JANELAS
Olho a rua deserta, e meus olhos míopes mal distinguem um vulto sob a luz do poste. Não sei o que está fazendo, mas da minha janela do sexto andar, mesmo sem ver, controlo o universo. É uma partícula quântica que se transporta ora para o passado ora para o futuro, pois o presente está sob o meu comando. Posso dormir ou escrever uma crônica, posso assaltar a geladeira ou posso ser assaltado pelo remorso de ter alcançado 85 quilos na quarentena que é tanto o presente como o passado, mas nenhum sinal de futuro.
Meu bairro aos poucos vai se rendendo ao silêncio, ainda que a noite ainda seja uma criança. Poucos automóveis deslizam pela avenida como se não tivessem pressa de chegar, nessa letargia inquietante que nos dominou a todos com os últimos acontecimentos.
Belo Horizonte se prepara para adormecer com seus mortos e seus vivos, todos anônimos, mas cuja história se acrescenta às estatísticas.
É nesse momento que minha janela não me é suficiente. Desejo ter outra janela, ou outras janelas. Uma que me transporte às alegrias do passado que hoje me trazem boas lembranças, e outra para um futuro desconhecido e improvável em que tudo já se acalmou e eu posso abraçar e beijar, sem medo, as pessoas que amo.
Enquanto essas janelas não se descortinam à minha frente, eu me contento em me unir aos desesperados dessa noite de domingo que pedem socorro a Deus, e também aos aliviados pela providência desse mesmo Deus. Mas não posso deixar de me irmanar com os que perderam a esperança, dada a condição de criaturas suscetíveis que cada um de nós carrega em seu DNA. E reconheço, afinal, que, ao contrário do que pensei ao iniciar essa avalanche de palavras compondo essa crônica, não sou dono do universo coisa alguma. Sou apenas um sobrevivente. Por enquanto.
Atervaldo G. Araujo - 20200712-2138