2017-03-31

Montanha

 Montanha


Ah, esta cidade ensolarada

Onde fui gerado

De onde fui deportado

Criança de quatorze anos


Por que não me aceitas

Como a pessoa que me tornei

Com as minhas experiências 

Meus amores e fracassos? 


Fui teu professor um dia

Muito depois de ser aluno

Fui teu filho dedicado

Mas me rejeitas com ardor 


Todos os anos quando venho

Tu me imprimes marcas

Como cicatrizes indeléveis

Que eu jamais esquecerei 


A cada vez é uma dor

Diferente, mas eterna

E sempre volto ferido pra casa

Não quero voltar jamais


Será hoje a última noite 

Em que me debato sem dormir

Tentando parecer teu fruto? 


Terei ainda uma nova chance

De suar minha camisa

Tentando te aceitar?

2017-03-13

Poeta antigo


Nos dias em que a vida sorri
Com seus dentes brancos de malicia
E segredos obscuros de alcova
Como se pode ter certeza ao sentir
A tempestuoso torpor de cada delicia
Quando não se pode produzir a prova?
Ora, mas do que fala esse triste poeta
Se no seu coração há tantas chaves
Que abrem portas a nenhum lugar?
Talvez se refira a uma emoção dileta
Aquela que então, livre de entraves
Guardou para si até se findar.
E se há um desfecho,afinal por que toca
Aguçando então a difusa interpretação
Se não sabe onde isso vai parar?
Talvez se insinue como o que foca
Num eu criativo, de vasto coração
Cujo maior pecado tem sido amar.