei
Senti que todos os meus desejos
Se encerravam ali, pensei

Pelo teu corpo viajando
Em doces e sinuosas curvas
Como se estivesse delirando
Mente embotada, vistas turvas

Meu vício no máximo grau
Paixão no mais alto nível
Sem discernir o bem ou mal
Era tudo tão incrível

Mas acordei para a realidade
Nu e gelado nas montanhas
Sozinho com a minha saudade
Um frio indelével nas entranhas

2017-10-19

Pizza

De repente, a comissão é comissionada para deliberar sobre um assunto específico, de interesse pessoal, em detrimento dos milhões de eleitores. Ora, quem precisa de eleitores tão longe das eleições? A pergunta do ano é : quem, efetivamente, recebeu comissão para defender esta ou aquela bandeira? Pizza.

2017-03-31

Montanha

 Montanha


Ah, esta cidade ensolarada

Onde fui gerado

De onde fui deportado

Criança de quatorze anos


Por que não me aceitas

Como a pessoa que me tornei

Com as minhas experiências 

Meus amores e fracassos? 


Fui teu professor um dia

Muito depois de ser aluno

Fui teu filho dedicado

Mas me rejeitas com ardor 


Todos os anos quando venho

Tu me imprimes marcas

Como cicatrizes indeléveis

Que eu jamais esquecerei 


A cada vez é uma dor

Diferente, mas eterna

E sempre volto ferido pra casa

Não quero voltar jamais


Será hoje a última noite 

Em que me debato sem dormir

Tentando parecer teu fruto? 


Terei ainda uma nova chance

De suar minha camisa

Tentando te aceitar?

2017-03-13

Poeta antigo


Nos dias em que a vida sorri
Com seus dentes brancos de malicia
E segredos obscuros de alcova
Como se pode ter certeza ao sentir
A tempestuoso torpor de cada delicia
Quando não se pode produzir a prova?
Ora, mas do que fala esse triste poeta
Se no seu coração há tantas chaves
Que abrem portas a nenhum lugar?
Talvez se refira a uma emoção dileta
Aquela que então, livre de entraves
Guardou para si até se findar.
E se há um desfecho,afinal por que toca
Aguçando então a difusa interpretação
Se não sabe onde isso vai parar?
Talvez se insinue como o que foca
Num eu criativo, de vasto coração
Cujo maior pecado tem sido amar.