2020-08-19

Janelas

JANELAS

Olho a rua deserta, e meus olhos míopes mal distinguem um vulto sob a luz do poste. Não sei o que está fazendo, mas da minha janela do sexto andar, mesmo sem ver, controlo o universo. É uma partícula quântica que se transporta ora para o passado ora para o futuro, pois o presente está sob o meu comando. Posso dormir ou escrever uma crônica, posso assaltar a geladeira ou posso ser assaltado pelo remorso de ter alcançado 85 quilos na quarentena que é tanto o presente como o passado, mas nenhum sinal de futuro. 
Meu bairro aos poucos vai se rendendo ao silêncio, ainda que a noite ainda seja uma criança. Poucos automóveis deslizam pela avenida como se não tivessem pressa de chegar, nessa letargia inquietante que nos dominou a todos com os últimos acontecimentos. 
Belo Horizonte se prepara para adormecer com seus mortos e seus vivos, todos anônimos, mas cuja história se acrescenta às estatísticas. 
É nesse momento que minha janela não me é suficiente. Desejo ter outra janela, ou outras janelas. Uma que me transporte às alegrias do passado que hoje me trazem boas lembranças, e outra para um futuro desconhecido e improvável em que tudo já se acalmou e eu posso abraçar e beijar, sem medo, as pessoas que amo. 
Enquanto essas janelas não se descortinam à minha frente, eu me contento em me unir aos desesperados dessa noite de domingo que pedem socorro a Deus, e também aos aliviados pela providência desse mesmo Deus. Mas não posso deixar de me irmanar com os que perderam a esperança, dada a condição de criaturas suscetíveis que cada um de nós carrega em seu DNA. E reconheço, afinal, que, ao contrário do que pensei ao iniciar essa avalanche de palavras compondo essa crônica, não sou dono do universo coisa alguma. Sou apenas um sobrevivente. Por enquanto.

Atervaldo G. Araujo - 20200712-2138

Dê a sua cara

Não se furte ao nosso consenso
De que não há mais nenhum jeito
Pois se for como eu ainda penso
Ainda não fizemos nada direito

Talvez ainda possamos repensar 
Trilhar outro caminho que seja
Se a vida tem o poder de nos levar
Seja pra onde nossa mente deseja

Nos momentos de indecisão e dor
Em que ninguém pode nos sentir 
Seja a mão que segura, como tutor

O passo que guia, como a pluma
Que ao final de tudo nos faça rir
Tirando de nós essa pesada bruma